Dinheiro
26/01/2007 - 09h50

EUA negam números que destravariam Doha

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CLÓVIS ROSSI
da Folha de S.Paulo, em Davos

Susan Schwab, chefe do USTr (espécie de Ministério do Comércio Exterior norte-americano), desmentiu ontem os números que o jornal britânico "Financial Times" havia anunciado na segunda-feira e que provocaram uma leve melhora nos sinais vitais da Rodada Doha de negociações comerciais, lançada na capital do Qatar há seis anos e virtualmente paralisada desde então.

Os números, fruto de uma reunião de alto nível entre funcionários da União Européia e dos EUA, eram estes: a UE reduziria em 54% suas tarifas de importação de bens agrícolas e os EUA cortariam seus subsídios aos agricultores para um teto de US$ 17 bilhões.

O corte de tarifas ficaria exatamente do tamanho demandado pelo G20, liderado por Brasil e Índia, um dos cinco grandes atores da negociação global, ao lado justamente de europeus e norte-americanos, além de Japão e Austrália.

Já o corte de subsídios seria aquém do pedido pelo G20 (entre US$ 12 bilhões e US$ 13 bilhões), mas mesmo assim representaria a melhor oferta norte-americana desde 2001.

Como a questão agrícola vem sendo o grande nó das negociações e, dentro dela, os números para o corte de tarifas dos europeus e para os subsídios norte-americanos, a perspectiva de que fossem apetitosos para os parceiros fez com que "as esperanças a respeito de uma reunião miniministerial em Davos aumentassem significativamente", como diz o boletim "Bridges", especializado em comércio exterior.

A miniministerial será amanhã, à margem do encontro anual 2007 do Fórum Econômico Mundial, com a participação dos principais atores, entre eles, obviamente, o ministro brasileiro Celso Amorim.

O desmentido formal de Schwab reduz a esperança, até porque ela foi enfática: "Com esses números, nunca chegaríamos a lugar nenhum". A chefe do USTr atribui a informação do jornal britânico "a uma expressão de desejos deste lado do Atlântico", ou seja, aos negociadores europeus.

O desmentido foi feito, aliás, em sessão de debates moderada por Lionel Barber, editor do "Financial Times".

Definir prioridades

O teorema que Schwab traçou para a miniministerial de Davos e os passos seguintes foge completamente dos números para ficar em conceitos difíceis de traduzir em posições negociadoras.

Tratar-se-ia, diz, de definir claramente "prioridades e sensibilidades" de todas as partes, de tal forma a "maximizar o aumento do comércio [decorrente do acordo] sem, no processo, detonar algum governo".

Acrescentou que, levando em conta o complicado "mosaico" de forças nos EUA, quanto "mais dramático for o aumento comercial derivado do acordo, maiores chances de o Congresso [dos EUA] aprová-lo".

Parece querer dizer o seguinte: os EUA estão de fato dispostos a reduzir os subsídios que concedem a seus agricultores (o teto que têm oferecido é de US$ 22 bilhões, paradoxalmente o dobro do que efetivamente gastaram em 2006). Mas só o farão se receberam compensações em outras áreas, como maior acesso ao mercado europeu, por meio da redução de tarifas agrícolas, e ganhos em bens industriais e serviços, o que implicaria concessões dos países em desenvolvimento.

Rodada multilateral

Schwab fez questão de deixar claro, a propósito, que não adiantaria nada Europa e EUA se entenderem. "É impossível um acordo por meio de entendimento apenas bilateral, quaisquer que sejam os parceiros. Esta é uma rodada realmente multilateral."

Elogiou China, Índia e Brasil como "usinas comerciais" e lembrou, delicadamente, que tanto Brasil e Estados Unidos como Brasil e Índia "têm muito a conversar".

Já a ministra suíça de Assuntos Econômicos, Doris Leuthard, aproveitou para lamentar que a Rodada Doha esteja bloqueada pela questão agrícola (os suíços são ainda mais protecionistas, em agricultura, do que a União Européia). Pediu mais acesso a mercado em serviços e bens industriais e cobrou regras mais claras para regular o comércio.

Seguiram a mesma trilha os dois representantes do setor privado à mesa do debate. Peter Brabeck-Letmathe, executivo-chefe da Nestlé, calculou que um dia de retenção de produtos na alfândega representa um custo adicional equivalente a 0,8% do valor do bem.

"Como em alguns países mercadorias podem ficar paradas até 40 dias, equivale a uma barreira não-tarifária de 32%."

Frederick Smith, fundador e executivo-chefe do FedEx, o serviço privado de correio presente no mundo todo, cobrou a harmonização das normas de alfândegas no mundo. Calculou em US$ 300 bilhões anuais o custo dos atrasos na liberação alfandegária de mercadorias, "mais que o tamanho da maioria das economias do mundo".

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