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Dinheiro
01/03/2007 - 18h12

Confira a íntegra do bate-papo com Fernando Canzian sobre o resultado do PIB

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da Folha Online

Confira abaixo a íntegra do bate-papo com o jornalista Fernando Canzian, repórter especial da Folha, sobre o resultado do PIB em 2006. O texto abaixo reflete a forma como os participantes digitaram. Participaram do chat 148 pessoas.

Bem-vindo ao Bate-papo com Convidados do UOL. Converse agora com o jornalista Fernando Canzian sobre o desempenho da economia brasileira em 2006. Para enviar sua pergunta, selecione o nome do convidado no menu de participantes. É o primeiro da lista.

Folha Imagem
O jornalista Fernando Canzian, que participa de bate-papo sobre o resultado do PIB
O jornalista Fernando Canzian, que participa de bate-papo sobre o resultado do PIB


(05:02:25) Fernando Canzian: boa tarde a todos. aqui é o fernando canzian. vamos lá.

(05:03:04) carola fala para Fernando Canzian: olá Fernando, boa tarde. O crescimento do PIB indica que a economia do Brasil vai bem?

(05:05:21) Fernando Canzian: carola - a economia do brasil podia estar melhor. é um crescimento muito baixo para um pais com as características de um país como o brasil. ou seja, pobre e com renda baixa.

(05:05:37) MANUELA fala para Fernando Canzian: O crescimento no governo Lula é igual ao dos tempos de FHC. Isso mostra que as duas formas de conduzir a economia são iguais?

(05:08:31) Fernando Canzian: manuela - em termos numéricos, os dois governos são iguais, mas a qualidade do crescimento é diferente. fhc 1 foi um governo de estabilização, do plano real, de câmbio congelado, das privatizações. lula 1 foi um periodo de controle de outra crise, que surgiu a partir de 2002, quando o dólar bateu em quase R$ 4,00. Mas o que os resultados mostram é que, basicamente, o potencial de crescimento do pib brasileiro, pelo menos por enquanto, não vai muito além disso. são 12 anos de políticas parecidas (fhc 1 e 2 e lula 1) e não avançamos muito.

(05:08:37) pedro fala para Fernando Canzian: olá Fernando, boa tarde. O que você achou da declaração do presidente, que disse que a economia brasileira é "sólida"??

(05:11:19) Fernando Canzian: pedro - a economia brasileira de fato está muito mais sólida do que há quatro anos. o endividamento externo público praticamente desapareceu e o privado está caindo. as reservas internacionais estão em US$ 100 bi (há quatro anos estavamos passando o pires no fmi). a dívida interna também está em trajetória de queda. mas o fato é que luila não enfrentou ainda nenhum crise internacional séria. fhc teve três no segundo mandato. a reação, péssima, do mercado esta semana à queda da bolsa na china, na minha opinião, não foi uma grande demonstração do mercado de acreditar que estamos tão sólidos quanto o presidente acredita.

(05:11:31) Tulio fala para Fernando Canzian: Caro Canzian, quando teremos um PIB como o do resto do mundo? Vc acredita mesmo que a China cresce a 10% ao ano? Não parece impossível, pelo menos para nós brasileiros?

(05:15:31) Fernando Canzian: tulio - é uma pergunta difícil de responder. muitos acreditam que, com a atual carga tributária (em torno de 40% do pib), dificilmente o brasil vai crescer mais do que 4%, 4,5% ao ano. isso ocorre porque o governo tira do setor privado boa parte do dinheiro que poderia ir para investimentos e consumo, travando a economia. outros países emergentes que crescem muito mais que o brasil têm carga tributária entre 20% e 25%. quando a do brasil estava nesse patamar, o país chegou a crescer 7%. china: a china é um país muito diferente do brasil, em termos econômicos e políticos. praticamente não existe previdência lá (onde o brasil gasta bilhões) e não hpá eleições. é mais fácil adotar medidas impopulares para fazer o país crescer nesse contexto. eles também estão em outro estágio de desenvolvimento, com milhões de pessoas migrando do campo para a cidade, algo que vivemos nas décadas de 40 e 50. é natual que cresçam mais.

(05:15:35) Natal fala para Fernando Canzian: olá Fernando. o Superávite primário que o governo prioriza tanto é "todo" para pagar juros?

(05:17:33) Fernando Canzian: natal - o superávit tem esse destino, e tem tido algum efeito sobre a redução da dívida pública. o problema é que o brasil ainda pratica taxas de juro muito altas e, por isso, a trajetória de queda da dívida interna (hoje ao redor de 50% do pib) é tão lenta.

(05:18:01) Marcio COMEXSantos fala para Fernando Canzian: vc nao acha que deveria ser criada uma comissao com profissionais q estao envoolvidos diretamente na area operacional portuaria para solucionar probl cronicos q sao tratados de uma maneira amadora, devido a falta de conhecimento dos legisladores?

