Mantega nega saída de capitais estrangeiros do país com temor dos mercados
ANA PAULA RIBEIRO
da Folha Online, em Brasília
O governo brasileiro não teme que a turbulência das Bolsas no mundo provoque uma fuga de capitais estrangeiros do país. Segundo o ministro Guido Mantega, alguns investidores se desfazem de aplicações no Brasil porque precisam de dólares para cobrir prejuízos em aplicações em outros países. Para Mantega, isso não será suficiente para que o fluxo de moeda estrangeira fique negativo.
"O governo não está preocupado com a fuga de capitais. Quando você tem um saldo cambial positivo não há fuga. Alguns capitais estão se retirando, principalmente, os baseados em renda fixa e futuro, mas os investimentos diretos e IPOs [oferta primária de ações, na sigla em inglês] continuam", afirmou nesta quinta-feira.
Segundo dados do Banco Central, a entrada de dólares no país está positiva em US$ 3,376 bilhões neste mês até o dia 10 de agosto. O fluxo financeiro ficou negativo em US$ 201 milhões e o comercial, positivo em US$ 3,577 bilhões. No acumulado do ano, o fluxo cambial está positivo em US$ 66,592 bilhões.
Para Mantega, a saída de recursos dos investidores não afeta a economia real. Lembrou ainda que o Brasil tem um superávit comercial elevado, o que compensa saídas no fluxo financeiro e reservas internacionais de quase US$ 160 bilhões.
Os mercados mundiais estão preocupados com o setor imobiliário nos Estados Unidos. O principal temor é em relação à oferta de crédito disponível, já que, há algumas semanas, foi detectada alta inadimplência do segmento de maior risco ('subprime').
Nesta quinta-feira, a empresa Countrywide Financial, maior financiadora imobiliária dos EUA, foi obrigada a tomar US$ 11,5 bilhões para se prevenir contra uma possível falta de crédito.
No Brasil, na avaliação do ministro, a turbulência teve maior efeito na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) e no mercado de derivativos e que a economia brasileira não deve ser afetada. "Se não atingir o crescimento das economias do mundo, praticamente não deve ter reflexo na economia do Brasil", acredita.
Quanto à perda de dinheiro com a turbulência, Mantega afirmou que os fundos de risco já "ganharam muito".
"Os fundos de risco já ganharam muito. Eles não contaminam a economia. Não se comunicam com grandes bancos e com a economia real. (...) São perdas localizadas nesses bancos de investimento. Não tem contato com a economia real."
Tesouro
Mantega minimizou o fato de o Tesouro Nacional ter cancelado os leilões de hoje. Para ele, não há justificativa para pagar mais caro, ou seja, taxas de juros mais elevadas, se há recursos em caixa para pagar compromissos futuros.
"O Tesouro não precisa de dinheiro. São R$ 280 bilhões em caixa. É uma situação confortável. Segundo, não precisa pagar taxas exorbitantes', explicou.
Segundo ele, antes da turbulência nas Bolsas, os títulos da dívida pública eram colocados no mercado com uma taxa média de 10,7% ao ano ou 10,8% ao ano. Hoje, para fazer isso, o Tesouro teria que pagar cerca de um ponto percentual a mais, 11,8% ao ano.
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