Após décadas perdidas, Brasil e Japão buscam ampliar relações comerciais
DEISE DE OLIVEIRA
da Folha Online
Após um período de administração de dificuldades e recuperação econômica, Brasil e Japão voltam a ter condições para reforçar relações comerciais, segundo avaliação dos debatedores do Simpósio Econômico Brasil-Japão, realizado nesta quarta-feira em São Paulo. Os biocombustíveis aparecem como o principal canal para estreitar a relação entre os dois países.
O Japão já teve relevância na balança comercial brasileira, antes de o Brasil passar pela crise da dívida externa nos anos 80, e o Japão enfrentar a estagnação econômica nos anos 90 --as chamadas "décadas perdidas". A participação japonesa na pauta de exportações brasileiras que, no início dos anos 90 estava na casa dos 8%, ficou em 2,69% (US$ 4,321 bilhões) em 2007. Nas importações, por sua vez, reduziu de cerca de 7% no princípio de 1990, para 3,82% no ano passado (US$ 4,609 bilhões).
"O Brasil e o Japão têm um intercâmbio forte, que já esteve em patamares mais elevados, mas o ponto positivo é que é uma experiência concreta. Esses fatos, por si só, revelam enorme potencial para que, agora, possamos aprofundar o relacionamento comercial. A retomada do crescimento econômico do Japão nos últimos anos e a estabilidade conquistada pelo Brasil são favoráveis para esse esforço", disse o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, durante o evento, que integra as comemorações dos cem anos da imigração japonesa.
Entre as áreas promissoras para o desenvolvimento das relações entre Brasil e Japão, estão as áreas de bioenergia --mais especialmente o álcool--, infra-estrutura e recursos naturais, além do setor de alimentos (agricultura).
"O primeiro ponto da integração é a bioenergia, e não só com o álcool, mas com o biodiesel, que oferece grandes oportunidades no Brasil", disse o diretor da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Roberto Giannetti da Fonseca. Ele aponta ainda as áreas de infra-estrutura e meio ambiente como alvos potenciais de integração dos dois países.
"Os biocombustíveis e as riquezas naturais fizeram que a posição do Brasil no mundo tenha mudado. Com o real valorizado, o Brasil pode investir no exterior. E o cenário mudou também do ponto de vista interno", disse Naoki Tanaka, presidente do Centro de Pesquisa Internacional de Estratégias Público-Privadas do Japão.
Segundo Tanaka, o Japão vive hoje um momento de incorporar as mudanças dos últimos 20 anos. "Há 20 anos, o Japão tinha um papel preponderante na economia mundial. E, agora, não está mais na hora de valorizar o volume negociado, mas da qualidade do papel que vai assumir, desde a área de tecnologia de produção até recursos naturais", avaliou.
José de Freitas Mascarenhas, presidente do Conselho de Infra-Estrutura da CNI (Confederação Nacional da Indústria), lembrou que, enquanto o Japão reduziu sua participação na pauta comercial brasileira, as exportações para a China cresceram mais de 1.000%. "A China ocupou o lugar do Japão e hoje representa por 45% das exportações brasileiras para a região asiática", afirmou.
Tecnologia
A expectativa é que o interesse japonês no biocombustível brasileiro recupere o tempo perdido. Para o ex-ministro da Agricultura do Brasil e coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (Fundação Getulio Vargas), Roberto Rodrigues, mais importante do que exportar álcool será enviar tecnologia para outros países, entre eles os asiáticos.
"Há um mercado para o biocombustível, e o álcool, mais especificamente, com mais países produzindo e com uma legislação compulsória que defina a mistura de biocombustível", avaliou Rodrigues.
Tanaka aposta na combinação entre a tecnologia japonesa e a experiência brasileira com os biocombustíveis. "Ter tecnologia apropriada vai ser muito importante. Para cada área, tem de haver investimento em equipamento e infra-estrutura para o novo combustível e distribuição de maneira racional", disse Tanaka. "Com a tecnologia do Japão e o vetor que surge no Brasil, se estabelece uma nova relação. Mas o Brasil precisa gerar essa infra-estrutura", disse Tanaka.
Os temas meio ambiente e energia vão nortear as discussões, em julho, da reunião de cúpula no Japão, segundo o ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan. Segundo ele, os avanços na área de biocombustíveis, nos últimos três anos, foram muito pequenos. Nem mesmo a promessa japonesa de abertura do mercado ao álcool brasileiro, feita durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país em 2005, vingou.
Segundo Rodrigues, os dois países também têm cotas tarifárias a resolver, que inibe a presença dos produtos brasileiros no Japão.
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