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Cotidiano
13/09/2000 - 17h12

Veja a íntegra de declaração do jornalista demitido por Pimenta

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da Folha Online

O jornalista Carlos Roberto Franco, 40, declarou que foi demitido do jornal "O Estado de S. Paulo" em 17 de dezembro porque ajudou a colega Sandra Gomide, 32, que havia trabalhado com ele, a achar um novo emprego.

Franco foi demitido pelo ex-diretor de Redação Antônio Marcos Pimenta Neves, 63, que namorou Sandra. A jornalista, que foi editora de Economia do jornal, tinha sido mandada embora do periódico por Pimenta Neves depois de terminar o relacionamento com ele.

Pimenta Neves assassinou Sandra no dia 20 de agosto em Ibiúna, cidade a 70 km de São Paulo.

A declaração de Franco foi enviada pelos advogados da família de Sandra à Justiça como prova de que Pimenta Neves perseguia a vítima e de que poderá tentar intimidar testemunhas se for libertado. O repórter especial já foi readmitido pelo jornal "O Estado de S.Paulo".

Em sua declaração, Franco conta como conheceu Sandra e diz que ela sempre foi discreta em relação ao namoro com Pimenta Neves. Ele diz que Pimenta Neves, após o fim do relacionamento, falava mal da ex-namorada e chegou a lhe fazer uma advertência para que não ajudasse Sandra.

Franco destaca ainda que Pimenta Neves tentava impedir que Sandra conseguisse uma recolocação, falando mal da ex-namorada para possíveis empregadores.

Quando foi demitido, Franco conta que Pimenta Neves lhe disse que era por causa de um corte de custos e não por problemas pessoais. No entanto, Franco afirma que um dos editores do jornal lhe informou que o real motivo era a ajuda prestada pelo jornalista à Sandra.

A seguir, a declaração de Franco, que foi enviada originalmente à "Associação Justiça para Sandra Gomide".

São Paulo, 30 de agosto de 2000.

À

Associação Justiça para Sandra Gomide.

Eu, Carlos Roberto Pereira Franco, 40 anos, jornalista, carteira de identidade 854.600, emitida em sua segunda via pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás em 01 de março de 2000, CPF número 350.668.816-20, residente em São Paulo e repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo, venho por meio deste testemunho voluntário esclarecer o fato de o meu nome ser citado na cobertura jornalística do assassinato de Sandra Florentino Gomide por Antônio Marcos Pimenta Neves:

1- Conheci Sandra Gomide, então coordenadora do caderno Empresas & Carreiras da Gazeta Mercantil, no fim de maio de 1998, quando esta me contratou para o cargo de editor do caderno. Naquele mês residia no Rio de Janeiro e exercia a função de editor-adjunto do caderno de economia do Jornal do Brasil, mas havia informado a colegas da minha insatisfação, naquele momento, com a equipe que me chefiava. O que levou o então diretor da sucursal Rio da Gazeta Mercantil, Rodrigo Mesquita, a indicar o meu nome para Sandra. Trabalhei sob sua chefia por cerca de 45 dias, ao término dos quais ela foi demitida Gazeta Mercantil, que passaria por nova fase de ajustes.

2- Sempre muito discreta, Sandra não chegava sequer a mencionar nesse período seu relacionamento afetivo com Antônio Marcos Pimenta Neves, nesse período em que trabalhei sob sua chefia na Gazeta Mercantil. Das poucas vezes em que a mim mencionou o nome de Pimenta Neves, meses após sua saída da Gazeta Mercantil, foi no sentido de que havia recebido uma oferta de trabalho para ir para o O Estado de S. Paulo, mas recusaria, naquele momento, para evitar comentários sobre o relacionamento afetivo que mantinha. Posteriormente, porém, ela informou que havia fechado com o Estadão e passou a ligar, esporadicamente, para solicitar um telefone ou outro de fontes de informação da área econômica.

