01/03/2007
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19h36
O jornalista Fernando Canzian, repórter especial da Folha, disse hoje durante bate-papo com 148 internautas, que a economia do Brasil poderia estar muito melhor, e que o país não cresce mais, entre outros fatores, devido a alta carga tributária e taxa de juros.
Para o jornalista, com a atual carga tributária, dificilmente o Brasil vai crescer mais do que 4%, 4,5% ao ano. "Isso ocorre porque o governo tira do setor privado boa parte do dinheiro que poderia ir para investimentos e consumo, travando a economia. Outros países emergentes que crescem muito mais que o Brasil têm carga tributária entre 20% e 25%. Quando a do Brasil estava nesse patamar, o país chegou a crescer 7%", disse.
"Os números do PIB mostram que estamos 'rodando' em torno de 4%. O PIB do último trimestre fechou em 3,8% (contra o último trimestre de 2005). É mais do que os 2,9% registrados no ano passado. Acho que não será pior do que 2006, mas não muito melhor. É um crescimento muito baixo para um país com as características do Brasil. Ou seja, pobre e com renda baixa", disse.
O jornalista afirmou que, em termos numéricos, os governos FHC e Lula são iguais -- "mas a qualidade do crescimento é diferente". "FHC 1 foi um governo de estabilização, do Plano Real, de câmbio congelado, das privatizações. Lula 1 foi um período de controle de outra crise, que surgiu a partir de 2002, quando o dólar bateu em quase R$ 4,00. Mas o que os resultados mostram é que, basicamente, o potencial de crescimento do PIB brasileiro, pelo menos por enquanto, não vai muito além disso. São 12 anos de políticas parecidas (FHC 1 e 2, e Lula 1) e não avançamos muito", escreveu o jornalista.
Fernando Canzian reconhece que a economia brasileira está mais sólida do que há quatro anos. "O endividamento externo público praticamente desapareceu e o privado está caindo. As reservas internacionais estão em US$ 100 bi (há quatro anos estávamos passando o pires no FMI). A dívida interna também está em trajetória de queda, mas o fato é que Lula não enfrentou ainda nenhuma crise internacional séria. FHC teve três no segundo mandato. A reação, péssima, do mercado esta semana à queda da Bolsa na China, na minha opinião, não foi uma grande demonstração do mercado de acreditar que estamos tão sólidos quanto o presidente acredita", disse.
O jornalista lembrou do caso da China, país que cresce a um ritmo de 10% ao ano. "A China é um país muito diferente do Brasil, em termos econômicos e políticos. Praticamente não existe previdência lá (onde o Brasil gasta bilhões) e não há eleições. É mais fácil adotar medidas impopulares para fazer o país crescer nesse contexto. Eles também estão em outro estágio de desenvolvimento, com milhões de pessoas migrando do campo para a cidade, algo que vivemos nas décadas de 40 e 50. É natural que cresçam mais."
Sobre as iniciativas do governo Lula para acelerar o crescimento, o jornalista afirma que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) é uma tentativa de colocar o Brasil numa espécie de 'corrente prá frente' do crescimento. "A verdade é que dificilmente o governo terá dinheiro para tocar todos os projetos apresentados e mesmo de aprovar duas medidas importantes do plano: contenção do aumento do funcionalismo, limitado a 1,5% ao ano, e nova regra para o aumento do salário mínimo, que subiria pela variação do PIB de dois anos antes. Eu não esperaria muito do PAC. Se der certo, será uma surpresa", disse.
Questionado por um internauta se a "falta de infra-estrutura" seria o principal gargalo para o crescimento do Brasil, Canzian concordou, lembrando o caso do "apagão", ocorrido no governo FHC. "Todo o dinheiro que antes a União investia em infra-estrutura (estradas, portos) hoje vai para gastos correntes que não agregam muito ao PIB", disse.
O jornalista lembrou que o governo como um todo consome 38,8% de tudo o que se produz no país com a carga tributária. "O dinheiro é gasto, basicamente, em atividades que nada têm a ver com a produção e a geração de riquezas --por isso o PIB acaba ficando fraco. Se a carga tributária fosse de, digamos, 25%, sobraria muito mais dinheiro para as empresas investirem e para os cidadãos consumirem. Se você, por exemplo, pagasse 15% de imposto em vez de 27,5%, sobraria mais dinheiro para comprar coisas --e isso aumentaria o PIB", disse.
Sobre a reforma tributária, o jornalista afirmou que o principal problema é que "ninguém quer perder arrecadação". "É uma briga. Tenho até dúvidas se o próprio governo federal quer a reforma, já que está em uma situação confortável com a arrecadação atual. As contas já não fecham do jeito que está, imagine se eles querem correr o risco de perder arrecadação. O fato é que o regime tributário brasileiro é um caos, custoso e difícil de operar. As empresas gastam milhões para se manter em dia com normas que surgem todos os dias", disse.
