Dinheiro
31/10/2007 - 14h57

Uso da capacidade instalada sobe mas preços não, mostra FGV

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YGOR SALLES
da Folha Online

O Nível de Utilização de Capacidade Instalada (Nuci), índice mensal da FGV (Fundação Getúlio Vargas) incluída na Sondagem da Indústria de Transformação, atingiu o seu mais alto patamar em mais de 30 anos.

Segundo Aloísio Campelo Júnior, coordenador do Núcleo de Pesquisas e Análises Econômicas do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), o índice de 87% de capacidade instalada é a maior desde outubro de 1976, quando foi de 89%.

Porém, a Sondagem mostra também que este alto nível de uso da capacidade não deve se refletir nos preços tão cedo. Quando perguntadas se os preços de seus produtos devem se elevar nos próximos meses, 31% das 1.095 empresas participantes disseram que sim e 6% que não.

"O saldo é de 25, que é a média dos últimos anos contados desde o fim da paridade cambial", disse Campelo. "Ou seja, está dentro da normalidade."

Segundo o pesquisador, fatores como o aumento dos investimentos e a pressão causada pelas importações --ajudadas pelo câmbio-- ajudam a manter este quadro de aquecimento sem colocar em risco o equilíbrio inflacionário.

Mas Campelo não garante que este quadro se manterá. "Tradicionalmente o Nuci cai um pouco entre dezembro e março, voltando a subir no segundo trimestre. Esta é a hora que o empresário tem para fazer investimentos para não se preocupar com superaquecimento no futuro", disse.

Para isso, segundo ele, o governo precisa dar a sua contribuição. "Está na hora do governo dar sinais aos empresários de que eles podem investir sem medo", explica. Os sinais, no caso, estariam ligados à volta da queda nas taxas de juros. "Ou a gente pega a rota de sempre, onde o BC [Banco Central] fica na cautela e trava [o crescimento], ou se estimula a manutenção do crescimento."

Superaquecimento

Apesar de no conjunto ainda não ser preocupante, o superaquecimento atinge de fato alguns setores. Campelo cita em especial os setores de material de transporte, mecânica, metalurgia, mobiliário e alguns sub-setores de alimentos, como carnes e leite. Não só pelo alto índice de uso da capacidade instalada como também por seus estoques estarem aquém do ideal.

Enquanto o índice de Nível de Estoques da Sondagem está em 104 em uma escala de 0 a 200, o do setor automotivo está em 129. Das empresas do setor, 47% indicam que seus estoques estão insuficientes.

Segundo Campelo, os problemas destes setores não estão apenas em suas próprias capacidades de produção: os seus fornecedores também passam por dificuldades de acompanhar a demanda.

Segundo a pesquisa, 12% das empresas apontaram que o tempo de fornecimento de matérias-primas aumentou. Em outubro de 2006, apenas 2% deram esta indicação.

"Este é um problema que atinge bastante o setor moveleiro", disse Campelo. 16% das empresas do setor apontaram este problema, contra apenas 3% em outubro de 2006. O movimento contrário foi ainda mais forte: há 12 meses, 36% disseram que o tempo de fornecimento estava caindo, e agora ninguém apontou esta situação.

Situação atual x perspectivas

Outro ponto interessante nos dados apresentados nesta quarta-feira é que a percepção do setor industrial para a situação atual é o mais alto desde 1995, a 130,7 pontos, enquanto que a perspectiva futura (116 pontos) caiu 2,2% em relação a setembro (118,6).

"A situação atual é extremamente positiva. A indústria está exuberante, a despeito do câmbio, e a demanda interna já cresceu a ponto de melhorar setores que sofriam com as importações. Mas para os próximos meses, mesmo ainda estando em uma base alta, a perspectiva é afetada pelo receio dos juros e da economia mundial", disse Campelo. "Porém, devemos notar que até o momento estes receios não se justificaram."

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