3- Em fevereiro de 2000, Sandra entrou em contato comigo para saber quanto estava ganhando na Gazeta Mercantil e se estaria disposto a sair e voltar ao Estadão, onde havia trabalhado de 1991 a 1995, nas sucursais do Rio e Brasília. O mercado passava por momento de ebulição, com o lançamento do jornal Valor Econômico e a proposta que ela tinha e que me foi apresentada por Antônio Marcos Pimenta Neves, satisfez, naquele momento, as minhas expectativas. Data desse mês, anterior a minha contratação, o primeiro encontro que teria com Pimenta Neves.

4- Em março, comecei a trabalhar como repórter especial de O Estado de S. Paulo e com Sandra e Luiza Pastor, todos com a mesma função naquele momento, a dividir as principais pautas do caderno. Meses depois e quatro editores em quatro meses, Sandra viria a ocupar o posto de editora. O que ocorreu por um período inferior a 20 dias. Procurando entender o que havia ocorrido perguntei a uma amiga de longa data de Sandra, também colega de trabalho no Estadão, o que havia ocorrido, pois sempre reservada Sandra nunca chegava a falar abertamente sobre suas relações com Pimenta Neves. Essa amiga me informou que Pimenta Neves estaria cumprindo ali uma ameaça que fizera a Sandra, que se esta terminasse o relacionamento, nunca visível dentro da redação, este a demitiria.

5- A partir dessa demissão, Sandra passou a ser o assunto principal de Pimenta Neves. Com pessoas mais próximas, procurava encontrar outras razões para a demissão que não as pessoais, que corriam os corredores do Estadão e do mercado jornalístico em São Paulo. Dias após, Pimenta Neves muda o seu discurso e começa a falar mal de Sandra para quem se dispusesse a ouvi-lo, sem que conseguisse elaborar nada de concreto de fato. Começa a dizer que fará de tudo para que esta não arrume emprego e me adverte no sentido de que não a ajude, pois na primeira semana havia conseguido trabalho para Sandra em uma assessoria de imprensa, em outra cidade, no Rio. A minha intenção era de que ela pudesse recomeçar sua carreira em outro lugar, sem o peso de Pimenta Neves que carregava e que levava colegas de profissão a terem dúvida da sua capacidade profissional. O que nunca duvidei, mas percebia, nas duas redações em que trabalhamos juntos que haviam suspeitas se ela estava ali por desempenho profissional ou por ser a namorada de Pimenta Neves.

6- No dia 17, a quinta-feira que antecedeu ao crime, por volta das 19h30, o editor de economia do Estadão William Salasar, comunica que Pimenta mandou demitir-me, ele disse que não encontrava razão para o ato, mas que eu me sentisse liberado para saber o que teria ocorrido. Decidi falar com Pimenta, o que se tornou quase desnecessário quando alguns colegas me informaram que Pimenta Neves havia dito no dia anterior a uma editora do jornal que eu estaria ajudando Sandra a arrumar emprego e que sofreria consequências com isso. Na sua sala, Pimenta Neves, sempre muito frio, disse que minha demissão não era motivada por questões pessoais ou profissionais, mas apenas por corte de custos e que como teria mais facilidade que outras colegas, que citou nominalmente, em arrumar emprego, optou por me demitir. Um dos editores executivos do jornal _são quatro_ porém, questionou Pimenta Neves sobre a decisão e este o informou que eu estaria ajudando Sandra e ele havia avisado que não queria ninguém ajudando a profissional a conseguir emprego. Ao contrário, ligou para empresas onde esta chegou a fazer entrevista, como uma assessoria que presta serviços ao Banco Opportunity, desqualificando o trabalho de Sandra. O que tinha peso devido ao poder exercido por Pimenta e o fato de nenhuma empresa querer briga com um jornal de peso de O Estado de S. Paulo. As tentativas de prejudica-la seriam várias e incansáveis durante um período de mais de 20 dias, onde até o auditório do jornal foi palco de um discurso de Pimenta detratando Sandra, no sentido de que todos os colegas ficassem alertas para a sua conduta, que antes elogiada por Pimenta, passou a ser tratada como aética.

Carlos Roberto P. Franco

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