Dólar baixo agrava momento difícil do setor sucroalcooleiro
MÁRCIO RODRIGUES
da Folha Online
A queda do dólar acentuou ainda mais o momento desfavorável por que passa o setor sucroalcooleiro. Isso porque a tonelada do açúcar em dólar mais barata, que já custa cerca de 45% menos que há um ano, é somada à queda de 30% nos preços do litro do álcool vendidos na usina e ainda não repassados integralmente para o consumidor.
| Joel Silva/Folha Imagem |
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| Usineiros querem reveerter perdas da venda do açúcar com álcool |
De acordo com o conselheiro da Udop (Usinas e Destilarias do Oeste Paulista) e diretor da Usina Campestre, Fernando Perri, o dólar é um componente importante para as usinas. "Cerca de 60% das receitas do setor são indexadas ao dólar. Acredito que ninguém fez previsões orçamentárias considerando o dólar em R$ 1,90", afirma. A cotação da moeda norte-americana na última sexta-feira foi de R$ 1,953.
Ele explica que essa queda apenas se soma à desvalorização do açúcar no mercado internacional. "Há uns três anos, quando os preços do açúcar começaram a subir de maneira mais firme, todos os produtores mundiais que tinham algum espaço de produção ocioso, como Índia e Tailândia, além do próprio Brasil, aumentaram sua produção. Isso derrubou as cotações neste ano", avalia.
Perri lembra que em maio de 2006, os preços do açúcar estavam em cerca de US$ 370 a tonelada. Atualmente, os preços da tonelada da commodity não passam de US$ 200.
Segundo ele, a minimização desse cenário poderia ocorrer via aumento da produção de álcool em detrimento do açúcar. "Como o álcool está em um momento melhor, isso minimizaria as perdas dos produtores. No entanto, precisaríamos ampliar também o consumo, o que só é possível com a redução dos preços nas bombas para que o consumidor opte pelo álcool à gasolina", afirma Perri.
O executivo diz que as usinas já reduziram em mais de 30% o preço do litro do álcool vendido para as distribuidoras. Em maio de 2006 os preços estavam em cerca de R$ 1,06 por litro, contra R$ 0,70 a R$ 0,75 no mesmo mês deste ano, diz Perri.
No ano passado, os preços do álcool estavam elevados por conta de problemas na entressafra de cana-de-açúcar, quando os estoques do combustível estavam baixos. Porém, os preços menores praticados em 2007 ainda não estão refletidos nas bombas.
Segundo levantamento da ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), enquanto o preço médio do litro do álcool era de R$ 1,765 em maio de 2006, o preço médio atual é de R$ 1,69, ou 6% menor que no ano passado.
"Se o repasse na queda não chegar ao consumidor, não poderemos alterar o mix de produção. Seria interessante saber porque as distribuidoras e os postos ainda não repassaram a queda para os proprietários de veículos", diz Perri.
Distribuidoras
O diretor presidente da Chevron Brasil, detentora da marca Texaco, Maurício Nicholls, diz que o "preço bomba" do álcool hidratado obedece a uma dinâmica de mercado na qual vários fatores incidem.
| Beto Baptista/Folha Imagem |
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| Preço do álcool já caiu 30% nas usinas, mas repasse ainda não chegou às bombas |
Segundo ele, entre os fatores que impedem um repasse acelerado de preços para o consumidor destacam-se os níveis e custos dos inventários (estoque), os custos de reposição dos mesmos, a intensidade da concorrência, a rapidez da queda ou alta dos preços das commodities.
"Na maioria das vezes, os 'preços bomba' flutuam muito menos que os preços das commodities, tanto na alta quanto na queda. Desta forma, o consumidor tem estabilidade muito maior nos preços", aponta.
Ainda de acordo com Nicholls, em momentos de alta nos preços do álcool, é "quase impossível" repassar os preços rapidamente para o consumidor. "Nesses períodos, as companhias acabam por absorver por tempos longos uma boa parte dos aumentos nos custos. Em períodos de queda de preços, os fatores já mencionados fazem com que os preços para o consumidor também não sejam repassados com a mesma rapidez", justifica.
Na avaliação do executivo, "o mercado brasileiro de combustíveis é altamente competitivo, o que faz com que os consumidores sempre tenham preços competitivos e serviços de boa qualidade. Cabe aos revendedores decidir quando e quanto alterar o preço bomba e, obviamente, eles fazem isso levando em conta a situação do mercado na sua área de influência".
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