15/01/2006
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09h19
da Folha de S.Paulo, no Rio de Janeiro
Em favelas do Rio de Janeiro, empresas que prestam serviços públicos essenciais como instalação ou conserto de telefones, entrega de correspondências, coleta de lixo, atendimento médico, saneamento básico ou reparo na rede elétrica só conseguem trabalhar sob condição de regras impostas por traficantes de drogas, segundo relataram alguns funcionários à Folha.
De acordo com os depoimentos, os traficantes costumam decidir o horário em que os serviços podem ser realizados em seus domínios. Cobram pedágio para deixar a empresa trabalhar e chegam a determinar qual funcionário pode entrar ou não.
Há relatos de trabalhadores ameaçados, seqüestrados e mantidos sob mira de armas. Em casos de tiroteios ou de ameaças de invasões, os serviços são suspensos.
A Telemar é a empresa que mais enfrenta restrições. Depois das 17h, não é permitida a entrada ou permanência de técnicos da companhia em comunidades carentes mesmo que exista a necessidade de serviços.
Isso porque, a partir dessa hora, cresce o movimento de venda de drogas e aumenta o número de pessoas circulando armadas. O tráfico teme que os técnicos passem informação para a polícia.
Segundo funcionários, os traficantes não deixam que os profissionais façam reparos de poste em poste sob alegação de que eles poderiam estar instalando câmeras para vigiá-los.
Um técnico da empresa ouvido pela Folha disse que, em uma ocasião, estava na favela Vila Cruzeiro (Penha, zona norte) mexendo em um poste quando chegou um traficante armado e o mandou descer.
"Ele disse: "Não está espalhando câmera por aí, não. Vê lá, quer virar Tim Lopes [jornalista da TV Globo, assassinado por traficantes de drogas ao fazer uma reportagem com câmera escondida em 2002]?"."
Os traficantes cobram pedágios das empresas. No ano passado, por exemplo, uma delas foi obrigada a fornecer cestas básicas para moradores para poder atuar no morro do São João, no Engenho Novo (zona norte).
O "acordo" também ocorre no complexo de favelas da Maré (zona norte).
Há poucos meses, a Telemar forneceu aos seus funcionários telefones celulares com câmeras fotográficas. Os técnicos, no entanto, foram "proibidos" pelos traficantes de entrarem com os aparelhos. Por causa disso, muitos acabam sendo revistados antes de iniciarem o trabalho.
Os traficantes também obrigam os técnicos da Telemar a instalar linhas de graça para eles, segundo os relatos ouvidos pela Folha.
Na favela do Sapo (zona oeste), os criminosos criam centrais telefônicas usando linhas de assinantes e não permitem que haja conserto em caso de reclamação.
Na favela do Batan, em Realengo (zona oeste), a rotina de ameaças aos profissionais fez com que a Telemar decidisse só ir ao local se houver uma demanda de dez atendimentos ou mais.
Um outro profissional contou à Folha que uma vez foi seqüestrado por traficantes do morro Dona Marta, em Botafogo (zona sul), e obrigado a consertar um orelhão que estava quebrado.
Escolha
Os Correios também são obrigados a se sujeitar ao poder do tráfico. Segundo funcionários, os traficantes só permitem que correspondências sejam entregues por um mesmo carteiro, para que este fique conhecido por membros comunidade.
Caso este profissional esteja de férias, seu substituto tem que ser apresentado na associação de moradores antes de começar a trabalhar.
Em caso de uma falta inesperada do profissional ao serviço, a entrega não é feita ou o novo carteiro é barrado e os moradores têm que buscar suas correspondências no centro de distribuição mais próximo.
A principal queixa dos funcionários, no entanto, é quanto aos assaltos às cargas. Só no ano passado, ocorreram 200 roubos a veículos dos Correios no Estado do Rio de Janeiro.
A situação é mais crítica em Benfica (zona norte), onde a empresa tem o seu principal centro de distribuição. No ano passado, dois funcionários foram rendidos na rua Leopoldo Bulhões e levados para dentro da favela Mandela, onde foram agredidos a coronhadas.
A Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) é outra empresa que enfrenta problemas. Por causa de tiroteios à noite, foi suspensa a coleta noturna de lixo em favelas.
Durante o dia, os garis também não entram na maioria das favelas que, devido à pressão do tráfico, utilizam garis comunitários. Segundo funcionários ouvidos pela Folha, muitos deles são indicados por traficantes ou trabalham em bocas-de-fumo.
Ameaça
A Light vive recebendo queixas de ameaças de traficantes a seus funcionários. Os técnicos, por exemplo, não entram em favelas quando detectam problemas na rede em virtude de ligações clandestinas --os chamados "gatos".
"Eles [traficantes] não deixam realizar cortes nas fiações", disse o presidente do sindicato da categoria, Magno dos Santos Filho.
Segundo ele, os traficantes costumam obrigar os técnicos a realizar consertos que, por muitas vezes, não são possíveis em virtude da falta de equipamentos para o serviço específico.
No início do ano passado, por exemplo, em apenas uma semana, em cinco favelas (Mangueira na zona norte, Tijuquinha, Taquaral e Vila Aliança na zona oeste e Caju, zona portuária) equipes da companhia foram seqüestradas e obrigadas a instalar novos transformadores de luz, que os próprios criminosos destruíram a tiros, de acordo com relatos dos funcionários.
O atendimento médico em favelas também é difícil. Em pelo menos 12 favelas do Rio, os traficantes não permitem a entrada de ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e do Emergência em Casa do governo estadual. De acordo com os profissionais, em média, a cada plantão há, pelo menos, de duas a três ocorrências.
