O seu
trabalho é garimpar as atividades culturais gratuitas
ou de preço popular em SP e divulgá-las no site
Sérgio Beni Luftglas imaginou que talvez pudesse tirar
proveito de seu maior problema -o de viver na pindaíba,
contando os centavos para pagar as contas, mas gostar de atividades
culturais. Daí veio a inspiração de ganhar
dinheiro dando dicas para quem, como ele, também não
tinha dinheiro para ir a shows, peças de teatro, concertos
e cinema. Nascia, assim, a comunidade virtual dos pindaíbas.
Estudante de jornalismo, Sérgio acabou trabalhando
em banco e até vendendo roupa em loja de um parente.
"Nada deu certo." As atividades de que gostava não
lhe davam salário -e ele não gostava das que
lhe traziam o sustento. "A mudar de emprego, preferi
mudar de país."
Foi viver em Israel, onde, entre os mais diversos bicos, acabou
trabalhando num hotel, onde despertou a atenção
de um empresário cego inglês. Ele ganhou alguns
trocados servindo de guia para o cego em Jerusalém
e, no final, recebeu um convite para ser seu auxiliar em Londres,
de modo que o ajudasse a andar pelas ruas da capital inglesa.
Sérgio apreciou não apenas o salário,
mas, especialmente, a chance de conhecer a vida cultural londrina.
Imaginou que tão cedo não voltaria ao Brasil,
mas estava errado. O pai de Sérgio, um sobrevivente
de campo de concentração da Polônia, foi
desenganado pelos médicos, situação que
o forçou a voltar para São Paulo. "Não
tinha como ficar
cuidando de alguém lá fora, enquanto meu pai
precisava de cuidados."
Estava, mais uma vez, sem emprego e ia pegando o que lhe aparecia
pela frente. Fez alguns papéis de figuração
em filmes, mas o trabalho era incerto e o cachê era
baixo.
A inspiração de uma fonte de renda surgiu de
uma brincadeira. Criou no Orkut a comunidade dos "duros".
O sucesso animou-o a fazer disso um negócio.
Sérgio chamou dois amigos de adolescência (Ivo
Hudler e Mauro Skujis) e, há seis meses, colocou no
ar o endereço www.pindaiba.com.br.
Seu trabalho é garimpar as atividades culturais gratuitas
ou de preço popular na cidade de São Paulo e
divulgá-las no site. "O paulistano esperto consegue
ter uma vida cultural de bom nível sem colocar a mão
no bolso." Resolveu enveredar também por outras
áreas além das culturais. Dá dicas de
quem quer viajar usando promoções do tipo passagem
de avião por R$ 1 e faz incursões culinárias.
Elegeu o omelete um dos pratos de quem chega em casa e tem
pouco para comer, mas aprecia certo refinamento. Os internautas
de seu site divulgam as mais diferentes receitas de omelete.
Nestes seis meses, o site já conseguiu dois pequenos
anunciantes. "Dá apenas para pagar os custos."
Até agora, nenhum dos sócios conseguiu ganhar
dinheiro.
Não se pode dizer que eles não dão o
exemplo de como viver na pindaíba. A Sérgio
resta, pelo menos, o consolo de não ser figurante,
mas protagonista. "Sou um pindaíba com status
jornalístico", brinca.
Coluna originalmente
publicada na Folha de S.Paulo, editoria Cotidiano.
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