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A sociedade
civil organizada e o governo brasileiro resolveram se mobilizar
e trabalhar em parceria para que os direitos das crianças
e adolescentes possam deixar se ser apenas falas e leis em
papel e se tornem realmente ações efetivas.
Um dos pontos de partida é a realização
de diversos projetos para a consolidação dos
Conselhos Tutelares e Conselhos dos Direitos da Criança
e do Adolescente, previstos pelo Estatuto da Criança
e do Adolescente (ECA), que completa 15 anos em julho.
Os Conselhos de Direito da Criança e do Adolescente
são responsáveis pela formulação
e deliberação de políticas públicas
voltadas para a população infanto-juvenil, além
de acompanhar a atuação de órgãos
públicos e participar da elaboração do
orçamento para garantir recursos a essa faixa etária.
Este é um órgão paritário, formado
por representantes do governo e da sociedade civil. Já
os Conselhos Tutelares foram criados para atender à
criança e ao adolescente sempre que seus direitos forem
ameaçados ou violados. Eles são órgãos
permanentes e autônomos, cujos membros são eleitos
pela população a cada três anos.
Grande parte das ações que vem se ampliando
no país com esta preocupação tem como
proposta fortalecer estes órgãos, ampliar a
conscientização da população da
sua importância, além de incentivar o governo
a criar mais conselhos onde ainda não existem. Isso
porque, de acordo com os dados de dezembro 2004, computados
pelos Conselhos Estaduais dos Direitos da Criança e
do Adolescente no Sistema Informativo de Proteção
à Infância e Adolescência (Sipia), órgão
ligado ao Ministério da Justiça, de 5584 municípios
brasileiros os Conselhos Tutelares estavam presentes em 4026
restando outros 1.558 sem qualquer órgão de
defesa dos direitos de crianças e adolescentes.
Para reverter esse quadro, já está operando,
desde junho de 2004, o Programa Pró-Conselho Brasil,
uma iniciativa da Secretaria Especial de Direitos Humanos
e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente (Conanda), com o Instituto Telemig Celular, que
já realizava a ação no Estado de Minas
Gerais. O objetivo principal do programa é fortalecer
os conselhos já existentes e incentivar sua criação
nos municípios onde eles ainda não existem,
a fim de garantir uma rede integrada de defesa dos direitos
da criança e do adolescente. O novo programa engloba
quatro projetos: pesquisa, criação dos conselhos,
campanha Pró-FIA (Fundo para a Infância e a Adolescência)
e capacitação dos conselheiros. Uma da metas
estabelecidas pelo programa, por exemplo, é que 80%
dos municípios brasileiros devem criar, até
2007, Conselhos Tutelares.
O primeiro passo do grupo foi a realização
da Campanha Fundo Amigo, nos meses de novembro e dezembro
do ano passado, com várias peças de divulgação
em televisão, rádios, jornais e revistas, orientando
sobre a destinação de recursos para o Fundo.
Foram mais de 250 mil cartazes e 250 mil folders distribuídos.
A partir daí, uma série de outras ações
foram programadas. A pesquisa, realizada em parceria com o
Ministério Público, que pretendia verificar
em quais cidades os conselhos e os fundos estão constituídos
e se eles estão realmente operando será finalizada
até esta semana. Os resultados estavam programados
para serem divulgados ainda em 2004, mas, devido à
dificuldade de obtenção de informações
junto a todos os municípios, somente agora o programa
terá estes números em mãos para aí
sim, com apoio do Ipea, poder computador os resultados, fazer
a analise das informações, e partir para uma
ação efetiva.
Ainda neste mês de março, o programa encaminhou
aos Conselhos Estaduais uma cartilha sobre as prestações
de contas para a Receita Federal, que devem ser feitas até
amanhã, dia 31. Essa é uma exigência estabelecida
a partir de 2003, pela Instrução Normativa n°
311/03, em que a SRF instituiu a Declaração
de Benefícios Fiscais (DBF), e seu Programa Gerador,
que deverá ser apresentada pelos Conselhos Municipais,
Estaduais, Distrital e Nacional, em relação
ao ano calendário anterior, por intermédio da
internet. A cartilha do programa orienta os conselhos no preenchimento
da DBF e traz informações importantes sobre
a participação dos conselhos na elaboração
do Plano Plurianual - PPA - 2006-2009 e implementação
do Fundo para Infância e Adolescência.
