Caminhão tanque em frente a outdoor em Teerã, capital do Irã, diz que "as fontes de óleo podem se esgotar. Vamos consumir corretamente visando o futuro"
O presidente do Iraque, Saddam Husseim, que aparece novamente como personagem da mais recente crise do petróleo. Husseim acusa o Kuwait de roubar petróleo iraquiano e ameaça tomar medidas contra o vizinho
Central de armazenamento de petróleo em Agragrio no Equador nonon onono non onon onono n ono no
O presidente do Irã, Mohamad Khatami, inspeciona usina no Golfo Pérsico
  O preço do petróleo


JOÃO SAYAD

A astrofísica não sabe qual o futuro do cosmos: pode ficar como sempre esteve, desde o Big Bang, sem se expandir ou se contrair. Pode se expandir continuamente e esfriar -acabaremos como a suave fumaça branca que se desprende dos pedaços de gelo. A terceira alternativa é dramática -o mundo se contrai, esquenta muito e acaba em fogo, que nos reduzirá a pequeno meteorito, uma bolinha composta de diferentes metais. Não sabemos raciocinar sobre coisas que acabam. As perguntas são tão incompreensíveis quanto as respostas. Sabemos que o petróleo vai acabar.

A "produção" de reservas de petróleo leva muito tempo -dinossauros, florestas, peixes e corais precisam ser soterrados e fermentados como vinho por milhões de anos até se transformar em petróleo. O "consumo" de grande parte das reservas -queimadas como gasolina, diesel, gás- é muito rápido, leva apenas séculos.

Se precisamos de milhões de anos para produzir o petróleo que consumimos em alguns séculos, é fácil concluir que, um dia, as reservas acabarão.

Quando vão acabar?
Acabarão tanto mais cedo quanto mais rápido o mundo crescer, quanto mais depressa a China e outros países emergentes e populosos ficarem ricos e quiserem ter tantos automóveis "per capita" ou tanta energia "per capita" quanto os Estados Unidos e a Europa.

Durarão tanto mais tempo quanto mais aumentar a produtividade do petróleo utilizado -quanto mais econômicos forem os automóveis (carrões americanos substituídos pelos econômicos japoneses), quanto mais substituirmos automóveis por transportes públicos, quanto mais substituirmos transportes públicos por caminhadas, energia derivada do petróleo por outras fontes de energia etc.

O petróleo está caro? Como se calcula o preço de um produto que vai acabar? O preço deveria estar constantemente subindo. O preço de cada dia deveria crescer de acordo com o ritmo dado pelas taxas de juros.

Se a taxa de juros está muito alta, os donos das reservas preferem vender o petróleo e aplicar em depósitos com juros maiores do que a taxa de crescimento dos preços do petróleo. Se a taxa de juros está baixa, preferem deixar o petróleo embaixo da terra e esperar que o preço cresça mais rápido do que a taxa de juros. O ritmo de exploração depende da taxa de juros.

O preço deve ser alto e crescente para indicar aos produtores, consumidores, fábricas de automóveis, aos chineses, brasileiros e americanos que o petróleo vai acabar -desliguem o ar-condicionado, comprem sapatos novos, apaguem a luz.

O gráfico mostra que os preços atuais são menores do que os do primeiro choque do petróleo (US$ 32 hoje, contra US$ 40 em 74 e US$ 80 em 1979).

Depois das crises do petróleo de 1974 e de 1979, o mundo "resolveu" a questão do petróleo de duas formas: aumentando a produtividade da energia e aumentando as taxas de juros a níveis inéditos. Como resultado, os donos das reservas aumentaram a taxa de extração de petróleo.

Além disso, a maioria dos países consumidores criou impostos sobre o petróleo, transformando-se em sócios na valorização do produto, o que antes pertencia apenas aos países da Opep.

A partir de 1986, o preço do petróleo caiu muito. Os preços deixaram de criar pressão para economizar energia e aumentar a produtividade. Passamos a nos distrair com sucessos tecnológicos, como a Internet, telefones celulares, a biotecnologia, e esquecemos o mais importante: o petróleo vai acabar.

Os preços mais importantes dependem de decisões políticas: a taxa de câmbio, o salário mínimo e as taxas de juros são preços políticos. O preço do petróleo também é político -depende da Opep, dos juros fixados pelo Federal Reserve. O que aconteceu com o Proálcool?

João Sayad, 53, economista, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro do Planejamento (governo José Sarney); é autor de "Que País é Este?" (editora Revan); escreve às segundas-feiras na Folha de S.Paulo.
E-mail - jsayad@ibm.net

 
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O preço do petróleo Por João Sayad