20/08/2000
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10h00
da Folha de S. Paulo
A Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) recusou ajuda técnica do governo federal para reestruturar o modelo de atendimento aos infratores.
A colaboração foi oferecida em fevereiro. Seis meses depois, a recusa, aliada às constantes rebeliões na Febem, começa a causar constrangimentos políticos para o governador Mário Covas.
O Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), ligado ao Ministério da Justiça, e a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados farão caravanas e audiências públicas para investigar denúncias de violações aos direitos humanos que estariam sendo praticadas na instituição paulista.
No dia 28 de fevereiro, a chefe de gabinete da Sads (Secretaria de Estado de Assistência e Desenvolvimento Social), Denise Abreu, enviou ofício ao Departamento da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça para responder à oferta de ajuda técnica (para reestruturar o modelo de atendimento da Febem) e financeira.
Diz o ofício: "Temos a esclarecer que o governo (estadual) está desenvolvendo um projeto de reestruturação da Febem, que contempla a execução de obras, efetivação e contratação de funcionários e treinamento de pessoal".
O ofício segue dizendo que é importante o governo federal intensificar suas atividades no combate ao tráfico de drogas, em especial em São Paulo, e fazer o "balizamento" dos programas de televisão que estimulam a violência.
A Folha ouviu quatro conselheiros do Conanda, incluindo o presidente, e um assessor direto do ministério. Todos interpretaram o ofício da mesma forma: São Paulo disse estar fazendo a sua parte e sugeriu ao governo federal que fizesse o mesmo.
No dia seguinte, a secretaria estadual enviou novo ofício dizendo que as obras das novas unidades estavam orçadas em R$ 85 milhões e que, se recebesse ajuda "direta" do ministério, elas seriam agilizadas.
Nesse período em que a Febem recusou ajuda técnica ocorreram mais de dez rebeliões e pelo menos quatro fugas. Um adolescente foi assassinado por outros internos e teve o corpo queimado.
As denúncias de maus-tratos, feitas pelo Ministério Público e entidades locais de direitos humanos, multiplicaram-se e acabaram fazendo parte do relatório da Anistia Internacional, divulgado há um mês, em Londres.
Visibilidade
As denúncias também influenciaram o Conanda, que decidiu vistoriar quatro unidades da Febem em setembro, além de promover a audiência pública em São Paulo com a participação de todos os conselheiros.
Todo o primeiro escalão do governo paulista será convidado, além da cúpula dos poderes Legislativo e Judiciário locais e do Ministério Público.
O objetivo da audiência, explica Cláudio Augusto Vieira da Silva, presidente do Conanda, é chamar a sociedade civil e o governo para discutir o modelo de atuação da Febem e dar "visibilidade" ao problema dos menores.
Desgaste
O peso político da decisão do Conanda é grande. Além de a entidade ser financiada pelo governo federal (como determina a lei), o conselho é composto paritariamente por representantes do poder público (nove ministérios e Casa Civil) e membros da sociedade civil organizada.
A vice-presidente do Conanda, Olga Câmara, é a titular da Secretaria Nacional dos Direitos da Infância e da Adolescência, órgão do Ministério da Justiça.
Isso indica que há uma espécie de consenso no governo federal: apesar do desgaste político a que será submetido o governo do Estado, é preciso investigar de perto a situação da Febem paulista.
Conanda e Comissão de Direitos Humanos agem de forma pública, acompanhados pela imprensa. Ou seja, as deficiências da fundação ficarão expostas.
Em outubro de 99, após a rebelião da Febem Imigrantes, na qual quatro internos foram assassinados (um dos adolescentes foi cremado) e 48 pessoas ficaram feridas, Olga responsabilizou o governo de São Paulo pelos fatos.
Quando o governador Mário Covas disse que os problemas da Febem seriam tratados por ele pessoalmente, Olga rebateu argumentando que a fundação já havia virado um problema nacional.
Além do Conanda, Covas enfrentará pressões de deputados. Na última quarta-feira, o deputado federal Marcos Rolim (PT-RS), presidente da Comissão de Direitos Humanos, solicitou audiência com o governador para discutir a crise na Febem. Para ele, o assunto não pode mais ficar restrito ao âmbito do Estado.
Em outubro, a comissão fará uma caravana por unidades da Febem em todo o país. Em São Paulo, os deputados devem, segundo Rolim, "acampar" para apontar as principais violações aos direitos humanos e elaborar um documento com sugestões para resolver as falhas.
Para o presidente do Conanda, uma das principais irregularidades de São Paulo é o fato de os adolescentes ficarem em cadeiões e presídios de segurança máxima.
"Na prática, a redução da maioridade penal já é realidade em São Paulo.", diz Vieira da Silva.
Quem escolherá as quatro unidades da Febem a serem visitadas serão membros do Conselho Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente.
"Sabemos que, se o governador não quiser, a realidade da Febem não mudará", diz Rolim. "A decisão de não aceitar ajuda em relação aos adolescentes está deixando os defensores dos direitos humanos horrorizados", afirma.