Francisco Azevedo, presidente do Instituto Telemig, destaca
que, os conselhos precisam participar dessa elaboração
do plano, para que os governantes prevejam recursos para a
área da criança e do adolescente, propondo que
haja articulações entre as secretarias que desenvolvem
ações com foco na infância. A cartilha
lembra que "os princípios, direitos e estruturas
de atendimento previstos no ECA podem ser apenas louváveis
intenções sem o suporte do orçamento.
Traçar políticas, sem disponibilidade financeira,
pode tornar-se um exercício de mera ficção.
Se o Conselho Municipal quer cumprir com suas atribuições
e deseja que os recursos destinados para as crianças
e os adolescentes tenham uma aplicação transparente,
efetiva e eficaz, é estratégico – e também
prioritário – entender e participar do processo
orçamentário dos municípios".
Agora, o Programa Pró-Conselho irá ampliar
a pesquisa realizada, aprimorando o questionário, a
fim de verificar a fundo questões importantes sobre
o dia-a-dia dos conselhos, como, o perfil dos conselheiros,
quais as principais demandas, a infra-estrutura, entre outros
aspectos. Os resultados serão publicados até
outubro. O programa pretende, a partir da constatação
real de quais municípios não contam com conselhos,
atuar forte nestes locais, fornecendo, por exemplo, guias
de orientação. O Instituto Telemig já
desenvolveu uma publicação chamada "Conselho
Tutelar - Guia Para a Ação Passo a Passo",
que traz diversas informações para que os municípios
saibam como criar o Conselho Tutelar.
Uma das orientações apresentadas pelo guia
é que o município crie numa mesma lei (amplamente
discutida com a sociedade) o seu Conselho de Direitos, o seu
Fundo Municipal e os Conselhos Tutelares e defina as diretrizes
de sua política municipal de atendimento à criança
e ao adolescente. "É um passo importante para
a organização da proteção integral
no município. A iniciativa da Lei de Criação
dos Conselhos Tutelares é do Poder Executivo local,
uma vez que ela cria despesas para o município. Contudo,
isto não significa, que o Executivo atuará solitariamente.
A elaboração da lei, bem como a criação
e o funcionamento dos conselhos pressupõe ampla participação
da comunidade local. Além disso, o Executivo deverá
garantir aos Conselhos Tutelares as condições
para o seu correto funcionamento: instalações
físicas, equipamentos, apoio administrativo, transporte
e outros suportes que devem ser definidos de acordo com as
demandas e possibilidades de cada município",
aponta o guia.
De acordo com o presidente do Instituto Telemig, serão
os promotores da infância dos municípios que
ainda não contam com os conselhos que farão
este contato com os prefeitos, a fim de orientá-los,
estabelecendo um prazo para que a ação se efetive.
Para facilitar essa interlocução, nos dias 28
e 29 de abril, o programa irá realizar um encontro
com os representantes dos Conselhos Estaduais a fim de identificar
as melhores formas de atuação em cada lugar,
e promover uma parceria entre todos.
Mas, antes mesmo disso, no dia 13 de abril, em uma reunião
do Conanda, já terá inicio as discussões
para o quarto projeto do Programa Pró-Conselho, que
tem como prioridade a capacitação dos conselheiros.
A idéia é construir uma política de capacitação
continua e permanente destes conselheiros. O Unicef também
está colaborando no processo de formulação
destes parâmetros nacionais que irão ajudar a
atuação dos conselhos. Alison Sutton, oficial
de projetos do Unicef, afirma que a capacitação
continuada dos atores do sistema de garantia dos direitos
é muito importante, tendo em vista que estes precisam
saber onde recorrer, trocar informações e experiências
não somente entre eles, mas com os diferentes atores
desse sistema. "Percebemos que as melhores práticas
são quando os Conselhos Tutelares conseguem mobilizar
outros atores do sistema de garantia. Quando eles conseguem
se inserir neste sistema e fazer ele fluir. Isso depende da
articulação dos vários serviços",
comenta.
Cada escritório do Unicef, nas diferentes regiões,
promove ações diferentes com este enfoque. A
atuação é mais forte no Norte e Nordeste.
No Ceará, por exemplo, há capacitação
constante, com um programa regular de rádio sobre o
assunto. "Isso sem falar que muitos novos conselheiros
se não receberem uma capacitação inicial
adequada, quando tiverem que gerir o sistema irá complicar.