(05:20:18) Fernando Canzian: marcio - não conheço especificamente a área portuária. já fiz algumas reportagens sobre o porto de santos, que é o maior da américa latina. o fato é que o porto, que deveria ser eficiente e administrado proporcionalmente, tem uma espécie de loteamento político, com vários interesses diferentes em jogo, o que acaba prejudicando as atividades. é um problema sério. se v. visitar santo, vai achar que é um milagre as exportações brasileiras estarem crescendo tanto.

(05:20:40) ANAZ fala para Fernando Canzian: gostaria de saber um pouco mais sobre o pac

(05:21:01) Fernando Canzian: todos - desculpem, escrevi proporcionalmente em lugar de profissionalmente na resposta acima.

(05:24:21) Fernando Canzian: anaz - o pac é uma tentativa de colocar o brasil numa espécie de "corrente prá frente" do crescimento. de coordenar políticas que estão desamarradas e tentar acordar o "espírito animal" dos empresários para investimentos. mas a verdade é que dificilmente o governo terá dinheiro para tocar todos os projetos apresentados e mesmo de aprovar duas medidas importantes do plano: contenção do aumento do funcionalismo, limitado a 1,5% ao ano, e nova regra para o aumento do salário mínimo, que subiria pela variação do pib de dois anos antes. eu não esperaria muito do pac. se der certo, será uma surpresa.

(05:24:55) Helder fala para Fernando Canzian: Fernando, muito se fala que a falta de infra-estrutura é o principal gargalo para o crescimento do Brasil. Alguns atribuem este papel à elevada taxa de juros, que sufocaria o setor produtivo. Em sua opinião, qual o principal responsável pelo crescimento abaixo da média mundial que temos apresentado?

(05:31:05) Fernando Canzian: helder - a questão da infra-estrutura é fundamental. basta lembrar o que aconteceu durante o governo fhc, quando tivemos o apagão. os juros no brasil realmente são altos, os maiores do mundo em termos reais (quando se desconta a inflação). mas é preciso lembrar que nenhum governo ou banco central é masoquista. todos querem que o país cresça. a pergunta que muita gente não faz quando reclama dos juros é: qual a razão de o juro ser tão alto? há inúmeras respostas a essa pergunta, e a mais óbvia é que o governo não cabe no pib. gasta demais e precisa tomar dinheiro, a juros, no mercado. se ele fosse mais econômico, precisaria tomar menos dinheiro emprestado e poderia reduzir rapidamente os juros. pq o crescimento abaixo da média mundial? basicamente pq o brasil investe anualmente o equivalente a 20% do PIB, sendo que o setor público contribui com apenas 1% (o resto vem das empresas privadas). qualquer país que queira crescer mais rápido deve investir, pelo menos, 24%, 25% do PIB. é uma tragédia, pois todo o...

(05:31:45) Arthur Neves fala para Fernando Canzian: Ao comentar o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2006, que apresentou crescimento inferior a 3% pelo segundo ano seguido, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB) acusou o Banco Central de "ignorância econômica". O que você achou da atitude do Serra?

(05:33:00) Fernando Canzian: helder (continuação da resposta anterior): todo o... dinheiro que antes a união investia em infra-estrutura (estradas, portos)hoje vai para gastos correntes que não agregam muito ao pib.

(05:34:35) Fernando Canzian: arthur - é um debate bastante politizado esse sobre os juros. o psdb, do qual o governoador faz parte, praticou sob fhc as maiores taxas de juros reais que o planeta já viu na história recente. eles também não queriam fazer isso, mas, pelo jeito, não tiveram opção quando foi necessário.

(05:34:48) nascimento fala para Fernando Canzian: ogstaria de saber qual a sua opinião das bolsa de valores voçê elas vão ter muitas variações este ano ou vai ficar estavel

(05:38:45) Fernando Canzian: nascimento - queria saber a resposta a essa pergunta. é difícil saber. há muita especulação no mercado nesses dias. é preciso lembrar que as bolsas aqui e na china e em muitos outros lugares subiram muito nos últimos meses e que não há sinais definitivos sobre o que vai acontecer na maior economia do mundo, os eua. eu apostaria numa tendência de crescimento moderado, com especuladores aproveitando para ganhar dinheiro em correrias como a dessa semana. o fato é que há muita liquidez (dinheiro a rodo) nos mercados atualmente.

(05:38:51) Darth Vader fala para Fernando Canzian: Qual a sua expectativa para a economia brasileira neste ano?

(05:41:03) Fernando Canzian: vader - os números do pib mostram que estamos "rodando" em torno de 4%. o pib do último trimestre fechou em 3,8% (contra o último trimestre de 2005). É mais do que os 2,9% registrados no ano passado. acho que não será pior do que 2006, mas não muito melhor.

(05:41:21) Bruno Vinhas fala para Fernando Canzian: De quando deve ser o crescimento do PIB para que nosso país cresca um pouco mais?

(05:41:47) Fernando Canzian: vinhas- quanto maior o percentual, maior o crescimento.

