Crédito a pobre não é risco, diz Nobel
EDUARDO GERAQUE
do enviado especial da Folha de S.Paulo a Florianópolis
O ciclone Sidr, que atingiu de forma devastadora Bangladesh há 15 dias, recebeu tratamento especial do Grameen Bank, instituição financeira criada pelo Prêmio Nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus, 67. O laureado, também conhecido como o "banqueiro dos pobres", esteve ontem em Florianópolis em um evento sobre energia.
"Nós demos uma anistia [temporária] às pessoas que tinham empréstimo com o Grameen Bank", explicou Yunus, que também reconheceu que o banco vai perder dinheiro com isso. A catástrofe natural matou 1.100 pessoas e deixou outras centenas de milhares desabrigadas. "Não sei se as questões das mudanças climáticas globais têm muito a ver com isso. O fato é que precisamos de um mundo mais seguro [em todos os sentidos] mesmo."
"Além disso, quem precisar de recursos para reconstruir sua casa vai ter uma taxa de 8% e não de 12% como é praticado normalmente", explicou o economista, que apreendeu a cuidar dos pobres vendo sua mãe atendendo quem batia à porta da casa dele.
Sobre os negócios, Yunus foi categórico, mais uma vez, em dizer que emprestar dinheiro para os pobres não é tão arriscado, por causa da inadimplência, como pode parecer. Ele assegurou que a saúde do banco é sólida.
"Hoje ajudamos 7,5 milhões de pessoas, que compraram ações, quando tomam o empréstimo, a US$ 1,50. O nosso capital hoje é de aproximadamente US$ 10 milhões", disse o laureado, que empresta dinheiro a 20% ao ano. "Taxa simples e não composta. Em Bangladesh não se taxa nada ao mês", segundo Yunus.
Os custos são altos, segundo o banqueiro, porque é o banco que vai até os clientes, todas as semanas, nas vilas.
No Brasil, por exemplo, a taxa de microcrédito praticada pelos bancos privados é de 2% ao mês --o que resulta em 26,8% ao ano. Em Bangladesh, a taxa bancária normal, segundo o próprio Yunus, costuma de ser de 15% ao ano.
"Nosso levantamento anual [o último fechado em 2006] mostra que conseguimos tirar 64% das pessoas, que tomaram empréstimos faz cinco anos, da linha da pobreza extrema", afirmou. O banco tem até uma linha de empréstimo para mendigos. "Já ajudamos 100 mil deles até agora e 10 mil deixaram essa situação."
Dinheiro
O dinheiro usado pelos tomadores de empréstimos, segundo Yunus, vai para os mais diferentes tipos de atividades. "As mulheres, por exemplo, usam para criar galinhas ou para costurar roupas." Existe também uma linha especial para a energia solar. Em Bangladesh, quase 70% da população não tem acesso à luz elétrica.
Sobre o fato de o microcrédito em Bangladesh estar dando certo, o Nobel foi categórico. "Ele está longe da política", disse Yunus, afirmando que isso é praticamente uma receita para que o projeto possa dar certo em outros lugares também.
"Em Bangladesh, nós temos os níveis de corrupção mais caros do mundo."
O jornalista EDUARDO GERAQUE viajou a convite da Eco Power Conference
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