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Até
câncer vira marketing
O câncer
da apresentadora Ana Maria Braga transformou-se numa notável
operação de marketing.
A doença
começou a virar notícia na quarta-feira passada,
ao ganhar status de principal destaque de todos os principais
portais da internet. Passou, então, a receber chamadas
nas emissoras de televisão e rádio. À
noite, a repercussão tomou o país, quando entrou
no "Jornal Nacional".
Os detalhes,
porém, ficariam apenas para o dia seguinte, no "Mais
Você", comandado pela apresentadora.
Na quinta-feira,
padre Marcelo apareceu ao vivo rezando o "Pai Nosso"
para Ana Maria, num clima de total comoção.
Apenas no final do programa, como fora anunciado em tom de
suspense, ela falou do câncer. "Sei que vou sair
dessa", disse, informando que se submeteria a sessões
de quimioterapia.
O suspense
fez com que a audiência do "Mais Você"
desse um salto e atingisse 11 pontos no Ibope -quase o dobro
de sua audiência normal.
A partir
de agora até o final do tratamento, ela será
um dos principais assuntos nacionais.
Expor-se,
com tamanha transparência, talvez ajude a paciente a
enfrentar a solidão do câncer. Mas, com certeza,
atrai e reflete a fragilidade de todos, gerando uma rede de
simpatia e solidariedade. A exemplo do que aconteceu com Mário
Covas, assumir publicamente a dor é traduzido como
um ato de coragem, um gesto heróico.
O fato
é que, nas sociedades da informação,
quase tudo, calculadamente ou não, acaba em marketing.
O sucesso é medido menos pelo que se faz e mais pelo
quanto se aparece - você vale o quanto aparece.
Desde
que Moisés mostrou as Tábuas da Lei, sempre
se buscaram meios engenhosos para vender e embalar coisas
ou idéias; nada de novo. A novidade é a intensidade
dessa disputa, uma conseqüência do que se convencionou
chamar de sociedade do conhecimento.
Nunca
se ofertou tanta informação em tão pouco
tempo, graças à mistura de globalização
com novas tecnologias. É uma enxurrada de caras, marcas,
dados, que sobem e descem, nascem e morrem, numa velocidade
jamais vista. As modas são cada vez mais fugazes. E
as empresas também: estatísticas demonstram,
nos Estados Unidos, o ritmo exponencial da mortalidade empresarial.
Daí a guerra para sobressair no vendaval de marcas.
A sofisticação
dessa guerra apareceu, na semana passada, na capa de revista
norte-americana "Business Week", em reportagem sobre
o que se denominou o "marketing do tititi".
Numa resposta
à suposta perda de eficácia da publicidade nos
meios de comunicação convencionais, as empresas
tentam, digamos, infiltrar-se entre os potenciais consumidores.
Contratam pessoas, preferencialmente formadores de opinião,
para usar calças ou automóveis anunciados na
mídia tradicional. Vão freqüentar lugares
badalados e transmitir a impressão de que aquela roupa
ou aquele carro está na moda, criando "tititi".
A tática
do "tititi" é uma variação
do marketing direto: esfregar, sem intermediários,
a marca na cara do consumidor.
Com as
novas tecnologias, é possível rastrear todos
os gostos de um indivíduo; basta, por exemplo, analisar
o histórico de compras no cartão de crédito.
O mapa dos gostos do consumidor vai aos mínimos detalhes
quando se cruzam os bancos de dados.
Com base
nesses bancos, sofisticou-se a tendência de atender
personalizadamente cada consumidor. É o CRM (em inglês,
customer relationship management): em poucas palavras, como
pais tratam uma criança mimada, tentando adivinhar
seus desejos, na busca de uma fidelidade.
A Internet
facilitou a possibilidade de as empresas manterem um canal
direto com o consumidor - mas também a de entupir as
caixas postais.
Reside
justamente nesse terremoto informativo o principal desafio
da educação contemporânea: administrar
a velocidade da produção do conhecimento, separando
o que é essencial do que é moda.
Na sociedade
do conhecimento, tudo está mais exposto - das marcas
às nossas vontades -, o que significa que o cidadão
tem de tomar mais medidas para se proteger, e as pessoas e
empresas, para aparecer.
Natural,
assim, que o câncer de Ana Maria Braga tenha se transformado
em dor coletiva. E também em pontos no Ibope.
PS - Aspecto
positivo do marketing direto, que merece ser analisado em
todas as cidades brasileiras. A Prefeitura de São Paulo
decidiu permitir que empresas patrocinem parques públicos
em regiões nobres, frequentados por consumidores abonados,
desde que ajudem áreas de lazer na periferia.
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