REFLEXÃO


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urbanidade
30/04/2008

A comunidade dos pindaíbas

O seu trabalho é garimpar as atividades culturais gratuitas ou de preço popular em SP e divulgá-las no site


Sérgio Beni Luftglas imaginou que talvez pudesse tirar proveito de seu maior problema -o de viver na pindaíba, contando os centavos para pagar as contas, mas gostar de atividades culturais. Daí veio a inspiração de ganhar dinheiro dando dicas para quem, como ele, também não tinha dinheiro para ir a shows, peças de teatro, concertos e cinema. Nascia, assim, a comunidade virtual dos pindaíbas.

Estudante de jornalismo, Sérgio acabou trabalhando em banco e até vendendo roupa em loja de um parente. "Nada deu certo." As atividades de que gostava não lhe davam salário -e ele não gostava das que lhe traziam o sustento. "A mudar de emprego, preferi mudar de país."

Foi viver em Israel, onde, entre os mais diversos bicos, acabou trabalhando num hotel, onde despertou a atenção de um empresário cego inglês. Ele ganhou alguns trocados servindo de guia para o cego em Jerusalém e, no final, recebeu um convite para ser seu auxiliar em Londres, de modo que o ajudasse a andar pelas ruas da capital inglesa. Sérgio apreciou não apenas o salário, mas, especialmente, a chance de conhecer a vida cultural londrina.

Imaginou que tão cedo não voltaria ao Brasil, mas estava errado. O pai de Sérgio, um sobrevivente de campo de concentração da Polônia, foi desenganado pelos médicos, situação que o forçou a voltar para São Paulo. "Não tinha como ficar
cuidando de alguém lá fora, enquanto meu pai precisava de cuidados."

Estava, mais uma vez, sem emprego e ia pegando o que lhe aparecia pela frente. Fez alguns papéis de figuração em filmes, mas o trabalho era incerto e o cachê era baixo.

A inspiração de uma fonte de renda surgiu de uma brincadeira. Criou no Orkut a comunidade dos "duros". O sucesso animou-o a fazer disso um negócio.

Sérgio chamou dois amigos de adolescência (Ivo Hudler e Mauro Skujis) e, há seis meses, colocou no ar o endereço www.pindaiba.com.br. Seu trabalho é garimpar as atividades culturais gratuitas ou de preço popular na cidade de São Paulo e divulgá-las no site. "O paulistano esperto consegue ter uma vida cultural de bom nível sem colocar a mão no bolso." Resolveu enveredar também por outras áreas além das culturais. Dá dicas de quem quer viajar usando promoções do tipo passagem de avião por R$ 1 e faz incursões culinárias. Elegeu o omelete um dos pratos de quem chega em casa e tem pouco para comer, mas aprecia certo refinamento. Os internautas de seu site divulgam as mais diferentes receitas de omelete.

Nestes seis meses, o site já conseguiu dois pequenos anunciantes. "Dá apenas para pagar os custos." Até agora, nenhum dos sócios conseguiu ganhar dinheiro.

Não se pode dizer que eles não dão o exemplo de como viver na pindaíba. A Sérgio resta, pelo menos, o consolo de não ser figurante, mas protagonista. "Sou um pindaíba com status jornalístico", brinca.

Coluna originalmente publicada na Folha de S.Paulo, editoria Cotidiano.

   
   
 
 

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