Crise pode ser oportunidade para entrar na Bolsa, dizem especialistas
EPAMINONDAS NETO
da Folha Online
Gestores de investimentos e especialistas em Bolsa têm um conselho que exige sangue frio de investidores nesta fase de turbulências: comprem ações. "Eu acho que nós vivemos um momento ímpar para entrar no mercado. Algumas ações ficaram a preços impensáveis há algumas semanas", afirma Marc Helder Olichon, diretor de mercados da corretora do banco ABN Amro (Real).
"Todo mundo que perde na Bolsa de Valores perdeu porque saiu na baixa e não pegou o mercado quando ele voltou a subir. Depois é mais difícil entrar", afirma Milton Milioni, diretor da corretora Geração Futuro.
Na última quinta-feira, o Ibovespa, principal índice da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), chegou a cair 8,9%. Horas depois, porém, o índice se recuperou e encerrou em baixa de "apenas" 2,58%, aos 48.015 pontos. Na sexta-feira, a Bolsa subiu 1,13%.
| Shannon Stapleton/Reuters |
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Os dois profissionais de mercado somente reforçam o conselho clássico para ganhar dinheiro com ações: compre os papéis na baixa de mercado e venda nos períodos de alta. "Sempre que recebemos um cliente novo aqui na corretora, nós perguntamos se ele têm dinheiro disponível para investir no médio e no longo prazo. Essas volatilidades que acontecem no meio do caminho sempre se diluem no longo prazo", diz Helder Olichon, do ABN Amro.
A questão para o investidor é saber a duração da crise, isto é, quando será recompensado por seu sangue frio (no momento da compra) e por sua paciência (em esperar a ação comprada subir).
E a Bolsa tem cobrado nervos de aço. Quem comprou Bovespa no final do ano passado teve o dissabor de ver seus recursos minguarem 3% (no acumulado do ano) naquela notória terça-feira de fevereiro (efeito China). Foi recompensado ao esperar até julho, quando a Bolsa atingiu seu pico histórico e acumulou ganhos de 30%. Esse mesmo hipotético investidor foi testado mais uma vez na semana passada: a derrocada de quinta-feira reduziu os ganhos acumulados no ano para 8%.
Não há consenso entre especialistas sobre a duração das turbulências financeiras. Aliás, há somente uma unanimidade: não devem terminar tão cedo. E por vários motivos: o mercado ainda não tem conhecimento real sobre a extensão das perdas provocadas pelos problemáticos créditos imobiliários americanos. (clique para entender).
Não se sabem quais e quantas empresas podem admitir problemas de caixa nos próximos dias. Ou ainda se o Federal Reserve (banco central dos EUA) vai cortar os juros em setembro, acelerando o fim da crise --como imaginam investidores e demais participantes do mercado financeiro.
"Eu acho difícil essa crise acabar antes do final de ano", afirma o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.
Há outra discussão em voga, que mobiliza paixões no mercado brasileiro: se os fundamentos econômicos mudaram a ponto de "blindar" o país contra crises financeiras globais. O jornal "Financial Times", um dos mais respeitados da área, publicou texto na semana passada que contraria essa expectativa.
Referência mundial em assuntos financeiros, o periódico britânico aponta que uma parte dos investidores já começou a considerar os ativos brasileiros "mais arriscados do que eles pensavam". E que o país "está claramente mais exposto à economia global e aos mercados financeiros globais do que antes".
"A exposição da dívida pública ao câmbio, as reservas internacionais, o crescimento do consumo e da indústria, tudo isso melhorou. É inquestionável", afirma Milton Milioni, da corretora Geração Futuro.
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