(05:42:17) Roberto fala para Fernando Canzian: Prezado Canzian, é muito difundida a idéia da manutenção da política de juros altos para conter a inflação...até onde realmente a especulação dos juros tem atrazado o crescimento da economia e qual deve ser o critério adequado e pautado para a realidade atual do País frente a economia global?

(05:46:48) Fernando Canzian: roberto - como disse acima, essa discussão sobre os juros é muito complexa. o fato é que num país muito pobre como o brasil, o controle da inflação é fundamental para manter e ampliar o poder de compra da população. e isso tem realmente acontecido de maneira bastante forte. é mérito do governo fhc, que lançou o mais bem sucedido plano de estabilização do brasil (o real) e do governo lula, que está mantendo a inflação baixa. numa economia global, o país que quiser se sair bem tem de ter vantagens comparativas (infra-estrutura, carga tributária, patamar de juros etc.) igual ou melhor que seus concorrentes. não estamos muito bem.

(05:46:54) Helder fala para Fernando Canzian: Caro Fernando, complementando a pergunta feita por ANAZ: você pensa que o PAC, da maneira que está, é capaz de reverter nossa deficiência em infra-estrutura? Além disso, esse plano não deveria vir acompanhado de uma mudança na política econômica empreendida pelo BC?

(05:49:46) Fernando Canzian: helder - como disse, acho meio cedo para fazer uma avaliação mais profunda do pac. muita coisa não foi aprovada no congresso e há assuntos polêmicos envolvidos. além disso, nada garante que o governo de fato vá conseguir gastar todo o dinheiro que diz estar mobilizando para o programa, seja por questões operacionais ou por problemas de caixa e manutenção do superávit primário. sobre os juros, se o banco central fosse independente de fato, como em países mais avançados e estáveis, essa discussão seria, basicamente, inútil.

(05:49:52) internauto fala para Fernando Canzian: Li uma reportagem sua na Folha de domingo falando sobre o Bolsa Família, que estaria atrapalhando a contratação formal de trabalhadores no Nordeste. Pergunto: você acredita que fazendas do Nordeste queiram mesmo contratar trabalhadores? O que mais vemos é notícia de libertação de trabalhadores "escravizados" nas regiões Norte e Nordeste. E essa carga tributária recorde não é nenhum atrativo para incentivar contratações, convenhamos... E a economia como um todo não é prejudicada com uma carga tributária recorde de quase 40% do PIB?

(05:52:59) Fernando Canzian: internauto - rodei várias fazendas na região e falei com trabalhadores e fazendeiros. o que relatei na reportagem é o que de fato vi. o caso da agribahia, de um grupo multinacional português, é incrível. a empresa realmente não consegue arregimentar as pessoas, que têm todas as razões do mundo para tentar se proteger. para elas, pobres e muitas vezes desinformadas, o que pesa mais é sempre garantir o certo no lugar do duvidoso --ou seja, a aposentadoria e o bolsa família.

(05:53:41) giselle fala para Fernando Canzian: Gostaria de entender o seguinte, o que significa um crescimento de 2,9 e uma carga tributária de 38,8%

(05:57:08) Fernando Canzian: giselle - significa que o governo (federal, estaduais e municipais) consomem 38,8% de tudo o que se produz em um ano inteiro no brasil. o dinheiro é gasto, basicamente, em atividade que nada têm a ver com a produção e a geração de riquezas --por isso o pib acaba ficando fraco. se a carga tributária fosse de, digamos, 25%, sobraria muito mais dinheiro para as empreas investirem e para os cidadãos consumirem. se v., por exemplo, pagasse 15% de imposto em vez de 27,5%, sobraria mais dinheiro para comprar coisas-- e isso aumentaria o pib.

(05:57:14) luis--ce fala para Fernando Canzian: Boa noite.. Sou de Fortaeza e hj recebemos a notícia de que o nosso governador vai reduzir o icms no estado visando aumentar a arrecadação. Como empresário e industrial eu concordo com o procedimento dele.. gostaria de saber a sua opniao sobre o assunto e o pq das dificuldades em fazer a reforma tributária já q tantos ganhariam com isso.. grato.

(06:01:19) Fernando Canzian: luiz - o problema da reforma tributária é que ninguém quer perder arrecadação. é uma briga. tenho até dúvidas se o próprio governo federal quer a reforma, já que está em uma situação confortável com a arrecadação atual. as contas já não fecham do jeito que está, imagine se eles querem correr o risco de perder arrecadação... mas o fato é que o regime tributário brasileiro é um caos, custoso e difícil de operar. as empresas gastam milhões para se manter em dia com normas que surgem todos os dias. bem, acabou nosso tempo. agradeço o interesse de todos. sinto não ter respondido a todas as perguntas. grato, fernando canzian

(06:01:43) Geovanna - UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Fernando Canzian e de todos os internautas. Até o próximo!

(06:05:03) Fernando Canzian: geovanna. foi legal. obrigado. um abraço

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