Dinheiro
20/12/2007 - 18h13

Leia íntegra do bate-papo com Antônio Gaudério sobre tráfico de mão-de-obra boliviana em SP

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da Folha Online

O repórter-fotográfico Antônio Gaudério, 49, da Folha, participou de bate-papo nesta quinta-feira (20) sobre os bastidores da reportagem sobre o tráfico de mão-de-obra ilegal boliviano que alimenta a cadeia têxtil em São Paulo, publicada no último domingo (só para assinantes).

O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes digitaram suas perguntas e respostas.

*

Bem-vindo ao Bate-papo com Convidados do UOL. Converse agora com Antonio Gaudério, repórter-fotográfico da "Folha de S.Paulo", sobre a reportagem em que denuncia o tráfico de mão-de-obra ilegal de bolivianos para São Paulo. Para enviar sua pergunta, selecione o nome do convidado no menu de participantes. É o primeiro da lista.

(05:08:22) Gaudério: Alo pessoal!!!

(05:09:50) carola fala para Gaudério: oi, tudo bem? Queria saber o que te estimulou a fazer essa reportagem. Já conhecia as tramas desse tráfico?

(05:11:01) Gaudério: Carola, a função do repórter é levar ao conhecimento público coisas, fatos e histórias interessantes

(05:11:18) Gaudério: Carola, Eu não conhecia

(05:11:34) Fernanda fala para Gaudério: jornalista e como trabalho de conclusão de curso, fiz, em parceria com um amigo da turma, um livro-reportagem sobre a vida e o trabalho dos bolivianos em São Paulo. Tomei o cuidado pra não prejudicar a imagem desses bolivianos, quando abordei o trabalho escravo a que eles se submetem. Por que você não tomou o mesmo cuidado, pois publicou fotos de alguns deles, o que pode vir a prejudicá-los na busca por emprego etc. No mais, parabenizo sua coragem em fazer o que um dia pretendo fazer, essa viagem à Bolívia.

(05:12:25) Gaudério: Carola, Mas desconfiava que tinha uma boa história

(05:13:37) Gaudério: Fernanda, Tomamos muitos cuidados. Publicamos nomes ficticios, não damos endereços, e as fotos nao permitem escolhidas foram as que dificultam a identificação

(05:14:27) maurílo fala para Gaudério: Esse tráfico, fruto de desemprego e de pésimas condições de salário, é o mesmo que fazem os brasileiros rumo a quase todos os países do mundo onde houver chances

(05:15:49) Gaudério: Maurilio, O estrangeiro ilegal é fragilizado pela pela propria condição, se tornando uma presa fácil da exploração, em qualquer lugar do mundo

(05:16:08) Márcio fala para Gaudério: Boa tarde meu caro! Primeiro parabéns pela reportagem. Ela retrata muito bem a exploração desse povo humilde. Gostaria de saber qual foi o momento mais tenso ou que tenha colocado vc em alguma situação de perigo.?

(05:17:44) Gaudério: Marcio, tive vários momentos de tensão e de medo. Mas a experiência somado ao respeito e a humildade me garantiram a segurança mínima

(05:17:48) Fernanda fala para Gaudério: Pretende continuar com essas matérias? Sim, porque a imprensa aborda muito pouco e mal a questão.

(05:20:55) Gaudério: Fernanda, Eu sou repórter fotográfico contratado da Folha, e como todos os demais não tenho uma área especifica. Cubro de futebol a folhinha. Todo dia chego para trabalhar e recebo uma pauta. Mas sempre que possivel vou continuar tentanto fazer reportagens e sugerindo pautas

(05:21:19) Fernanda fala para Gaudério: Você tem ou teve contato com a comunidade boliviana em São Paulo?

(05:22:50) Gaudério: Fernada; Tenho. Um contato simples como qualquer um pode ter indo na Ferira Cantuta do Pari. Eles são reservados, principalmente os ilegais, mas são um povo humilde e cordial. Simpatico

(05:23:22) BolitaSP fala para Gaudério: Boa tarde. Vc esteve durante 6 dias trabalhando em uma confecção clandestina, em péssimas condições. Mesmo em tais condições vc sentiu ser melhor que estar na Bolívia?

