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Dia 08.01.03

Escola dá lição de absurdo

Exceto, talvez, por alguns poucos familiares, ninguém vai se lembrar de que, na próxima semana, se completam 84 anos da morte do paulista Rodrigues Alves. Eleito presidente da República pela segunda vez em 1918, não tomaria posse, vítima da gripe espanhola.

Ele vive até hoje na forma de um dos mais visíveis e nunca comentados absurdos da cidade de São Paulo. Isso porque empresta seu nome à única escola pública da avenida Paulista, imóvel que, obra do arquiteto Ramos de Azevedo, está tombado, mas tem a fachada extremamente suja, pichada de alto a baixo. Na parte interna, há vazamentos, rachaduras, infiltrações.

Há uma grande ironia em tudo isso, pois, preocupado com as doenças que se espalhavam pelo Brasil, o presidente Rodrigues Alves lançou na época campanha para limpar as cidades, especialmente no Distrito Federal, então no Rio, e, em menor escala, em São Paulo, e para ensinar às famílias medidas de higiene.
Imaginava transformar o epidêmico Rio, com as pestilências trazidas pelo porto e propagadas nos cortiços, numa espécie de réplica de metrópole européia.

Mas a ironia não pára por aí. A escola é literalmente grudada ao Instituto Cultural Itaú, principal centro brasileiro de arte digital, conectado com o que existe de mais contemporâneo em tecnologias aplicadas ao aprendizado; a poucos passos dali, trabalha a cúpula do Sesc, maior patrocinador de eventos artísticos da cidade de São Paulo, responsável pela restauração de prédios abandonados, com um amplo programa de cultura aplicada à educação.

Ao lado do Sesc, localiza-se a Casa das Rosas, ligada à Secretaria Estadual da Cultura, responsável pela preservação do patrimônio histórico estadual. Até o ano passado, no lado oposto da avenida, estava a Secretaria Municipal da Cultura. No meio, a Fiesp, onde está o Sesi, voltado à educação. Em toda a avenida, há empresas, especialmente bancos, com institutos e fundações que patrocinam projetos de melhoria da educação pública.

Tirando o fato de alguns voluntários do Banco Real ajudarem a desenvolver, na Rodrigues Alves, programas curriculares, a única escola pública da Paulista ficou tão esquecida quanto o presidente que lhe deu o nome. Ele próprio morreu ironicamente em 16 de janeiro de 1919: tanto brigou contra as epidemias, mas foi vítima de uma delas.

 

 
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