Déficit e exportações exigirão queda maior do dólar, diz ex-FMI
VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online
A situação do déficit em conta corrente e a necessidade de escoar a produção das indústrias americanas exigirá uma desvalorização de cerca de 20% do dólar entre os principais parceiros comerciais dos EUA --entre eles, Brasil, China e União Européia--, disse o professor de economia da Universidade da Califórnia e ex-conselheiro do FMI (Fundo Monetário Internacional), Barry Eichengreen.
"Desde que atingiu um pico [de valorização], entre o fim de 2002 e o início de 2003 o dólar perdeu cerca de 20% de seu valor. Meu palpite é de que o dólar irá perder outros 20%", afirmou nesta quarta-feira. "Foram quatro anos para que ocorresse esse ajuste. O próximo ajuste deve levar alguns anos também. Um ajuste de 5% ao ano, nos próximos quatro anos, seria confortável para os EUA."
"O dólar vai precisar perder valor ainda por algum tempo, porque começamos com um déficit em conta corrente impossível e as fábricas americanas continuaram a produzir bens; o único lugar para vender esses bens agora é no exterior", disse Eichengreen. "Isso vai exigir um dólar mais fraco."
"A questão é: perder valor frente a quais outras moedas? O problema é que essa perda de 20% de seu valor foi muito desigual em diferentes países. Ela não afetou muito a China, mas certamente afetou o Brasil e a União Européia [UE]."
No mês passado, o Departamento do Comércio divulgou um recuo de 3,1% no déficit em conta corrente dos EUA entre abril e junho deste ano, chegando a US$ 190,8 bilhões, contra US$ 197,1 bilhões no primeiro trimestre deste ano.
O balanço em conta corrente é a medida mais ampla dos resultados comerciais do país, porque abrange não apenas o comércio de bens e serviços, mas também os fluxos de investimento e as transferências unilaterais --que incluem recursos destinados a ajuda internacional.
O dólar perdeu mais terreno após o corte de juros feito pelo Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) no mês passado, de 0,5 ponto percentual. O euro bateu nesta semana o recorde de valorização frente ao dólar --a moeda comum européia chegou a ser cotada a US$ 1,4350.
No caso do Brasil, o dólar perde valor frente real de modo mais acentuado com a entrada de capital externo na forma de superávit comercial, investimento estrangeiro direto e recursos financeiros em busca de taxas de juros maiores.
Outra queda de 20% não seria confortável para o Brasil, destacou, mas seria menos danoso se a China e outros países asiáticos absorvessem uma parte maior do ajuste. "Esse ajuste poderia se dar entre, de um lado, a China, e de outro, Brasil e União Européia, com 20% em cada região."
O quanto esse ajuste irá afetar o Brasil e a UE dependerá de os chineses estarem dispostos a ver sua moeda se valorizar diante do dólar mais rapidamente, disse o ex-conselheiro do Fundo. "Mas se a China aceitasse uma desvalorização de apenas 10% do dólar frente ao yuan, Brasil e UE teriam de ficar com 30%, que na média daria 20%."
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