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Leia a íntegra do bate-papo com Fernando Canzian
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Leia reportagens feitas por Fernando Canzian (Só assinantes)
Leia a coluna de Fernando Canzian na Folha Online
Para Fernando Canzian, carga tributária e juro alto limitam crescimento do Brasil
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da Folha OnlineO jornalista Fernando Canzian, repórter especial da Folha, disse hoje durante bate-papo com 148 internautas, que a economia do Brasil poderia estar muito melhor, e que o país não cresce mais, entre outros fatores, devido a alta carga tributária e taxa de juros.
Para o jornalista, com a atual carga tributária, dificilmente o Brasil vai crescer mais do que 4%, 4,5% ao ano. "Isso ocorre porque o governo tira do setor privado boa parte do dinheiro que poderia ir para investimentos e consumo, travando a economia. Outros países emergentes que crescem muito mais que o Brasil têm carga tributária entre 20% e 25%. Quando a do Brasil estava nesse patamar, o país chegou a crescer 7%", disse.
"Os números do PIB mostram que estamos 'rodando' em torno de 4%. O PIB do último trimestre fechou em 3,8% (contra o último trimestre de 2005). É mais do que os 2,9% registrados no ano passado. Acho que não será pior do que 2006, mas não muito melhor. É um crescimento muito baixo para um país com as características do Brasil. Ou seja, pobre e com renda baixa", disse.
| Folha Imagem |
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| O jornalista Fernando Canzian, que participa de bate-papo sobre o resultado do PIB |
O jornalista afirmou que, em termos numéricos, os governos FHC e Lula são iguais -- "mas a qualidade do crescimento é diferente". "FHC 1 foi um governo de estabilização, do Plano Real, de câmbio congelado, das privatizações. Lula 1 foi um período de controle de outra crise, que surgiu a partir de 2002, quando o dólar bateu em quase R$ 4,00. Mas o que os resultados mostram é que, basicamente, o potencial de crescimento do PIB brasileiro, pelo menos por enquanto, não vai muito além disso. São 12 anos de políticas parecidas (FHC 1 e 2, e Lula 1) e não avançamos muito", escreveu o jornalista.
Fernando Canzian reconhece que a economia brasileira está mais sólida do que há quatro anos. "O endividamento externo público praticamente desapareceu e o privado está caindo. As reservas internacionais estão em US$ 100 bi (há quatro anos estávamos passando o pires no FMI). A dívida interna também está em trajetória de queda, mas o fato é que Lula não enfrentou ainda nenhuma crise internacional séria. FHC teve três no segundo mandato. A reação, péssima, do mercado esta semana à queda da Bolsa na China, na minha opinião, não foi uma grande demonstração do mercado de acreditar que estamos tão sólidos quanto o presidente acredita", disse.
O jornalista lembrou do caso da China, país que cresce a um ritmo de 10% ao ano. "A China é um país muito diferente do Brasil, em termos econômicos e políticos. Praticamente não existe previdência lá (onde o Brasil gasta bilhões) e não há eleições. É mais fácil adotar medidas impopulares para fazer o país crescer nesse contexto. Eles também estão em outro estágio de desenvolvimento, com milhões de pessoas migrando do campo para a cidade, algo que vivemos nas décadas de 40 e 50. É natural que cresçam mais."
Sobre as iniciativas do governo Lula para acelerar o crescimento, o jornalista afirma que o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) é uma tentativa de colocar o Brasil numa espécie de 'corrente prá frente' do crescimento. "A verdade é que dificilmente o governo terá dinheiro para tocar todos os projetos apresentados e mesmo de aprovar duas medidas importantes do plano: contenção do aumento do funcionalismo, limitado a 1,5% ao ano, e nova regra para o aumento do salário mínimo, que subiria pela variação do PIB de dois anos antes. Eu não esperaria muito do PAC. Se der certo, será uma surpresa", disse.
Questionado por um internauta se a "falta de infra-estrutura" seria o principal gargalo para o crescimento do Brasil, Canzian concordou, lembrando o caso do "apagão", ocorrido no governo FHC. "Todo o dinheiro que antes a União investia em infra-estrutura (estradas, portos) hoje vai para gastos correntes que não agregam muito ao PIB", disse.
O jornalista lembrou que o governo como um todo consome 38,8% de tudo o que se produz no país com a carga tributária. "O dinheiro é gasto, basicamente, em atividades que nada têm a ver com a produção e a geração de riquezas --por isso o PIB acaba ficando fraco. Se a carga tributária fosse de, digamos, 25%, sobraria muito mais dinheiro para as empresas investirem e para os cidadãos consumirem. Se você, por exemplo, pagasse 15% de imposto em vez de 27,5%, sobraria mais dinheiro para comprar coisas --e isso aumentaria o PIB", disse.
Sobre a reforma tributária, o jornalista afirmou que o principal problema é que "ninguém quer perder arrecadação". "É uma briga. Tenho até dúvidas se o próprio governo federal quer a reforma, já que está em uma situação confortável com a arrecadação atual. As contas já não fecham do jeito que está, imagine se eles querem correr o risco de perder arrecadação. O fato é que o regime tributário brasileiro é um caos, custoso e difícil de operar. As empresas gastam milhões para se manter em dia com normas que surgem todos os dias", disse.
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