Os Conselhos Municipais e Estaduais são os responsáveis
por dar estas condições. A falta desse apoio
pode dar uma visão errada sobre os Conselhos Tutelares.
Eles passam a ser visto de forma policialística. O
seu papel é de mediação, mas é
visto como policial. A família fica com medo, por exemplo,
de que o conselho vai tirar o filho por qualquer motivo",
aponta Alison Sutton.
Há ainda outras ações sendo desenvolvidas
com o objetivo de fortalecer os conselhos, como o Programa
Prefeito Amigo da Criança, da Fundação
Abrinq. O programa tem como objetivo comprometer e apoiar
as gestões municipais de todo o país na implementação
de políticas públicas que garantam a proteção
integral de crianças e adolescentes. Neste mês
de março, foi lançado o terceiro ciclo 2005-2008
do programa, acompanhando o mandato municipal. Na ocasião
também foi instituído o Conselho de Ação
Estratégica (CAE) do programa, integrado por entidades
da área da infância e adolescência, com
o objetivo de dar aportes técnicos, articular e mobilizar
os vários segmentos do sistema de garantia dos direitos
da criança e do adolescente. O Prefeito Amigo da Criança
é o dirigente municipal que assumiu o compromisso de
priorizar a infância e a adolescência em sua gestão,
estabeleceu metas de sua administração para
melhoria da qualidade de vida desse segmento da população,
elaborou o Plano de Ação Municipal e pactuou
suas metas e plano com a sociedade local.
Justamente entre os compromissos assumidos por este prefeito
está a criação dos Conselhos Municipais
de Direitos das Crianças e Adolescentes (CMDCA) e dos
Conselhos Tutelares (CT). Já nos municípios
em que eles estão em funcionamento, os prefeitos devem
fortalece-los, oferecendo a infra-estrutura necessária.
O governante deve ainda constituir uma comissão local
de avaliação e acompanhamento da gestão
municipal, com coordenação do Conselho Municipal,
participação dos demais conselhos existentes
e organismos representativos do município, podendo
ser, por exemplo, organizações da sociedade
civil, empresários entre outros atores.
Na mira da mídia
A mídia desempenha também um papel importante
para levar informações a respeito dos conselhos.
A sociedade brasileira precisa conhecê-los, saber quais
são suas atribuições e como acessá-los.
No entanto, não parece que esse é o cenário
atual. De acordo com Marcus Fuchs, diretor de Planejamento
da Andi (Agência de Notícias dos Direitos da
Infância), ano a ano, nas análises de mídia
realizadas pela agência, percebeu-se que os conselhos
apareciam pouco como fonte nas matérias sobre a infância.
Uma análise realizada das reportagens produzidas sobre
os 10 anos do ECA, em 2000, por exemplo, constatou que apenas
9% das matérias utilizam os conselhos em suas entrevistas.
Em 2001, numa outra análise de 769 matérias
sobre educação infantil, apenas em uma delas
o Conselho Tutelar era ouvido. E isso ocorria também
com outros temas, como exploração sexual infantil,
violência, saúde, entre outros.
A partir de então, a Andi procurou verificar o porquê
dessa postura dos jornalistas e o resultado foi que estes
ou nunca tinham ouvido falar a respeito ou faziam até
mesmo confusão entre as atribuições de
cada conselhos. "Ou seja, eles também não
procuravam os conselhos como fonte porque a sociedade não
tem uma relação efetiva com estes órgãos.
O problema é que se os conselhos não são
conhecidos, a sociedade não acompanha a sua atuação
e isso pode gerar menos poder nas decisões que eles
tomam. Portanto, se os conselhos aparecem mais na mídia,
conseqüentemente a sociedade conhece mais e isso, em
longo prazo, pode gerar a qualificação de atuação
destes conselhos", aponta Marcus.
Por isso, em 2003, a Andi, em parceria com a Secretaria
de Direitos Humanos, o Conanda, e empresas parceiras, lançou
o projeto Mídia e Conselhos: uma aliança estratégica
na prioridade absoluta aos direitos da criança e do
adolescente, com a proposta de desenvolver nos Conselhos Tutelares
e Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente
uma capacidade de relacionamento maior e melhor com os meios
de comunicação. Uma das ações
deste projeto foi a realização de seis oficinas
regionais com membros de conselhos, onde foi desenvolvido
o Guia Mídia e Conselhos. O material traz informações
sobre planos de comunicação para atingir os
veículos de informação. Foi elaborada
ainda campanha permanente de divulgação dos
conselhos tutelares com peças publicitárias
em emissoras de rádio, televisão e jornais.
