Alimentos sobem mais que inflação pela 1ª vez em três anos, diz Dieese
DEISE DE OLIVEIRA
da Folha Online
Os alimentos tiveram variação de preços superior a do ICV (Índice de Custo de Vida) no acumulado dos últimos três anos --de 22,5% do grupo ante 21,02% do índice. Mas foi só em 2007 que, na variação anual, a inflação dos alimentos superou o índice geral do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que acompanha os preços de dez categorias.
Segundo divulgou o departamento nesta quarta-feira, o ICV subiu 4,8% em 2007 --a maior desde 2004, quando a série foi iniciada-- com o empurrão dos alimentos, em alta de 12,48% e contribuição de 3,15 pontos percentuais na taxa geral. Desde 2004, foi o primeiro ano que a taxa do grupo Alimentação é maior que o índice geral.
Nos três primeiros anos da série do Dieese, os reajustes dos alimentos foram menores que a inflação. Em 2006, por exemplo, a taxa dos alimentos ficou em 1,39%, contra 2,57% do índice geral. O estopim ocorreu a partir do segundo semestre deste ano, com o aumento dos produtos "in natura" e semi-elaborados, motivado pela quebra de safra com regiões afetadas pela seca e pela alta do preço das commodities agrícolas no mercado internacional.
Dentro do grupo Alimentação, os produtos "in natura" e semi elaborados registraram variação de 27,44% em 2007, ante 12,87% da indústria de alimentação. Para a coordenadora da Pesquisa de Preços do Dieese, Cornélia Nogueira Porto, os reajustes não foram abusivos.
| Alex Almeida/Folha Imagem |
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| Feijão ficou mais caro na mesa do brasileiro em 2007; só em dezembro alta foi de 33,97% |
"O aumento dos alimentos não foi abusivo, mas realinhamento de preços. Os produtores, principalmente, estavam com os preços defasados. Com a queda do dólar, eles estavam se sustentando com o aumento dos preços do mercado internacional", explicou. "Alguns [reajustes de alta] vieram para ficar, outros são esporádicos", acrescentou.
Outros indicadores também já apontaram os alimentos como o principal vilão da inflação no ano que passou. O IPC (Índice de Preço ao Consumidor), medido pela Fipe em São Paulo, registrou aceleração de 12,73% do grupo Alimentação no acumulado do ano --ante alta do índice geral de 4,38%.
Já o IPC-S fechou o ano em 4,60%, ante alta de 10,65% para os itens de alimentação, segundo a FGV (Fundação Getulio Vargas). O IPCA-15 fechou 2007 com variação de 4,36% e taxa positiva de 10,09% para Alimentação, informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O IGP-M (Índice Geral de Preços Mercado), também da FGV, fechou o ano em 7,75%, com expansão de 1,73% dos alimentos só no mês de dezembro.
2008
Para este ano, Porto já espera que os alimentos não pesem tanto sobre custo de vidas das famílias e a inflação, que deve "ser mais tranqüila" que no ano passado.
"Os alimentos não contaminaram a economia em 2007. As variações de preços foram muito pequenas em outras categorias", disse a coordenadora da pesquisa do Dieese. No ano passado, excluindo a variação de preços dos alimentos, o ICV fecharia em 1,65%.
Para Porto, não há motivo de preocupação, nem alardes, quanto ao futuro dos alimentos. "O perigo é que fala-se tanto sobre os alimentos, que a expectativa inflacionária respinga sobre os preços, principalmente em contratos. Se não houver muito alarde, a inflação deve ficar contida", disse Cornélia Nogueira Porto. Ela citou, por exemplo, o caso do feijão, que subiu 33,97% só em dezembro do ano passado, mas deve "devolver a alta" em breve.
Para este mês, no entanto, a expectativa é que o ICV tenha taxa semelhante a do último mês de 2007, segundo ela. A pressão sobre o preço das hortaliças (prejudicada pela época de chuvas) e o reajuste das mensalidades escolares devem pesar sobre o índice.
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