Especial
Leia o que já foi publicado sobre favelas no Rio de Janeiro
Tráfico impõe regras para ação de empresas
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MARIO HUGO MONKENda Folha de S.Paulo, no Rio de Janeiro
Em favelas do Rio de Janeiro, empresas que prestam serviços públicos essenciais como instalação ou conserto de telefones, entrega de correspondências, coleta de lixo, atendimento médico, saneamento básico ou reparo na rede elétrica só conseguem trabalhar sob condição de regras impostas por traficantes de drogas, segundo relataram alguns funcionários à Folha.
De acordo com os depoimentos, os traficantes costumam decidir o horário em que os serviços podem ser realizados em seus domínios. Cobram pedágio para deixar a empresa trabalhar e chegam a determinar qual funcionário pode entrar ou não.
Há relatos de trabalhadores ameaçados, seqüestrados e mantidos sob mira de armas. Em casos de tiroteios ou de ameaças de invasões, os serviços são suspensos.
A Telemar é a empresa que mais enfrenta restrições. Depois das 17h, não é permitida a entrada ou permanência de técnicos da companhia em comunidades carentes mesmo que exista a necessidade de serviços.
Isso porque, a partir dessa hora, cresce o movimento de venda de drogas e aumenta o número de pessoas circulando armadas. O tráfico teme que os técnicos passem informação para a polícia.
Segundo funcionários, os traficantes não deixam que os profissionais façam reparos de poste em poste sob alegação de que eles poderiam estar instalando câmeras para vigiá-los.
Um técnico da empresa ouvido pela Folha disse que, em uma ocasião, estava na favela Vila Cruzeiro (Penha, zona norte) mexendo em um poste quando chegou um traficante armado e o mandou descer.
"Ele disse: "Não está espalhando câmera por aí, não. Vê lá, quer virar Tim Lopes [jornalista da TV Globo, assassinado por traficantes de drogas ao fazer uma reportagem com câmera escondida em 2002]?"."
Os traficantes cobram pedágios das empresas. No ano passado, por exemplo, uma delas foi obrigada a fornecer cestas básicas para moradores para poder atuar no morro do São João, no Engenho Novo (zona norte).
O "acordo" também ocorre no complexo de favelas da Maré (zona norte).
Há poucos meses, a Telemar forneceu aos seus funcionários telefones celulares com câmeras fotográficas. Os técnicos, no entanto, foram "proibidos" pelos traficantes de entrarem com os aparelhos. Por causa disso, muitos acabam sendo revistados antes de iniciarem o trabalho.
Os traficantes também obrigam os técnicos da Telemar a instalar linhas de graça para eles, segundo os relatos ouvidos pela Folha.
Na favela do Sapo (zona oeste), os criminosos criam centrais telefônicas usando linhas de assinantes e não permitem que haja conserto em caso de reclamação.
Na favela do Batan, em Realengo (zona oeste), a rotina de ameaças aos profissionais fez com que a Telemar decidisse só ir ao local se houver uma demanda de dez atendimentos ou mais.
Um outro profissional contou à Folha que uma vez foi seqüestrado por traficantes do morro Dona Marta, em Botafogo (zona sul), e obrigado a consertar um orelhão que estava quebrado.
Escolha
Os Correios também são obrigados a se sujeitar ao poder do tráfico. Segundo funcionários, os traficantes só permitem que correspondências sejam entregues por um mesmo carteiro, para que este fique conhecido por membros comunidade.
Caso este profissional esteja de férias, seu substituto tem que ser apresentado na associação de moradores antes de começar a trabalhar.
Em caso de uma falta inesperada do profissional ao serviço, a entrega não é feita ou o novo carteiro é barrado e os moradores têm que buscar suas correspondências no centro de distribuição mais próximo.
A principal queixa dos funcionários, no entanto, é quanto aos assaltos às cargas. Só no ano passado, ocorreram 200 roubos a veículos dos Correios no Estado do Rio de Janeiro.
A situação é mais crítica em Benfica (zona norte), onde a empresa tem o seu principal centro de distribuição. No ano passado, dois funcionários foram rendidos na rua Leopoldo Bulhões e levados para dentro da favela Mandela, onde foram agredidos a coronhadas.
A Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) é outra empresa que enfrenta problemas. Por causa de tiroteios à noite, foi suspensa a coleta noturna de lixo em favelas.
Durante o dia, os garis também não entram na maioria das favelas que, devido à pressão do tráfico, utilizam garis comunitários. Segundo funcionários ouvidos pela Folha, muitos deles são indicados por traficantes ou trabalham em bocas-de-fumo.
Ameaça
A Light vive recebendo queixas de ameaças de traficantes a seus funcionários. Os técnicos, por exemplo, não entram em favelas quando detectam problemas na rede em virtude de ligações clandestinas --os chamados "gatos".
"Eles [traficantes] não deixam realizar cortes nas fiações", disse o presidente do sindicato da categoria, Magno dos Santos Filho.
Segundo ele, os traficantes costumam obrigar os técnicos a realizar consertos que, por muitas vezes, não são possíveis em virtude da falta de equipamentos para o serviço específico.
No início do ano passado, por exemplo, em apenas uma semana, em cinco favelas (Mangueira na zona norte, Tijuquinha, Taquaral e Vila Aliança na zona oeste e Caju, zona portuária) equipes da companhia foram seqüestradas e obrigadas a instalar novos transformadores de luz, que os próprios criminosos destruíram a tiros, de acordo com relatos dos funcionários.
O atendimento médico em favelas também é difícil. Em pelo menos 12 favelas do Rio, os traficantes não permitem a entrada de ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e do Emergência em Casa do governo estadual. De acordo com os profissionais, em média, a cada plantão há, pelo menos, de duas a três ocorrências.
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