A ampliação da Marginal Tietê é o novo New Deal tupiniquim?
No dia 4 de junho deste ano foram iniciadas as obras de ampliação da marginal Tietê.
O Programa de Desenvolvimento do Sistema Viário Estratégico Metropolitano de São Paulo visa “ordenar o tráfego de passagem e hierarquizar e estruturar o transporte de passageiros e cargas” na região – como foi apresentado no planejamento.
O projeto sugere a implantação de três novas pistas (chamadas de auxiliares), aonde atualmente situam-se os canteiros, o alargamento da via local, a construção de pontes e viaduto e a melhora da via expressa.
Segundo especificado no documento governamental, essas medidas deverão refletir na redução do congestionamento, na economia de tempo e combustível dos motoristas e ainda na criação de mais de 2.000 empregos diretos.
Além disso, o governador José Serra garantiu que esta ampliação é ecologicamente correta, muito diferente das situações ocorridas em obras anteriores.
O Rodoanel
O trânsito, periodicamente parado, de São Paulo decorre mais do excesso de carros do que das más condições viárias. Criou-se o mito de que o transporte público paulistano é ruim, aumentando assim o desgosto por sua utilização. Associando a imagem do “público” ao “desconfortável”, a escolha óbvia, para quem tem condições, é utilizar o carro. Com isso, inicia-se um ciclo vicioso em que se aumenta o número de veículos nas ruas e, como conseqüência, o congestionamento.
Assim, um ônibus que levaria 1h para realizar a sua rota, demorará o dobro do tempo, passando a transportar mais pessoas a cada viagem. Um ônibus cheio causa má impressão, desencorajando o uso deste meio de transporte e este ciclo se repete.
Portanto, ampliar o espaço para a locomoção de automóveis incentivará ainda mais a saída inviável do transporte público para o individual. Outro ponto que explicita a futilidade do projeto é o Rodoanel.
Seus resultados repercutirão no fluxo das marginais, fazendo desta ampliação uma obra desnecessária.
Saide Kahtouni, presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas, afirma que a conclusão das obras do Rodoanel poderá reduzir em até 50% o tráfego das Marginais, já que essa é a porcentagem de veículos que passam pela cidade desnecessariamente.
Nesse caso, o número de pistas deveria ser menor, e não maior! Mas o Rodoanel está num ritmo muito lento... Percebe-se então a falta de planejamento e as obras públicas desnecessárias.
O New Deal tupiniquim
No ano passado foram plantadas 27 mil unidades de árvores nas margens do Rio Tietê. Nessa operação gastou-se mais de R$ 4 milhões, e agora querem jogar tudo fora.
A nova obra prevê o corte dessas mesmas árvores para dar lugar a mais asfalto. Serão gastos muitos recursos - o orçamento do projeto previa investimentos do governo do Estado de 800 milhões de reais e já houve um aumento de suas despesas para R$ 1,3 bilhões.
Se fosse para melhorar, seria compreensível, mas esses gastos servirão para aumentar o número de veículos privados em circulação, enchentes e mais acidentes nessas.
“A cidade vai sim perder permeabilidade. Com essa obra serão perdidos 19 hectares – como se fossem 19 quadras da cidade de área permeável virando asfalto. A compensação ambiental, por meio do plantio de árvores, não irá compensar isso, pois as árvores serão plantadas em áreas verdes, que já são permeáveis hoje.”, afirma Raquel Rolnik.
A várzea do rio é propícia a alagamentos por natureza, e não há propostas públicas de solução para essa questão.
O fato é que não deveriam existir avenidas nas margens dos rios e muito menos tão movimentadas e catalisadoras dos fluxos da metrópole. Os riscos para os motoristas e os impactos ambientais são enormes!
Estamos estimulando, como sempre, o trânsito de veículos privados em detrimento do transporte coletivo, ignorando a necessidade de integrar os rios Tietê e Pinheiros limpos a um projeto urbanístico que leve em conta pessoas e não veículos. A ampliação está na contramão daquilo que vem acontecendo nas grandes cidades do mundo.
É constante o discurso político de que os recursos públicos recolhidos com impostos são insuficientes para garantir boa saúde e escolaridade a toda população, ou para as grandes e imprescindíveis reformas no transporte público.
Entretanto, essa disponibilidade de mais de R$ 1 bilhão para as obras de ampliação da Marginal Tietê mostra onde estão as prioridades: invertidas, é claro, e bem na época das eleições!
Elisa Alves, aluna do 2o. ano do Ensino Médio da Escola Nossa Senhora das Graças
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