Já durante o ano de 2004, o projeto trabalhou em
cima de uma análise de mídia referente às
matérias publicadas no período de janeiro a
dezembro de 2003. O resultado está no livro "Ouvindo
Conselhos - Democracia participativa e de direitos da infância
na pauta das redações brasileiras", da
série Mídia e Mobilização Social,
lançado no dia 7 de março, em Brasília.
O livro mostra o que são os conselhos, como funcionam,
e como se dá a participação popular nessas
instâncias. Além disso, a publicação
apresenta a análise de como os jornalistas retratam
esses órgãos em matérias sobre infância
e adolescência, com base na pesquisa inédita
"A Imagem dos Conselhos na Mídia". O estudo
avaliou 3.520 reportagens que publicadas em 54 dos principais
jornais brasileiros.
Segundo o estudo, os jornalistas ouvem pouco estes órgãos
quando fazem reportagens sobre crianças e adolescentes:
são mencionados em apenas 3% (3.520 textos) das 115.148
reportagens analisadas. Deste recorte, somente 12,6% tiveram
os órgãos como foco central. Do ponto de vista
da mídia, repercutido na publicação,
a ausência dos conselhos nas reportagens é justificada,
em parte, pela falta de estrutura dos mesmos e pelo pouco
entendimento dos conselheiros sobre as necessidades da imprensa.
"Percebemos também que quando o Conselho de Direitos
é ouvido nas reportagens isso qualifica a cobertura
do tema, pois investiga mais as políticas publicas.
Mas eles aparecem muito pouco", comenta o diretor da
Andi.
Ele destaca ainda que, durante o Encontro Nacional de Conselhos
Estaduais, realizado no dia 8 de março, com a participação
de conselheiros de todo o Brasil, foram discutidas novamente
estratégias de comunicação com a imprensa
e os conselheiros se comprometeram a colocar este tema como
prioridade e meta em suas ações. "Queremos
assim, que quando ocorrer a Conferencia Nacional, este tema
tenha avançado nos conselhos e já possamos apresentar
alguns resultados", ressalta Marcus Fuchs.
A Andi irá ainda trabalhar fortemente junto aos estados
em que há agências da Rede Andi - são
10 estados e o Distrito Federal - para a divulgação
dos 15 anos do ECA. "Queremos, com isso, que os temas
da infância possam ser melhores discutidos na sociedade
e se torne prioridade. Afinal, são mais de 500 anos
de negação da infância neste país.
É uma história que nos faz chorar. Todas as
agressões foram impostas às crianças.
E mesmo com as leis, elas, por si só, não alteram
as práticas. É preciso mudar a mentalidade",
aponta o diretor.
** As matérias principais dessa semana do setor3 lançam
a série de reportagens especiais sobre os 15 anos do
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que será
comemorado em julho. Periodicamente, o setor3 irá publicar
matérias sobre o assunto. Acompanhem.
Serviço:
Agência de Noticias dos Direitos da Infância (Andi)
Endereço: SDS - Ed. Boulevard Center / Bloco A / Sala
101 - Brasília - DF
Telefone: (61) 2102 6508
Fax: (61) 2102 6550
Site: www.andi.org.br
Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente
(Conanda)
Endereço: Esplanada dos Ministérios, Bloco T,
Anexo II, sala 508
Telefone: (61) 429-3535
Site: www.mj.gov.br/sedh/conanda
E-mail: conanda@mj.gov.br
Fundação Abrinq
Endereço: Rua Lisboa, 224 - São Paulo - SP
Telefone: (011) 3069.0699 -
Site: www.fundabrinq.org.br
Instituto Telemig Celular
Endereço: rua Levindo Lopes, 258, Belo Horizonte/MG,
CEP: 30140-170
Telefone: (31) 3259-4456
Fax: (31) 3259-3076
Unicef
Endereço: SEPN 510, Bloco A - 2º andar - Brasília,
DF- PO - Box: 08584
Telefone: (61) 3035 1900
Fax: (61) 349 0606
Site: www.unicef.org.br
E-mail: brasilia@unicef.org
DANIELE PRÓSPERO
do site setor3
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