Paulistanos chegam a ter mais de 70 animais de estimação
MARIA EUGÊNIA DE MENEZES
da Revista da Folha
Pela manhã, ela já estava à beira do portão. No fim da tarde, a mesma coisa. Espiava de longe e depois se aproximava para saudar Eugênio Cesar Almada Santos, 49, quando ele chegava do trabalho.
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O ritual se repetiu por um ano, todos os dias. "Ela me cumprimentava como se fosse o seu dono." O médico resistiu, mas um dia sucumbiu e adotou a recém-batizada Cicala.
No novo lar, no Grajaú, zona sul de São Paulo, a cadela encontrou um quintal grande e gramado, mas teve de aprender a dividi-lo com oito fox terrier, dois terrier brasileiro, dois welsh corgi e outros oito cachorros sem raça definida.
Eugênio faz parte de um grupo de pessoas capazes de devotar a maior parte do tempo, do espaço e da renda aos cuidados com seus cães e gatos.
"Esse apego aos animais está muito relacionado à profunda mudança nas famílias", afirma Denise Jimenez Ramos, professora da pós-graduação de psicologia clínica da PUC-SP. "As famílias eram extensas e estáveis. Hoje, muitas pessoas perderam esses laços."
Perto dali, no Parque Cocaia, extremo sul, os bichos também monopolizam as atenções de outra família. Na casa de Maria Adelaide do Nascimento Pontes, 41, a sala tem poucos móveis --os gatos estragaram--, e é difícil até conseguir um lugarzinho no sofá para sentar.
"A gente fica mesmo um pouco sem espaço", assume Adelaide, dona de 55 gatos e 15 cães, que vive com o pai, quatro irmãos e a sobrinha.
Outra que se define como "cachorreira" convicta é Elisabeth Villas Boas Rodrigues, 58, que adotou Luana por maus-tratos. A fila brasileira tem dificuldades para andar desde que seu antigo dono a atropelou na garagem. Na serra da Cantareira, zona norte, a professora vive na companhia das filhas, Caroline, 29, e Carine, 27, e de oito cães. Todos abandonados.
De acordo com a pesquisa Radar Pet --encomendada pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal--, famílias nas quais os filhos estão crescidos são aquelas em que a presença dos animais é mais comum.
Adoção militante
Quem entra na casa de Marcelo da Silva Vieira, 19, tem a exata noção do seu afeto desmedido pelos animais. No barraco de dois cômodos, o espaço só é suficiente para uma cama, um armário e um fogão. Mas ele sempre encontra um jeito de acomodar mais um bicho.
São 22 gatos, 12 cachorros e 15 ratinhos (roedores de laboratório que ele conseguiu salvar da eutanásia). Mas Marcelo gosta de frisar que nem todos são seus. Aos sábados, marca presença na feira de adoção, e sabe que há aqueles cachorros que ninguém quer.
Marcelo conta que para conseguir ficar com os cachorros de estimação, foi morar sozinho aos 14 anos. Tinha 18 cães quando a mãe foi despejada do lugar onde moravam.
Hoje, na favela do Sapo, no Jardim Antártica, zona norte, recebeu a alcunha de "Marcelo dos Cachorros" e é procurado sempre que um animal da comunidade precisa de ajuda.
Consegue arrecadar 20 quilos com ONGs e amigos, mas gasta 150 quilos por mês. "Alguns acham bonito. Outros pensam que sou louco", diz. Marcelo largou a escola na oitava série e trabalha fazendo serviços em pet shops.
Segundo a legislação municipal, cada residência pode ter, no máximo, dez animais, entre cães e gatos. É preciso, entretanto, preencher algumas condições: iluminação solar, boas condições de higiene e um espaço mínimo para cada animal.
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