(05:25:54) Gaudério: Bolita SP, Eu fui bem tratado pelos bolivianos. Tanto os daqui quanto os de lá. A situação economica da Bolivia torna a vida lá muito difícil, mas os bolivianos são muito gente boa. É lamentável que sejam explorados no Brasil, na Argentina, na Espanha, e na Bolivia mesmo

(05:25:54) renato fala para Gaudério: antonio, vi que você fez a reportagem com um celular com câmera. você acha q essa tecnologia facilitou a sua vida? digo pq imagino q em outros tempos, com o equipamento maior, seria quase impossível passar despercebido...

(05:27:29) Gaudério: Bolita SP, Eu fui bem tratado pelos bolivianos. Tanto os daqui quanto os de lá. A situação economica da Bolivia torna a vida lá muito difícil, mas os bolivianos são muito gente boa. É lamentável que sejam explorados no Brasil, na Argentina, na Espanha, e na Bolivia mesmo

(05:27:35) big fala para Gaudério: Boa tarde! Você tem algum blog, contando mais detalhes sobre esta ou outras reportagens?

(05:27:46) Gaudério: Renato. Sim a tecnologia, facilita a vida. É por isso que ela avança a cada dia e custa tanto dinheiro. Mas o importante para um repórter fotográfico é ter em mente que ele não fotografa com a câmera. Ela apenas serve para capturar a imagem

(05:30:19) Gaudério: Big, Eu ainda não tenho um Blog. Várias pessoas me perguntam e acham estranho que eu não tenha um para publicar as fotos que não saem no jornal impresso, e contar as histórias que existem por trás das fotos. Na verdade nao tenho muito tempo. Mas vou propor a Folha Online a criação de um.

(05:30:29) JUNIOR fala para Gaudério: eLES TRABALHAM COMO ESCRAVOS, TEM ALGUMA REMUNERAÇÃO, ALIMENTAÇAO, ONDEM MORAM?

(05:31:48) Gaudério: Junior, eles moram sempre no local de trabalho, assim que chegam costumam trabalhar em troca da moradia e comida até pagarem a passagem, que normalmente é patrocinada por quem lhes traz

(05:31:48) BolitaSP fala para Gaudério: As fotos da reportagem estavam boas, penso que seja um celular caro com uma boa câmera, isto não podia ter te entregado?A sua fisionomia atrapalhou?

(05:34:56) Gaudério: Bolita SP. O fundamental é saber se portar. Se tu tiver respeito pelo assunto e pelas pessoas,tu acaba sendo aceito. Nesses casos mais complicados como este desta reportagem tu precisa ser muito discreto e esperar o momento certo, nem que isso implique em perder muitas fotos

(05:34:56) Fernanda fala para Gaudério: Algum líder da comunidade boliviana em São Paulo te procurou devido à reportagem?

(05:35:26) Gaudério: Fernanda, Ainda não. Que eu saiba.

(05:35:32) alessandro fala para Gaudério: boa tarde,morro em sumaré interior de são paulo meu bairro esta cheio de imigrantes bolivianos que trabalham em uma confecção.morram em pessimas condições ha como investigar se é trabalho escravo?

(05:36:43) Gaudério: Alessando; Sempre dá...

(05:36:43) BolitaSP fala para Gaudério: Pela reportagem "Na imigração, René Mozón nistra seu documento boliviano, diz que vai visitar parentes em São Paulo e passa. Cleto e o filho mostram seu documentos de residentes argentinos e passam."Gaudério vc acha que a fronteira brasileira tinha pouca fiscalização?

(05:38:03) Gaudério: Bolita SP, Eu acho que tem pouca fiscalização. É possível passar por fora da imigração, atravessando um riozinho de 10 metros de largura

(05:38:10) Fernanda fala para Gaudério: Você esteve na Bolívia justamente num período tenso no país. Como se sentiu? O que pode captar dos bolivianos? Apoiam esse separatismo todo?

(05:39:45) Gaudério: Fernanda; A bolivia parece que sempre viveu num clima de tensão. A diferença é que agora os sindicatos, os indigenas, tem um respaldo no presidente Evo Morales que antigamente não tinha.

(05:39:51) RicardoSP fala para Gaudério: Qual a responsabilidade do nosso governo, já que é algo a ´´céu aberto`` e muita gente sabe.

