Publicidade

Cotidiano
31/08/2000 - 13h32

Análise: Dr. Jekyll, mr. Hide (o caso Pimenta Neves)

Publicidade
CRISPIM ALVES
Coordenador de Cidades da Folha Online

Antes de mais nada, "Dr. Jekyll, mr. Hide" não é, nem de perto,.uma alusão à personalidade do jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves. Não o conheço. Portanto, não teria elementos para falar sobre. A menção é, sim, uma referência ao comportamento de todos órgãos públicos envolvidos nesse caso.

Demorei a escrever sobre esse assunto porque também demorei a absorvê-lo e a entendê-lo em todas as suas nuanças. Acho que ainda nem consegui, como imagino estar acontecendo com centenas de outros jornalistas.

Não vou nem entrar no mérito do que poderia levar um conceituado jornalista, diretor de redação de um dos maiores jornais do Brasil, a assassinar sua ex-namorada, também jornalista. Apenas a consciência de Pimenta Neves poderá responder a essa pergunta. Além disso, já há muitos mortos nessa história.

Nem vou tecer comentários sobre o quanto esse episódio deixou boquiaberta (e sem ação) toda a imprensa. Afinal de contas, expôs a todos "os mortais" um cenário até então vivenciado apenas por quem está dentro das redações. Muito menos vou analisar o teor da cobertura do caso nos meios de comunicação. Os diferentes enfoques, os tratamentos, a devassa da vida alheia.

Quero me ater apenas a dois fatos. Que justificam o título desse artigo. Um deles está sendo discutido amplamente em qualquer botequim desde a transferência de Pimenta Neves para uma clínica psiquiátrica. O outro é mais oculto, acontece nos bastidores.

As leis

O que todos que não conhecem profundamente as leis estão se perguntando é o porquê de o assassino confesso de Sandra Gomide ter um tratamento aparentemente tão diferenciado. Não vou discorrer sobre questões jurídicas. Não é minha especialidade. Os conceituados advogados do caso devem saber exatamente o que dizem as leis.

E Pimenta Neves nem tem nada a ver com nisso. Poderia ser qualquer pessoa que tivesse a sorte (e condições) de contratar um bom advogado.

Agora, se essas leis garantem esse tipo de tratamento, por que ele não é, invariavelmente, dispensado a todos?. Exemplos de pessoas que matam por motivos passionais existem aos montes. Estão todos internados em uma clínica psiquiátrica para fazer tratamento ou vão aguardar o processo em liberdade? Todos? Acredito que não.

Mas não são todos por quê? Por que não têm dinheiro? Por que não têm grandes advogados? Mas não é obrigação de qualquer advogado saber exatamente o que dizem as leis?

Para os cidadãos comuns, as respostas para essas perguntas são simples, rápidas. Agora, pergunto a todos os advogados, policiais e juízes deste país: As leis não têm que ser aplicadas, indistintamente, a todos? Do rico ao pobre? Do instruído ao analfabeto? Gostaria muito de obter respostas.

Será que, a partir desse sórdido episódio, o Zé Mané da Esquina que cometer o mesmo tipo de crime, nas mesmas circunstâncias, será tratado da mesma forma?. É claro que isso não vai acontecer tão facilmente. Talvez nem aconteça (é só o caso Pimenta Neves perder fôlego para o tema ser esquecido, como acontece com qualquer outra história). Afinal, os contrastes do Brasil, em todas as esferas, parecem ser imutáveis.

A outra face

O outro lado de toda essa história talvez seja mais complicado, com um "Q" de vingança. Cobri casos de polícia durante anos, ainda cubro alguns. Não me recordo (posso estar enganado, é claro) de nenhum cujo inquérito tenha sido encerrado de forma tão rápida, sem os principais laudos periciais de praxe.

Também nunca soube de outros exemplos em que uma ordem judicial fora dada por telefone, sem sequer que os documentos que a embasariam tivessem sido analisados. Tanto que a Justiça teve que voltar atrás, horas depois, após analisar esses documentos. Dessa vez, por escrito, que é o que realmente vale, segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo.

Isso sem contar o episódio da gravação clandestina do depoimento de Pimenta Neves. Suspeita-se que uma autoridade a tenha feito. Motivo pelo qual me recuso a comentar tamanho descalabro.

Bom, voltando à parte séria. Quando falo de uma suposta conotação vingativa, não digo que seja algo de caso pensado por parte das instituições envolvidas, e realmente espero que não seja. Mas talvez uma vingança inconsciente da polícia (também, por que não, da Justiça), tantas vezes criticada pela imprensa.

Há quem aposte todas as fichas que Pimenta Neves já está condenado, antes mesmo de ser julgado, pelo simples fato de ser jornalista, por fazer parte da "caserna". A "caserna" que pega no pé todas as vezes que a polícia ou a Justiça cometem erros.

Enfim e para não me estender muito, esses são apenas alguns ingredientes que tornam esse caso um verdadeiro "Dr. Jekyll, mr. Hide". Por um lado, Pimenta Neves parece estar sendo privilegiado porque resolveram aplicar exatamente o que dizem as leis. Por outro, parece haver um atropelo, em que alguns procedimentos corriqueiros são deixados de lado para simplesmente dar uma satisfação à opinião pública. As duas vertentes, a meu ver, são perigosas.


E-mail: crispimalves@uol.com.br

Clique aqui para ler mais notícias sobre o assassinato da jornalista Sandra Gomide

Leia mais notícias de cotidiano na Folha Online
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca