Dinheiro
15/09/2005 - 09h34

Diferença entre Selic e juro ao consumidor atinge 620%

ADRIANA MATTOS
da Folha de S.Paulo

Chega a 620% a diferença entre a taxa Selic, os juros básicos da economia determinados pelo governo, e aquele praticado na praça ao consumidor. Em reunião ocorrida ontem, o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu reduzir a Selic de 19,75% para 19,50% ao ano. O mercado não "trabalha" com esse número, mas o utiliza como parâmetro.
Com base nessa nova taxa, calcula-se que as lojas, os bancos e as financeiras passem a operar, neste mês, com juro médio anual de 140,58% para as pessoas físicas.

Os números foram divulgados ontem à noite pela Anefac (a associação nacional dos executivos de finanças). Esse é um cálculo matemático --o comércio e as instituições financeiras ainda deverão anunciar seus novos juros nos próximos dias. Isso caso repassem a queda ao mercado.

"Há um deslocamento muito grande entre a taxa Selic e os juros determinados ao consumidor devido a uma série de custos atrelados à operação de empréstimo", diz Miguel de Oliveira, presidente da Anefac.

O cliente paga taxas mais amargas porque vários fatores encarecem os juros do mercado, como o risco de inadimplência da operação de venda ou empréstimo, o custo de captação do dinheiro financiado e a margem de lucro que o intermediador pratica para emprestar o dinheiro.

Parte desse "spread" dos bancos (a diferença entre a taxa que as instituições pagam para captar dinheiro e a taxa cobrada nos financiamentos concedidos a seus clientes) serve para compensar os gastos bancários --custos com funcionários, manutenção de agências e tributos. Isso é o que dizem os representantes de instituições financeiras.

Peso no bolso

Ao ter como parâmetro a nova taxa Selic, calcula-se que os juros nas lojas deverão ficar em 6,10% ao mês em média (103,51% ao ano), segundo as contas da associação.

Antes da queda divulgada ontem, o varejo operava com juros anuais ligeiramente superiores: 103,97% em média. Os juros mais elevados ainda são determinados pela financeiras (11,77% ao mês e 280,1% ao ano), controladas pelos maiores bancos de varejo do país, informa a Anefac.

Na tentativa de fazer essa taxa de juro caber no orçamento da população, as lojas e as financeiras ampliaram os prazos de pagamento neste ano e em 2004. Dessa forma, o consumidor pode não perceber o tamanho do juro que paga todos os meses. No entanto, quando o plano de pagamento acabar, o valor total pago a prazo será elevado.

No caso das empresas, a redução da Selic deverá fazer com que os juros para a pessoa jurídica caiam --isso caso os bancos repassem o impacto. Segundo a Anefac, em agosto o juro médio para uma empresa estava em 4,43% ao mês (68,23% ao ano). Com a queda anunciada ontem, ela pode cair para 4,41% ao mês (67,84% ao ano).

A redução da Selic já era esperada porque o Copom acenou com essa possibilidade em sua última ata, publicada em agosto, que discutiu as metas de inflação e a atual política de juros do governo.

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