(05:42:19) Gaudério: Ricardo SP, A responsabilidade do nosso governo, incluindo ministério publico e justiça, a qualquer situação de exploração e de escravidão, digo análoga a escravidão, é total. Porque é quem pode impedir essa prática

(05:42:23) Derya35 fala para Gaudério: Gaudério, boa tarde. Houve alguma mobilização da comunidade coreana, citada na reportagem como "a grande exploradora" dessa mão-de-obra?

(05:43:51) Gaudério: Derya, Ainda não. Que eu saiba. Mas os coreanos são muito discretos. Tu ja viu mobilização, passeata, greve de imigrantes coreanos?

(05:44:09) fotografo fala para Gaudério: Gaudério, parabens pela reportagem excelente. Sinto falta de mais trabalhos profundos desse tipo. É dificil convencer a redação a investir em trabalhos investigativos?

(05:44:58) Gaudério: fotografo, Sim é difícil. Mas não é impossível.

(05:45:04) Fernanda fala para Gaudério: As autoridades brasileiras sabem das condições desumanas e de trabalho forçado a que esses imigrantes se submetem. Em 2005, a Câmara dos Vereadores de São Paulo instaurou até uma CPI para apurar os fatos, mas pouco foi feito. Com reportagens como a sua, acredita que a situação dos bolivianos melhore? Que lhe dêem a devida atenção? Pois, imagina você: se eles pararem de costurar, metade da população do Brasil vai andar pelada...

(05:47:15) Gaudério: Fernanda, Acho que sim. Mas não seria justo fazer com que essa massa trabalhadora pare. O que tem que parar é a desumanidade, a exploração.

(05:47:15) Gaudério: Fernanda, Acho que sim. Mas não seria justo fazer com que essa massa trabalhadora pare. O que tem que parar é a desumanidade, a exploração.

(05:47:35) RicardoSP fala para Gaudério: Concordo contigo, me questiono então o porquê de não haver investigação.

(05:49:09) RicardoSP fala para Gaudério: Ou melhor dizendo, por que não há punição?

(05:50:54) Gaudério: Ricardo SP, Acho que a fartura de imagem, a preço baixo e cada vez mais com maior velocidade cobrindo todo tipo de asunto, que chega nos terminais das redações faz com que o investimento em reportagens que levam tempo e custam dinheiro, fiquem em segundo plano.

(05:51:00) Derya35 fala para Gaudério: Um aspecto que a matéria ajudou a revelar foi o consumo consciente e justo...Depois da sua matéria penso duas, três vezes antes de comprar uma confecção com preço dito "atrativo"...

(05:51:38) Gaudério: Derya35,Boa

(05:51:44) BolitaSP fala para Gaudério: Gaudério, as condições de vida na Bolívia são muito precárias? O que vc sentiu ao dormir no alojamento em La Paz e dormir na calçada da estação?

(05:53:42) Gaudério: BolitaSP, senti aprensão e medo. O mesmo medo que sinto aqui em S. Paulo e no Rio de Janeiro enfrentando as mesmas condições

(05:54:18) Ana Borges fala para Gaudério: Gaudério, uma questão do celular. Você remendou e tirou algumas partes dele. Você fingia falar nele para tirar as fotos?

(05:54:26) Gaudério: Bolita SP, você conhece a realidade da Bolivia, já viveu lá?

(05:55:58) Gaudério: Ana Aurora; Sim. Eu me disfarcei e disfarcei o celular, Fotografei sempre de forma sutil.

(05:56:16) Ana Borges fala para Gaudério: Gaudério, parabéns pela matéria. Como é se sentir escravo? Nos primeiros 3 meses, você não recebeu absolutamente nada. O que me diz disso?

(05:59:28) Gaudério: Ana Aurora; Eu~trabalhei das 7 da manha à meia noite, com intervalo para comer e tomar cha, durante seis dias até que eu fugi. Não ganhei nada pela costura. Mas estava recebendo meu salário de reporter fotográfico. Mas a situação várias vezes em breves momentos me fez quem eu era. Deve ser muito triste trabalhar sem receber salário e sem uma perspectiva de grandes melhoras para o futuro

(06:01:21) Gaudério: Obrigado a todos, desculpe se eu não consegui dar boas respostas. Na verdade talvez eu seja melhor perguntando e fotografando do que respondendo. Vou fazer um blog para mostrar e falar mais. Abs a todos

(06:01:33) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Antonio Gaudério e de todos os internautas. Até o próximo!

 

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