Acordo Mercosul-União Européia depende de desfecho de Doha
DEISE DE OLIVEIRA
da Folha Online
Um possível acordo de comércio entre Mercosul e UE (União Européia) só deverá avançar com a conclusão da Rodada Doha da OMC (Organização Mundial de Comércio). Com ou sem acordo entre os dois blocos, os participantes da Cátedra Mercosul da Sciences Po de Paris, reunidos nesta sexta-feira, em São Paulo, afirmam que as iniciativas de negociação comercial devem ser fortalecidas.
"Com ou sem o acordo entre Mercosul e União Européia, o mercado já se encarregou de fortalecer essa relação, que é a mais importante para o Brasil, já que o bloco europeu responde por importantes valores em importações, investimentos e é o principal destino das exportações da indústria brasileira", disse Mário Marconini, presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio.
Segundo ele, no entanto, os negociadores do Mercosul aguardam a conclusão de Doha --para o sucesso ou para o fracasso-- para conhecer as novas bases do comércio mundial.
"O ideal seria avançar com as negociações do acordo bilateral entre Mercosul e União Européia, independentemente de Doha. Mas para os europeus, é muito importante saber o quanto terão de comprometer com o acordo multilateral, de Doha", afirmou Marconini.
A medida evita que ocorra algo semelhante ao Acordo de 2004, que consumiu quase cinco anos de tratativas para firmar um acordo de associação dos dois blocos e não se concretizou.
"As negociações quase se concluíram em 2004 não fosse a falta de consenso sobre alguns pontos centrais, entre eles questões do setor automotivo e agrícola", disse Marconini.
Quanto às reivindicações da UE, não foram atendidas, sobretudo, as da área de serviços (bancos, telecomunicações, transportes e seguros) e as de investimentos, compras governamentais e propriedade intelectual.
Desde então, os dois blocos têm mantido um canal aberto de negociação e de comércio, mesmo sem sinalização de uma efetiva retomada ou conclusão das negociações.
Segundo estudo realizado por Marconini, as importações provenientes da União Européia saltaram de US$ 4,3 bilhões em 1999 para US$ 20,1 bilhões em 2006, um salto de 367%, enquanto as exportações brasileiras para o bloco europeu passaram de US$ 11,4 bilhões para US$ 30,4 bilhões no mesmo período (alta de 167%).
"Entre 2004 e 2006, as exportações brasileiras para a União Européia cresceram 16%, devido à melhor demanda no bloco, à disparidade entre o dólar e o euro e os investimentos de empresas brasileiras", disse Sandra Rios, do CINDES (Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento).
As discussões promovidas em São Paulo deverão ser apresentadas na próxima reunião do Fórum Empresarial Mercosul União Européia, em Lisboa, em outubro.
Ganhos para o Mercosul
Segundo estudo realizado pela Universidade de Manchester e outras sete instituições européias e sul-americanas a pedido da Comissão Européia, o braço Executivo da União Européia, um acordo entre Mercosul e União Européia poderia render aos países do bloco sul-americano um ganho econômico de US$ 9 bilhões, liderado principalmente pelo desempenho do mercado brasileiro.
A União Européia teria um ganho menor que o do bloco americano: US$ 4 bilhões, o equivalente a 0,1% de seu PIB. A análise abrange os três setores mais relevantes na relação comercial entre os dois blocos --agricultura, indústria e serviços-- e considera um cenário com tarifas zero.
Segundo o estudo, o Mercosul ganharia principalmente nos setores agrícola e de alimentos processados, mas teria prejuízos nos setores de máquinas, automotivo, têxtil e químico. Alguns desses setores poderiam experimentar modificações de até 50% na produtividade.
Já para a União Européia, uma liberalização plena levaria a um aumento de entre 1% e 2% na produção de veículos e máquinas, enquanto que reduziria entre 3% a 5% os produtos animais, grãos e alimentos transformados.
Acompanhe as notícias em seu celular: digite o endereço wap.folha.com.br
Leia mais
- Uruguai quer reforçar Tribunal de Controvérsias do Mercosul
- Chávez nega ter dado "ultimato" para entrada no Mercosul
- Mercosul tem como render U$ 9 bi em acordo com bloco, diz estudo europeu
- Rodada Doha deve incluir ação solidária com países pobres, diz Lula
- Após Doha, Mercosul deve buscar parcerias com blocos, diz Lula
- Acordo União Européia-Brasil gera atritos na América Latina
Especial

