Bovespa despenca 5,23% e dólar se aproxima de R$ 2,10
EPAMINONDAS NETO
da Folha Online
O mercado atravessa uma nova etapa da crise global das Bolsas e reflete um estoque renovado de más notícias, seja de indicadores econômicos ruins dos EUA, seja de novas empresas às voltas com problemas de caixa, apontando uma crise de liquidez (de contração de crédito) nos sistemas financeiros.
O Ibovespa, índice da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), despenca 5,23%, aos 46.707 pontos, nesta quinta-feira. Com a crise, a Bolsa recuou para o seu menor nível desde 11 de abril, quando os mercados mal se recuperavam das turbulências provocadas pelo "efeito China". O volume financeiro está alto para o horário -- R$ 2 bilhões-- mostrando a corrida dos investidores para liquidar papéis.
O dólar comercial é negociado a R$ 2,095 para venda, em forte alta de 3,25%. A taxa de risco-país, medida pelo indicador Embi+ (JP Morgan), marca 218 pontos, número 6,86% superior à pontuação final de ontem.
Na Ásia, a Bolsa de Tóquio fechou com baixa de 2,03%, enquanto as principais Bolsas da Europa e dos EUA operam em território negativo.
A má notícia da vez é protagonizada pela empresa americana Countrywide Financial, maior financiadora imobiliária dos EUA, que foi obrigada a tomar US$ 11,5 bilhões para se prevenir contra uma possível falta de crédito na praça. Ontem, o banco de investimentos Merrill Lynch já havia rebaixado sua recomendação para as ações da empresa.
Para piorar, a economia real também não serve de contraponto. Hoje, o Departamento do Comércio dos EUA informou que a construção de casas teve queda de 6,1% em julho, caindo para uma taxa anualizada de 1,38 milhão de unidades --uma redução de 20,9% em relação ao mesmo mês de 2006 e a mais baixa taxa desde janeiro de 1997.
A crise dos empréstimos hipotecários "subprime" (de segunda linha) parece vir numa crescente e ameaça contaminar o Brasil, em que pesem as declarações de autoridades e de uma parcela do mercado. Pelo menos, é o que sugere artigo publicado hoje no "Financial Times", referência mundial sobre assuntos financeiros. O periodico britânico aponta que que uma parte dos investidores já começou a considerar os ativos brasileiros "mais arriscados do que eles pensavam".
Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que as reservas internacionais do país são um motivo para 'ficar tranqüilo'. Ele também negou que as turbulências provocadas pela crise das hipotecas do mercado imobiliário norte-americano contagiem a economia brasileira.
Uma parte do mercado brasileiro também espera que os fundamentos econômicos do país concorram para que os grandes investidores globais separem "o joio do trigo", isto é, considerem o Brasil como um lugar menos arriscado para manter ou aplicar recursos na comparação com o restante das economias emergentes.
Entenda
A tensão no mercado global e as quedas das principais Bolsas de valores do mundo se acentuaram na semana passada, ao refletir a notícia de que o banco francês BNP Paribas havia congelado o saque de três de seus fundos de investimentos.
A instituição, uma das maiores da Europa, alegou dificuldades em contabilizar as reais perdas desses fundos, que tinham recursos aplicados em créditos gerados a partir de operações hipotecárias americanas. No mundo da globalização financeira, créditos gerados nos EUA podem ser convertidos em ativos que vão render juros para investidores na Europa.
Esses créditos imobiliários, chamados de "subprime" (de segunda linha), são gerados a partir empréstimos com tomadores que podem oferecer menos garantia. Embutem maior risco de crédito e por isso, têm juros maiores, o que os torna mais atrativos para gestores de fundos em busca de retornos melhores.
O mercado já monitorava há meses os problemas com esses créditos. Quando a inadimplência dessas operações superou as expectativas, empresa após empresa nos EUA relataram problemas de caixa. E o caso do Paribas sinalizou que esses problemas haviam atravessado as fronteiras.
Após o anúncio do banco, os principais bancos centrais do mundo --o BCE (Banco Central Europeu), o Federal Reserve (Fed, o BC americano) e o Banco do Japão-- injetaram bilhões de dólares em recursos para garantir a liquidez (oferta de crédito) dos respectivos sistemas bancários.
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