Mercado aposta em manutenção dos juros e não descarta alta "preventiva"
EPAMINONDAS NETO
da Folha Online
Boa parte dos analistas do mercado financeiro não acredita que a taxa Selic vai cair tão cedo. A "Selic" é a referência para o custo dos empréstimos a consumidores e empresas. Na quarta-feira, o Copom (Comitê de Política Monetária) vai decidir se mexe nessa taxa básica, hoje em 11,25% ao ano.
"O Banco Central tem seu próprio dilema montado", afirma Fernando Montero, economista-chefe da corretora Convenção, em relatório distribuído na semana passada. "Por um lado, ele precisa responder à piora no balanço de riscos", assinala o economista.
Montero se refere ao descompasso entre demanda e oferta, à piora sobre as expectativas de inflação (registradas nos boletins Focus) e à "elevação provável em suas próprias projeções de inflação".
Por outro lado, nota o economista, a autoridade monetária precisa de tempo para avaliar uma série de variáveis que ganharam corpo nas últimas semanas: a possível recessão nos EUA, a extinção da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), e sem esquecer, a perspectiva de problemas no setor energético.
"O Copom vai manter os juros e endurecerá a ata", conclui o economista. "Enfim, desta reunião será a ata que atrairá as atenções. Será dura, para amarrar os próximos movimentos de forma a dar um tempo necessário de avaliação", acrescenta.
A ata da reunião de terça e quarta-feira será divulgada na semana seguinte, com as informações e avaliações econômicas que sustentaram a decisão dos integrantes do Copom.
Juros mais altos
O comentário de Montero reflete boa parte do consenso do mercado financeiro. Os analistas, no entanto, não desprezam ainda a possibilidade do Copom elevar os juros, talvez em 0,25 ponto percentual.
"Ainda acreditamos ser cedo para prever uma alta de juros em 2008, porém, os riscos aumentaram de maneira significativa", avalia Arthur Carvalho, economista-chefe da corretora Ativa. "As projeções de inflação, tanto do BC quanto as nossas, estão perigosamente próximas da meta, fazendo com que qualquer choque mais forte que o esperado coloque a inflação acima da mesma", acrescenta.
Opinião semelhante é descrita pelo departamento de análise do banco americano Merrill Lynch, em relatório recente. "Nosso cenário base ainda estima um processo de acomodação do crescimento econômico. Isto se seguiria a um período prolongado durante o qual o Banco Central brasileira manteria [a taxa de juros], permitindo que o estímulo [à economia] com os cortes de juros passados perca o efeito", avaliam os economistas Felipe Illanes e Virgílio Castro Cunha, da instituição financeira.
Os economistas do banco alertam que esse cenário ganha uma dose extra de incerteza se o nível de atividade não desacelerar rápido o suficiente para evitar um "aperto monetário preventivo", isto é, uma nova elevação dos juros.
O Merrill Lynch, no entanto, projeta que a taxa Selic encerre 2008 em 10,75% ao ano. Para 2009, a estimativa é de 10% ao ano.
Juros menores
O Ibef-SP (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo) mantém sua projeção de que o Copom retome o processo de corte dos juros a partir de julho deste ano.
O presidente do Conselho de Administração do Ibef-SP, Walter Machado de Barros, afirma que no primeiro semestre o Comitê ainda vai ficar atento aos efeitos dos preços de energia e alimentos na inflação. A partir da segunda metade do ano, no entanto, ganha importância "o comportamento da economia americana e as conseqüências da crise do mercado de crédito".
Barros espera que o Copom reduza a taxa Selic em um ponto percentual até o final deste ano.
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