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Cotidiano
29/10/2003 - 02h53

Classe média abastece favela com ecstasy no Rio

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FABIANA CIMIERI
TALITA FIGUEIREDO

da Folha de S.Paulo, no Rio

De clientes, jovens da classe média carioca passaram a fornecedores do tráfico nas favelas da Rocinha (zona sul do Rio), do Vidigal (zona sul) e de Niterói (cidade a 15 km da capital fluminense).

Investigação da 16ª DP (Delegacia de Polícia), na Barra da Tijuca (zona oeste), indica que os traficantes de classe média, criados na região mais nobre do Rio, estariam fornecendo a droga sintética ecstasy vendida nas bocas-de-fumo da Rocinha.

Na 15ª DP (Gávea, zona sul), outra investigação está chegando a conclusão semelhante. Traficantes do Vidigal são abastecidos por moradores da zona sul. O grupo também fornece maconha e haxixe para favelas niteroienses.

Em decorrência da investigação da delegacia da Barra, o universitário Marco Antônio Hurtado Júnior, 22, e o publicitário Daniel Cruz de Almeida, 22, foram presos em Copacabana (zona sul), no último dia 14. Teriam sido flagrados com 300 gramas de maconha.

Na delegacia, os dois não depuseram. Disseram que só falarão em juízo. A Folha não conseguiu ouvir seus advogados.

O inquérito acusa a dupla de montar um disque-drogas para consumidores de classe média alta na Barra. Eles forneceriam maconha, cocaína e ecstasy.

No mesmo dia, outra prisão reforçou a suspeita de que jovens de classe média estariam fornecendo ecstasy para traficantes da Rocinha. Na Gávea, um suposto traficante radicado na favela teria sido flagrado com 20 comprimidos. Ele seria o fornecedor de maconha e cocaína ao disque-drogas.

Ecstasy na Rocinha

Os policiais descobriram que já há comprimidos da droga sintética nas bocas-de-fumo da Rocinha. A venda de ecstasy ainda não havia sido constatada em favelas.

O ecstasy é uma droga produzida em laboratório e usada pela classe média alta em festas e boates. O comprimido custa R$ 35.

A 15ª DP descobriu uma quadrilha de classe média que estaria fornecendo maconha do Paraguai a traficantes de favelas.

Dois supostos integrantes da quadrilha, Odim Victor Americano Sandahl Filho, 33, e Alan Klauss Andrade, 33, foram presos em um prédio no Bairro Peixoto (Copacabana), no dia 15. Segundo a polícia, eles guardavam 430 kg de maconha e 500 bolas de haxixe na garagem do edifício. Acusado de integrar a quadrilha, Rogério Azevedo Carreteiro, 24, foi preso anteontem. Ele morava no prédio onde a maconha foi apreendida. Sandahl Filho é morador do Jardim Botânico. Andrade, de Niterói. Os três negam ser traficantes.

Para o antropólogo Gilberto Velho, os jovens de classe média estão suscetíveis a entrar para o narcotráfico por causa da desvalorização do trabalho: "Eles querem ter independência com pressa e voracidade. Não aguentam esperar, fazer uma faculdade, arrumar emprego em que vão ganhar num mês o que ganham num fim de semana vendendo drogas".

Já a inspetora Marina Maggessi, coordenadora de Inteligência da Secretaria de Segurança do Estado do Rio, considera que a maioria dos traficantes de classe média entra no negócio por ser viciada.

Ela afirma que, diferentemente dos traficantes pobres, eles atuam de forma autônoma. Segundo ela, muitas vezes um deles viaja para buscar droga no Paraguai ou na Colômbia, mas depois da volta cada um age sozinho, vendendo para seu círculo de amigos.

Além do tráfico de drogas, jovens de classe média se associaram para outros crimes. A 13ª DP (Delegacia de Polícia), em Copacabana, investiga uma quadrilha formada por cerca de 40 jovens acusados de assaltar casas e espancar suas vítimas.

A quadrilha teria assaltado, segundo a polícia, pelo menos um hotel e cinco apartamentos, entre eles o do ministro Luiz Fux, 50, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), em maio deste ano. Foram presos sete acusados, todos são de classe média.

A delegada-adjunta da 13ª DP, Andréa Menezes, afirmou que os integrantes do grupo são, na maioria, moradores de Copacabana. Também há suspeitos de Ipanema e de favelas da região.
 

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