Atual crise terá efeito restrito sobre economia real, diz economista
VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online
A onda de quedas e instabilidade nas Bolsas de Valores de todo o mundo que se vê desde o último dia 9 "tem um componente grande de pânico" quanto aos efeitos que os problemas no segmento de créditos imobiliários de risco nos EUA --conhecidos como "subprime", voltado a clientes de baixa renda ou dificuldades de fornecer garantias para empréstimos e hipotecas-- poderiam ter sobre o sistema financeiro e a economia real, mas o quadro não chega a ser de "crise".
A avaliação é do professor do Departamento de Economia da FEA (Faculdade de Economia Administração e Contabilidade da USP) Carlos Eduardo Soares Gonçalves. Para ele, mesmo que a economia mundial esteja menos "confortável" do que há alguns meses, ainda apresenta indicadores positivos e deve se recuperar assim que a onda de pânico passar.
Segundo ele, o Brasil tem condições de passar de modo "tranqüilo" pela atual turbulência, por dispor de "um conjunto de fundamentos econômicos que são muito mais sólidos", como muitas reservas, balança comercial favorável e câmbio flutuante. Leia a seguir a entrevista concedida à Folha Online:
Folha Online - Qual a origem da atual crise?
Carlos Eduardo Soares Gonçalves - Talvez seja um pouco forçado classificar a atual situação de crise, mas está havendo muita turbulência, é verdade. Muitos fundos, emprestadores, intermediários financeiros na Europa e nos EUA colocaram em suas carteiras de empréstimo devedores de reputação e de capacidade de pagamento duvidosas --são os chamados "subprime". "Subprime" é um empréstimo de qualidade um pouco mais baixa --ou seja, tem mais risco de não ser pago, mas oferece uma taxa de retorno mais alta, justamente para compensar esse risco.
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| Professor Carlos Eduardo Soares Gonçalves, da FEA-USP |
O que acontece: alguns fundos "hedge" (tipo de fundo que investe em vários tipos de ativo e muitas vezes é usado para proteger outras aplicações) americanos que fizeram muitos empréstimos de pior qualidade começaram a ter problemas. E isso gerou pavor no mercado. O pavor está no crescimento da inadimplência no segmento específico de "subprime".
Então porque a atual "crise" ainda não virou uma crise sistêmica? Porque o problema da inadimplência está restrito a esse segmento --aí, a inadimplência já alcançou 15%, que é um número muito alto. Esse tipo de empréstimo é tomado por uma pessoa para comprar um apartamento ou uma casa. Se a pessoa não paga o banco, o banco não repassa o pagamento para o fundo "hedge" e aí tem início a turbulência.
Mas quando se olha para o sistema de crédito imobiliário geral, e não só o "subprime", a inadimplência está baixa, em torno de 4%, 4,5%, e a inadimplência nos créditos de qualidade está em torno de 2%.
Folha Online - Mas não está havendo uma contaminação nas categorias de crédito logo acima do "subprime"?
Gonçalves - Quando se olha para os dados de inadimplência, não, mas no mercado financeiro há a questão de um passar um título para o outro, o outro para um terceiro e assim por diante. Quando você começa a achar que uma das pessoas para quem você fez um empréstimo está com dificuldade de pagar, tem início o pânico que se viu.
Na Europa, alguns bancos, como o BNP Paribas, estavam com uma carteira de crédito tão arriscada que as pessoas que iam sacar seu dinheiro de um fundo em que haviam investido ouviam do banco que não podiam sacar esse dinheiro, porque o banco não sabia nem quanto valia a cota deles no fundo.
Folha Online - A crise, então, está contida?
Gonçalves - Nesse sentido não, porque esse medo se espalha para outros participantes do mercado financeiro. O mercado tem essa peculiaridade: se um dos participantes está em uma situação muito complicada, há sempre o temor gerado por não se saber se um outro está ou não. Se eu, por exemplo, tenho dinheiro em um banco que está com problemas com o segmento "subprime", vou ficar desesperado, vou lá sacar meu dinheiro.
Você, me vendo sacar meu dinheiro, pode se perguntar: "será que meu banco está com problemas também?" Você vai lá retirar o dinheiro do seu. O seu [banco] estava normal, não estava? Mas como você entrou em pânico porque me viu sacando, vai ao seu banco retirar seu dinheiro também.
Ai foi que se desencadeou o pânico. O mercado financeiro sempre tem espaço para esses movimentos de manada. E isso preocupa --tanto preocupa que os bancos centrais pisaram no acelerador e injetaram liquidez no mercado para dizer: "Ninguém vai quebrar aqui. Temos dinheiro para quem estiver mal".
Algumas pessoas criticam a atitude dos bancos centrais, a meu ver com alguma razão, porque se vai ser dado dinheiro para quem está quebrando, qual vai ser o incentivo dele depois? Depois ele vai voltar a se expandir no segmento "subprime", porque depois o banco central vai salvar.
Mas não fazer nada cria o risco de uma crise sistêmica, de quebra do sistema financeiro. E se isso ocorre, aí acontece uma queda de PIB (Produto Interno Bruto) forte. As grandes recessões mundiais sempre estão associadas a crises no sistema bancário. Com uma intervenção no sistema bancário é possível resistir à crise, e isso é importante porque se a crise cambial fere os países, a crise bancária aleija.
Folha Online - As ações dos bancos centrais até o momento foram eficientes?