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Febem SP recusou ajuda do governo federal
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GABRIELA ATHIASda Folha de S. Paulo
A Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) recusou ajuda técnica do governo federal para reestruturar o modelo de atendimento aos infratores.
A colaboração foi oferecida em fevereiro. Seis meses depois, a recusa, aliada às constantes rebeliões na Febem, começa a causar constrangimentos políticos para o governador Mário Covas.
O Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), ligado ao Ministério da Justiça, e a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados farão caravanas e audiências públicas para investigar denúncias de violações aos direitos humanos que estariam sendo praticadas na instituição paulista.
No dia 28 de fevereiro, a chefe de gabinete da Sads (Secretaria de Estado de Assistência e Desenvolvimento Social), Denise Abreu, enviou ofício ao Departamento da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça para responder à oferta de ajuda técnica (para reestruturar o modelo de atendimento da Febem) e financeira.
Diz o ofício: "Temos a esclarecer que o governo (estadual) está desenvolvendo um projeto de reestruturação da Febem, que contempla a execução de obras, efetivação e contratação de funcionários e treinamento de pessoal".
O ofício segue dizendo que é importante o governo federal intensificar suas atividades no combate ao tráfico de drogas, em especial em São Paulo, e fazer o "balizamento" dos programas de televisão que estimulam a violência.
A Folha ouviu quatro conselheiros do Conanda, incluindo o presidente, e um assessor direto do ministério. Todos interpretaram o ofício da mesma forma: São Paulo disse estar fazendo a sua parte e sugeriu ao governo federal que fizesse o mesmo.
No dia seguinte, a secretaria estadual enviou novo ofício dizendo que as obras das novas unidades estavam orçadas em R$ 85 milhões e que, se recebesse ajuda "direta" do ministério, elas seriam agilizadas.
Nesse período em que a Febem recusou ajuda técnica ocorreram mais de dez rebeliões e pelo menos quatro fugas. Um adolescente foi assassinado por outros internos e teve o corpo queimado.
As denúncias de maus-tratos, feitas pelo Ministério Público e entidades locais de direitos humanos, multiplicaram-se e acabaram fazendo parte do relatório da Anistia Internacional, divulgado há um mês, em Londres.
Visibilidade
As denúncias também influenciaram o Conanda, que decidiu vistoriar quatro unidades da Febem em setembro, além de promover a audiência pública em São Paulo com a participação de todos os conselheiros.
Todo o primeiro escalão do governo paulista será convidado, além da cúpula dos poderes Legislativo e Judiciário locais e do Ministério Público.
O objetivo da audiência, explica Cláudio Augusto Vieira da Silva, presidente do Conanda, é chamar a sociedade civil e o governo para discutir o modelo de atuação da Febem e dar "visibilidade" ao problema dos menores.
Desgaste
O peso político da decisão do Conanda é grande. Além de a entidade ser financiada pelo governo federal (como determina a lei), o conselho é composto paritariamente por representantes do poder público (nove ministérios e Casa Civil) e membros da sociedade civil organizada.
A vice-presidente do Conanda, Olga Câmara, é a titular da Secretaria Nacional dos Direitos da Infância e da Adolescência, órgão do Ministério da Justiça.
Isso indica que há uma espécie de consenso no governo federal: apesar do desgaste político a que será submetido o governo do Estado, é preciso investigar de perto a situação da Febem paulista.
Conanda e Comissão de Direitos Humanos agem de forma pública, acompanhados pela imprensa. Ou seja, as deficiências da fundação ficarão expostas.
Em outubro de 99, após a rebelião da Febem Imigrantes, na qual quatro internos foram assassinados (um dos adolescentes foi cremado) e 48 pessoas ficaram feridas, Olga responsabilizou o governo de São Paulo pelos fatos.
Quando o governador Mário Covas disse que os problemas da Febem seriam tratados por ele pessoalmente, Olga rebateu argumentando que a fundação já havia virado um problema nacional.
Além do Conanda, Covas enfrentará pressões de deputados. Na última quarta-feira, o deputado federal Marcos Rolim (PT-RS), presidente da Comissão de Direitos Humanos, solicitou audiência com o governador para discutir a crise na Febem. Para ele, o assunto não pode mais ficar restrito ao âmbito do Estado.
Em outubro, a comissão fará uma caravana por unidades da Febem em todo o país. Em São Paulo, os deputados devem, segundo Rolim, "acampar" para apontar as principais violações aos direitos humanos e elaborar um documento com sugestões para resolver as falhas.
Para o presidente do Conanda, uma das principais irregularidades de São Paulo é o fato de os adolescentes ficarem em cadeiões e presídios de segurança máxima.
"Na prática, a redução da maioridade penal já é realidade em São Paulo.", diz Vieira da Silva.
Quem escolherá as quatro unidades da Febem a serem visitadas serão membros do Conselho Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente.
"Sabemos que, se o governador não quiser, a realidade da Febem não mudará", diz Rolim. "A decisão de não aceitar ajuda em relação aos adolescentes está deixando os defensores dos direitos humanos horrorizados", afirma.
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