Brasil enfrenta desafio de diversificar exportações para o Japão
DEISE DE OLIVEIRA
da Folha Online
A diversificação da pauta de exportações entre Brasil e Japão, para produtos de maior valor agregado, faz parte dos desafios a serem enfrentados pelos dois países. As barreiras são reforçadas por relações comerciais enfraquecidas ao longo dos últimos 20 anos, marcados por crises e estagnação econômica.
Recursos naturais (principalmente minério de ferro) e produtos agrícolas e alimentares (café, suco de laranja e soja) concentram as primeiras posições da lista de exportações brasileiras. Na direção contrária, as importações se restringem, basicamente, a suprimentos para a indústria automotiva (veja tabela abaixo).
Em 2007, o Brasil registrou déficit de US$ 288 milhões, do total de US$ 8,930 bilhões da corrente comercial com o Japão. Dos US$ 4,321 bilhões em exportações no ano, os produtos básicos representaram 54,55% (US$ 2,357 bilhões), contra 27,89% de industrializados semi-manufaturados (US$ 1,205 bilhão) e 17,4% de manufaturados (US$ 752 milhões).
Apesar dos esforços da Embraer, que nos últimos anos conquistou alguns clientes no Japão, as exportações se concentram em commodities.
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"Mesmo com o protecionismo do mercado japonês, o Brasil avança. Mas a relação bilateral com o Japão perdeu importância e países menores, como Chile e Venezuela, são mais importantes, inclusive em produtos de valor agregado maior", avaliou o ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Luiz Fernando Furlan.
Para José de Freitas Mascarenhas, presidente do Conselho de Infra-Estrutura da CNI (Confederação Nacional da Indústria), o Brasil precisa diversificar a pauta de exportações, em direção a produtos manufaturados.
Segundo Naoki Tanaka, presidente do Centro de Pesquisa Internacional de Estratégias Público-Privadas do Japão, o Japão perdeu seu papel no processo de globalização brasileiro. "O Brasil está em processo de globalização. Vê o mundo inteiro para ver para onde vai exportar e de onde vai comprar", disse Tanaka.
Importações
O Japão reduziu de cerca de 10% a participação nas importações brasileiras, no início dos anos 90, para menos de 3% em 2007. Naoki Tanaka chama a atenção para o quesito "qualidade" mais do que de "quantidade" no comércio entre os dois países.
Para Tanaka, os dois países devem avançar além do interesse japonês pelos recursos naturais, em direção à tecnologia de produção.
"O Japão já mostra interesse pelos recursos naturais do Brasil. Hoje, como lançar o desafio de ampliar a gama de produtos e abrir novos nichos de desenvolvimento? O Brasil e o Japão, juntos, têm de conseguir lidar com os novos desafios, desde os recursos naturais até a tecnologia de produção", disse Tanaka.
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Segundo ele, o Japão tem expectativas de o Brasil atender à necessidade de investir em infra-estrutura, para "mudar o cenário no século 21".
Entre as áreas promissoras para o desenvolvimento das relações entre Brasil e Japão, estão as áreas de bioenergia --mais especialmente o álcool-- e infra-estrutura, além de recursos naturais e alimentos (agricultura), já na pauta. "Com a tecnologia do Japão e o vetor que surge no Brasil, se estabelece uma nova relação. Mas o Brasil precisa gerar essa infra-estrutura", disse Tanaka, em relação ao desenvolvimento dos biocombustíveis.
Crise dos EUA
Tanaka prevê um reajuste de preços no mercado internacional devido à crise de crédito dos Estados Unidos e à conseqüente recessão no país. "Cabe aos Estados Unidos dar o ritmo do processo de ajuste na economia. O consumo sobre o PIB [Produto Interno Bruto] vai diminuir, sobretudo a partir do segundo semestre. Mas o país está tentando recuperar sua função na economia mundial", afirmou.
Segundo ele, nos próximos seis meses, os EUA deverão reajustar o mercado a fim de estancar os prejuízos na economia do país. "Os Estados Unidos estão tomando o caminho correto, de arcar com a responsabilidade e buscar investimento com quem tem capital, em Abu Dabi [nos Emirados Árabes] e até na China. É esse o tipo de decisão que está sendo tomado", explicou Tanaka.
Com a queda no consumo individual nos Estados Unidos e um possível ajuste no mercado chinês, o Brasil deverá ser atingido, segundo Tanaka. "Mas o Brasil é capaz de superar isso. E o Japão está caminhando para ajustar seu mercado. Em 2003, a economia japonesa começou a se recuperar, com a organização para suprimento e fornecimento. Os empresários investiram e o Japão quer mostrar ao mundo o que pode fazer", disse.
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