|
O
ex-presidente Clinton e a professora do Ceará
Para dar
uma palestra sobre educação em São Paulo,
o ex-presidente Bill Clinton cobrou um cachê de R$ 360
mil, sem incluir os gastos com passagem, hospedagem e alimentação.
Num evento patrocinado pelo jornal "Valor Econômico"
e pela Telemar, previsto para o próximo mês,
Clinton pretende mostrar a importância do combate à
exclusão digital, que visa reduzir a legião
dos sem-computador, para viabilizar as nações
na era da informação.
Um dos
mais bem-sucedidos presidentes da história dos Estados
Unidos, ele comandou uma economia que cresceu a taxas surpreendentes,
reduziu os rombos orçamentários e, no final,
apesar de todos os escândalos, saiu do governo com altíssima
popularidade. Montado nesse currículo de conquistas,
tornou-se o conferencista mais caro do mundo.
O preço
de tabela de sua palestra é, aliás, mais alto
do que os R$ 360 mil, chegando a R$ 520 mil -o suficiente
para montar laboratórios de informática em cem
escolas, conectando-as à internet e beneficiando pelo
menos 100 mil estudantes.
Ao escolher
a divisão digital como tema de conferência, Clinton
já dá à elite político-econômica
brasileira uma aula sobre estruturas de poder: a eficiência
das sociedades está ancorada, em larga medida, na sua
capacidade de compartilhar conhecimento e, por consequência,
de disseminar os códigos da informática. O analfabeto
digital é um pária, condenado à marginalidade:
não contribui ao enriquecimento da comunidade e, pior,
vai depender de algum tipo de assistência.
Por trás
dessa convicção, estão os bilionários
planos do governo americano, estimulados durante a gestão
de Clinton, para conectar as escolas à cultura digital,
especialmente nas regiões mais pobres. Envolveram-se
intelectuais, pesquisadores, educadores e empresários,
num notável movimento de democratização
do saber; alguns dos principais pedagogos e algumas empresas
de informática se deixaram seduzir pelo desafio de
eliminar o apartheid digital e produziram programas para encantar
os desencantados jovens.
Há
um interesse mundial na busca de métodos para ensinar
melhor, usando novas tecnologias. Um esforço inútil,
porém, caso não se preparem educadores.
Daí
também que, na busca da integração do
conhecimento, se encontram dicas valiosas em indivíduos
anônimos, que, no seu cotidiano, seduzem alunos, mesmo
sem dispor de recursos. Produzem, em essência, tecnologia
inovadora.
Também
preocupada com a exclusão educacional, Fátima
Timbó, que dá aulas no interior do Nordeste,
conseguiu ganhar um prêmio de R$ 4.000.
Pode não
ser nada perto do preço da conferência de Clinton,
mas significa quase dois anos do salário de uma professora
no interior do Nordeste. Por incrível que pareça,
ela consegue ensinar, tanto quanto o ex-presidente americano,
a lidar com a exclusão do conhecimento.
Ela é
professora no norte do Ceará, onde ganhou o prêmio
de R$ 4.000 porque produz ótimos alunos. A imensa maioria
de sua turma obtém notas altas. "Antes de começar
o trabalho com os conteúdos, eu faço atividades
para melhorar a auto-estima do grupo. Trago músicas,
textos de que possam extrair mensagens sedutoras, faço
brincadeiras. Convido os alunos a escrever poesias sem preocupação
com a gramática, para que se sintam gente, produtores
de conhecimento, pessoas com histórias de vida."
Mas o
melhor é o que está por trás do prêmio
de R$ 4.000 da talentosa professora: uma das experiências
brasileiras mais férteis para melhorar a produtividade
nas salas de aula.
Coordenado
pelo Instituto Multiplicar, um grupo de empresas de telecomunicações
e do sistema financeiro fez do Ceará um laboratório
e desenvolveu um programa que dá dinheiro a professores
de acordo com o desempenho de seus alunos.
Para cada
aluno que atinge bons resultados nas provas, submetidas à
Secretaria Estadual da Educação, o professor
ganha dinheiro -sem nenhum custo ao poder público.
O professor passa a ser sócio do sucesso dos estudantes
-e também do seu fracasso.
O prêmio
é uma isca para que ele se deixe seduzir pela idéia
da reciclagem profissional e, assim, torne mais estimulantes
as aulas. O papel do poder público é fornecer
essas condições de reciclagem, num processo
favorecido pelos novos meios de comunicação,
que facilita o ensino a distância.
A idéia
está apresentando resultados tão positivos que
a Secretaria da Educação também vai oferecer
prêmios, alargando o alcance do projeto. O Instituto
Multiplicar prepara-se agora para espalhar a experiência
por outras regiões.
Toca-se,
aqui, na questão central do desenvolvimento de uma
nação, tema da palestra de Clinton: não
haverá nenhum plano sério de combate à
exclusão social se não se formarem professores.
Confira o dossiê
sobre experiências para diminuir a exclusão digital
| |
| |
| |
Subir
 |
|
|