Empresas brasileiras perdem US$ 209,7 bilhões em valor de mercado
CAMILA MARQUES
Editora de Dinheiro da Folha Online
As 316 maiores empresas brasileiras de capital aberto perderam US$ 209,7 bilhões em valor de mercado desde 19 de julho, dia em que o Ibovespa, principal índice da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), atingiu sua pontuação máxima. O levantamento, feito pela consultoria Economática, leva em conta os números até o fechamento de quarta-feira (15), quando o índice caiu mais de 3% e voltou a operar abaixo de 50.000 pontos.
A insegurança nos mercados globais sobre a extensão dos problemas com a oferta de crédito no mercado imobiliário norte-americano tem gerado perdas expressivas pelas Bolsas ao redor do mundo nos últimos dias.
| Raimundo Pacco/Folha Imagem |
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| Bolsas despencam com crise nos EUA; na foto, pregão da BM&F |
O estopim foi a notícia de que o banco francês BNP Paribas, um dos principais da Europa, havia congelado o saque de três de seus fundos de investimentos que tinham recursos aplicados em créditos gerados a partir de operações hipotecárias nos EUA.
Assim, como a crise americana provoca aversão ao risco, os investidores em ações preferem sair das Bolsas e aplicar em investimentos mais seguros. Além disso, os estrangeiros que aplicam em mercados emergentes, como o Brasil, vendem seus papéis para cobrir perdas lá fora. Com muita gente querendo vender --ou seja, oferta elevada--, os preços dos papéis caem. Só hoje, no Brasil, a queda da Bolsa está em mais de 8%.
No México, cujo mercado é o segundo mais importante da América Latina, as perdas são da ordem de US$ 65,8 bilhões. No mercado latino-americano como um todo, que engloba 775 empresas de sete países (México, Venezuela, Colômbia, Peru, Chile, Argentina e Brasil), as perdas chegam a US$ 322,2 bilhões.
No mesmo período, as 1.204 maiores empresas dos Estados Unidos, por valores de mercado, perderam US$ 1,651,1 trilhão, montante superior a todo o valor das 775 empresas latino-americanas incluídas no levantamento.
Segundo a pesquisa da Economática, as cinco maiores quedas das empresas americanas (Exxon Móbil, General Electric, Microsoft Corp, Citigroup e Chevron Texaco) acumulam perdas de US$ 190,1 bilhões, quase o mesmo registrado pelo Brasil como um todo.
Com as perdas registradas neste semana, o Ibovespa acumula no ano valorização de apenas 10,8%, ante alta de 21,83% que o índice detinha no dia 31 de julho, segundo mês do ano que a Bolsa encerrou em queda (-0,39). Antes disso, a Bolsa só havia ficado negativa em fevereiro (-1,68%). Hoje, a queda, histórica, chega a mais de 8%.
Na Ásia, a Bolsa de Tóquio fechou a quinta-feira com baixa de 2,03%, enquanto as principais Bolsas da Europa e dos EUA operam em território negativo.
Confira abaixo o valor de mercado nas duas datas em todos os países latino-americanos e nos Estados Unidos:
| Empresas | País | Valor em 19/7 | Valor em 15/8 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 1.204 | EUA | US$ 16,983 trilhões | US$ 15,332 trilhões | US$ -1,651 trilhão |
| 775 | América Latina | US$ 1,928 trilhão | US$ 1,606 trilhão | US$ -322,2 bilhões |
| 316 | Brasil | US$ 1,003 trilhão | US$ 793,8 bilhões | US$ -209,7 bilhões |
| 103 | México | US$ 459,5 bilhões | US$ 393,7 bilhões | US$ -65,8 bilhões |
| 148 | Chile | US$ 212,5 bilhões | US$ 195,2 bilhões | US$ -17,3 bilhões |
| 82 | Peru | US$ 113,7 bilhões | US$ 100,0 bilhões | US$ -13,7 bilhões |
| 72 | Argentina | US$ 85,4 bilhões | US$ 73,6 bilhões | US$ -11,8 bilhões |
| 22 | Colômbia | US$ 44,4 bilhões | US$ 40,9 bilhões | US$ -3,5 bilhões |
| 32 | Venezuela | US$ 9,8 bilhões | US$ 9,4 bilhões | US$ -400 milhões |
Entenda
A tensão no mercado global e as quedas das principais Bolsas de valores do mundo se acentuaram na semana passada, ao refletir a notícia de que o banco francês BNP Paribas havia congelado o saque de três de seus fundos de investimentos.
A instituição alegou dificuldades em contabilizar as reais perdas desses fundos, que tinham recursos aplicados em operações hipotecárias. No mundo da globalização financeira, créditos gerados nos EUA podem ser convertidos em ativos que vão render juros para investidores na Europa.
Esses créditos imobiliários, chamados de "subprime" (de segunda linha), são gerados a partir empréstimos com tomadores que podem oferecer menos garantia. Embutem maior risco de crédito e por isso, têm juros maiores, o que os torna mais atrativos para gestores de fundos em busca de retornos melhores.
O mercado já monitorava há meses os problemas com esses créditos. Quando a inadimplência dessas operações superou as expectativas, empresa após empresa nos EUA relataram problemas de caixa. E o caso do Paribas sinalizou que esses problemas haviam atravessado as fronteiras.
Após o anúncio do banco, os principais bancos centrais do mundo --o BCE (Banco Central Europeu), o Federal Reserve (Fed, o BC americano) e o Banco do Japão-- injetaram bilhões de dólares em recursos para garantir a liquidez (oferta de crédito) dos respectivos sistemas bancários.
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