Gonçalves - Elas foram necessárias para trazer tranqüilidade. O mercado financeiro, como eu disse, tem essa característica: crises isoladas podem gerar pânico generalizado. Mas se vão ter sucesso, isso é difícil dizer.
Na minha opinião, a crise vai se estancar. E isso porque, de novo, há, sim, um problema de inadimplência, mas ele está restrito a alguns setores e, com a ação dos bancos centrais, os setores saudáveis não vão correr o risco de quebrar.
Até o setor saudável do sistema financeiro corre risco de quebrar, porque há o risco de uma corrida para sacar dinheiro, mas com os bancos centrais intervindo, o risco fica menor.
Alguns fundos precisam mesmo quebrar. A crise tem um caráter profilático. Os fundos que se expandiram demais, esquecendo o risco, precisam quebrar para mostrar que aquelas considerações de risco, que todos têm de levar em consideração na hora de fazer um empréstimo, são sérias.
No longo prazo, essa quebra pode ser boa para a saúde o sistema financeiro como um todo. Isso manda um sinal: não se pode fazer fazendo empréstimo "subprime" sem critério. E os bancos faziam isso porque, com os juros baixos nos EUA, eles queriam investir em papéis que dessem retornos maiores. O risco estava lá, mas enquanto ele não aparece, os bancos pensam que ele não existe.
Folha Online - Mesmo podendo procurar investimentos mais seguros?
Gonçalves - Com os juros internacionais baixos, os bancos preferiram não comprar os títulos mas seguros, os "treasuries" (títulos do governo americano). Então resolveram arriscar no "subprime", mas aí aumentam demais as posições nesse segmento, porque dão um retorno mais alto --mas têm um risco mais alto também. Com o crescimento demasiado, aumenta o risco de quebra também.
Folha Online - Como uma crise tão segmentada dos EUA pôde afetar mercados como os asiáticos, por exemplo, que não têm tanta exposição ao mercado americano de crédito de risco?
Gonçalves - Justamente devido ao efeito do contágio. Você tem, por exemplo, o banco A e o banco B --este último na Ásia. Suponha que o banco A está muito ruim e faz transações com o B, que está muito melhor; os depositários do banco B, sem muita certeza dessa condição melhor, vão retirar seu dinheiro. O contágio nesse caso é criado pelas expectativas de que vá haver um problema maior adiante.
Esse movimento tem um componente grande de pânico, mas quando se olha a situação concreta, a crise não parece alastrada.
Alguns bancos da Europa têm carteiras grandes de empréstimos "subprime" nos EUA. O BNP, por exemplo, montou lá um fundo com esses créditos. Mas o problema está nesse setor, não no crédito da economia como um todo.
Folha Online - Como funciona o sistema que gerou essa turbulência nos EUA?
Gonçalves - Um banco tem vários tipos de tomadores de empréstimos. O cliente "subprime" é um cliente de renda muito baixa, mas o banco faz o empréstimo assim mesmo. Ao fazer isso, o banco emite um título, que está atrelado ao que o tomador do empréstimo deve. Como o risco é mais alto, os juros desse título também são mais altos. Um fundo de investimentos compra esse título justamente porque ele tem uma taxa de retorno alta.
Por outro lado, o banco também cobra mais caro, na forma de juros mais altos desse tomador de empréstimo de maior risco. Mas aí esse cliente não paga, e com isso o lastro do título evapora. Com isso o banco, que levou um calote, vai dar um calote na outra ponta.
Folha Online - Que efeitos ela teria sobre a economia real?
Gonçalves - Quando se olha os números da economia real, o mundo está crescendo bem, os juros subiram, mas não estão em patamares exagerados. Essa crise do "subprime" vai fazer balançar, mas não cair, porque não vejo nos outros segmentos uma situação assim.
Os juros de mercado já subiram. Com isso, quem vai pegar dinheiro emprestado para investir, vai pegar uma quantidade menor. Há efeitos sobre a economia real sim. Mas se o pânico passa, esse efeito é atenuado. O problema no "subprime" contamina a economia real em um certo sentido porque afeta as taxas de juros, é verdade, mas esse efeito não é muito grande.
A economia real vai andando bem: a Europa está um pouco melhor, a Ásia também, os emergentes têm reservas. O mundo não está tão confortável quanto estava há alguns meses, mas não é por causa de uma crise no segmento "subprime" que vai surgir o pior dos mundos. Há apenas volatilidade e ela vai diminuir com o tempo.
Folha Online - O Brasil está mesmo preparado para enfrentar uma eventual crise econômica?
Gonçalves - Os efeitos já se fizeram sentir na Bolsa e em taxas de juros, por exemplo, como ocorreu fora do país, mas o Brasil está muito mais bem preparado para lidar com esse tipo de choque do que no passado, porque hoje o país tem exportações fortes, tem muitas reservas, tem câmbio flutuante, tem um conjunto de fundamentos econômicos que são muito mais sólidos, que permitem navegar por essa turbulência de uma forma muito mais tranqüila.
Folha Online - Os eventos da crise de 1998/1999 podem ser repetir?
Gonçalves - Não. Naquela época o câmbio era fixo. Com câmbio fixo o choque atinge direto o país: as reservas começam a ir embora e o Banco Central tem de elevar os juros para manter o capital no país. Hoje o câmbio é flutuante. Nesse caso, o ajuste ocorre na própria taxa de câmbio: se der uma crise, o câmbio se deprecia e o BC não precisa elevar muito os juros. Isso atinge um pouco a inflação, mas favorece um pouco as exportações. Com isso e com muitas reservas, o impacto fica moderado.
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