Crise era "acidente que esperava para acontecer", diz Greenspan
da Folha Online
A crise atualmente em curso no mercado imobiliário americano --agravada pelo aumento da inadimplência no segmento de maior risco (o dos clientes classificados como "subprime", com mais dificuldade de oferecer garantias para empréstimos)-- é um "acidente que esperava para acontecer", disse o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o BC americano), Alan Greenspan.
"[A crise imobiliária] era um acidente que esperava para acontecer. Se não fosse no segmento 'subprime' seria por algum outro motivo", disse Greenspan, e entrevista à revista "Fortune". "Já passamos por momentos assim em outros tempos. Chegamos a um estágio de extraordinária exuberância que, quando confrontado com a realidade, se transforma em medo, grandes retiradas, liquidez extraordinariamente baixa e temores de crédito consideráveis."
Questionado sobre se a crise levará a economia americana a uma recessão, ele afirmou que a economia está "desacelerando significativamente, esse é inquestionavelmente o caso". "A questão real é se os declínios nos preços dos imóveis irá atingir os gastos dos consumidores e levar a economia a encolher."
Na semana passada, Greenspan reconheceu que falhou em se antecipar à crise no mercado de hipotecas de risco e aos efeitos que a crise poderia ter sobre a economia. "Embora eu estivesse ciente de que muitas dessas práticas estava em curso, eu não tinha noção de quão significativas elas haviam se tornado, até ser tarde demais", disse, em uma entrevista para o programa da rede americana de TV CBS "60 Minutes".
À "Fortune", Greenspan disse que o problema com os créditos subprime "não estavam no horizonte" enquanto esteve à frente do Fed. "Eles estavam lá, mas eram muito pequenos."
O mercado imobiliário americano passou por um período de forte expansão entre 2001 e 2005, mas, a partir de 2006, o mercado começou a dar sinais de enfraquecimento, os estoques de casas não vendidas aumentou e os preços passaram a declinar. Isso se combinou à alta de juros ocorrida entre 2004 e 2006, que afetou os proprietários devido aos reajustes das taxas de juros nos contratos de hipotecas.
Os clientes no segmento 'subprime' foram os mais atingidos, e a inadimplência teve aumentos expressivos. No mês passado a crise ganhou mais força depois que os bancos passaram a restringir o acesso ao crédito e empresas do setor imobiliário --em particular as especializadas em hipotecas de risco-- passaram a encerrar operações nesse segmento e a demitir funcionários.
Durante a recessão que os EUA enfrentaram entre 2001 e 2003, o Fed baixou sua taxa de juros progressivamente até chegar a 1% ao ano, e só voltou a elevá-la a partir de 2004. Críticos de Greenspan dizem que o banco manteve a taxa muito baixa por tempo demais, o que serviu de combustível para especuladores do mercado imobiliário.
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