Economia e ajuda internacional são destaque do discurso de Bush na imprensa
da Folha Online
O presidente norte-americano, George W. Bush, fez ontem seu último discurso anual Estado da União. A imprensa internacional destacou sobre suas falas, além da ênfase dada à situação econômica americana (que ameaça jogar o país em uma recessão), os pontos em que ele menciona ajuda ao combate a doenças na África e aos países em desenvolvimento no setor agrícola.
O diário americano "The New York Times" destaca hoje em um artigo que o discurso de Bush não trouxe propostas ambiciosas como nos discursos sobre o Estado da União anteriores em seus dois mandatos.
Segundo o artigo, as iniciativas de Bush no discurso --como a expectativa pela aprovação rápida do pacote de alívio fiscal, a proposta de ajuda à África para enfrentar a Aids e a malária e a ajuda aos agricultores de países em desenvolvimento-- têm à frente principalmente o obstáculo do pouco tempo que ele ainda tem de governo e a disposição dos eleitores em apoiar tais mudanças, já de olho na próxima administração do país.
| Tim Sloan/Reuters |
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| Presidente George W. Bush durante seu último discurso anual do Estado da União |
Bush ainda lembrou a questão da reforma no sistema de seguridade social do país e a legislação sobre a imigração "apenas para atestar o óbvio: ambos os pontos permanecerão inacabados em seu governo", diz o artigo.
O diário chinês "China Daily" destacou na fala de Bush a menção ao "trabalho inacabado" no país, ainda por fazer, "e que os americanos esperam que nós [governo e Congresso] acabemos", referindo-se às medidas para recuperar a força da economia americana e aos esforços na campanha militar americana no Iraque.
O site do diário britânico "The Guardian" destacou o discurso de Bush como uma forma de pressionar o Congresso a acelerar a aprovação.
"Consciente de sua presidência enfraquecida, Bush não tentou lançar visões novas e ousadas, como fez em discursos sobre o estado da União anteriores", diz o "Guardian". "Em mais de uma forma, o discurso na noite passada foi um lembrete das falhas da presidência de Bush. A ambiciosa agenda doméstica revelada no discurso do estado da União anterior --tal como a reforma da previdência ou uma reforma abrangente da lei de imigração-- não conseguiu levantar vôo."
O serviço noticioso da agência Reuters na Índia destacou a inciativa mencionada por Bush de destacar US$ 2 bilhões para investimento no desenvolvimento de tecnologias para o uso de energia mais limpa a fim de combater o aquecimento global. A agência ainda destacou o momento em que Bush afirmou que irá trabalhar com outras economias desenvolvidas e a ONU (Organização das Nações Unidas) para completar um acordo internacional "com potencial para desacelerar, parar e mesmo reverter o aumento da concentração de gases que provocam o efeito estufa".
O serviço de notícias "Indian Muslims", por sua vez, destacou o compromisso do presidente americano com o combate à Aids e à malária na África, ao propor um programa de US$ 30 bilhões nos próximos cinco anos para enfrentar as duas doenças. Também destacou um plano de ajuda aos países em desenvolvimento no setor agrícola. "Peço ao Congresso que apóie uma proposta inovadora para oferecer ajuda alimentar por meio de compras de safras diretamente dos agricultores nos países em desenvolvimento, para que possamos ajudar a produção agrícola local a quebrar o ciclo da fome", disse Bush.
"Para construir um futuro próspero, temos de confiar às pessoas seu próprio dinheiro. Enquanto estamos aqui esta noite, nossa economia está passando por um momento de incerteza", afirmou.
O site do jornal israelense "Haaretz" destacou os pontos da fala de Bush em que ele menciona ter chegado "o momento para que um Estado palestino democrático surja ao lado de Israel".
"Chegou o momento para que uma Terra Santa onde um Israel democrático e um estado palestino democrático vivam lado a lado em paz", disse Bush.
O ponto da paz entre Israel e palestinos também foi destacado no site de notícias "Israel Today". Bush destacou, segundo o site, que Mahmoud Abbas, presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), é um líder que a comunidade internacional vê como moderado e pragmático, e que foi eleito com votação expressiva para conduzir a ANP. "Mas Bush não mencionou o fato de que os palestinos também votaram expressivamente no [grupo radical islâmico] Hamas em 2006."
Bush também falou de política externa e afirmou que o Irã "financia grupos terroristas" e que a "Al Qaeda está fugindo do Iraque". Ele também defendeu a criação do Estado palestino.
Economia
De acordo com Bush, os EUA criaram empregos por 52 meses seguidos. "Mas os empregos agora estão crescendo a um ritmo mais lento. Os salários subiram, mas também os preços de alimentos e a gasolina. As exportações estão crescendo mas o mercado imobiliário declinou. E nas mesas de cozinha de todo o país há preocupação sobre nosso futuro econômico", disse.
No mês passado, a economia dos EUA gerou 18 mil empregos, enquanto a taxa de desemprego teve aumento, indo para 5%, contra 4,7% em novembro.
"No longo prazo, os americanos podem confiar em nosso crescimento econômico. Mas, no curto prazo, todos podemos ver que o crescimento está desacelerando", afirmou.
"Por isso, na semana passada, minha administração chegou a um acordo com a presidente da Casa [dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados, Nanci] Pelosi e com o líder republicano John Boehner sobre um sólido pacote de crescimento que inclui um alívio fiscal para indivíduos e famílias e incentivos para os investimentos das empresas".
Para Bush, "a tentação será sobrecarregar a lei [com alterações ou emendas, por exemplo]". "Isso iria atrasá-la ou desencaminhá-la, e nenhuma das duas opções é aceitável. Esse é um bom acordo que manterá nossa economia crescendo e nosso povo trabalhando. E o Congresso precisa aprová-la o mais rápido possível", defendeu.
Apesar do esperado pacote de alívio fiscal, anunciado por ele no último dia 18 e sobre o qual republicanos e democratas no Congresso chegaram a um acordo prévio na semana passada, Bush afirmou que o "Congresso deve saber que qualquer lei de aumento de impostos que chegar à minha mesa será vetada".
Para Bush, "os americanos devem equilibrar seus gastos, assim como o governo" e que "é preciso dar às pessoas o poder de ajudar a economia a crescer."
No sábado (26), Bush disse em seu pronunciamento semanal de rádio que, apesar da preocupação dos americanos com o risco de uma desaceleração da economia devido à instabilidade no mercado imobiliário, "os fundamentos para o crescimento a longo prazo permanecem sólidos".
O acordo preliminar sobre o pacote inclui medidas como restituições entre US$ 300 e US$ 1.200 e cortes de impostos. O pacote irá incluir ainda medidas para empresas, a fim de estimular novos investimentos --como a permissão, de imediato, uma dedução de 50% nos impostos sobre as compras de unidades de produção e outros bens de capital, informou na semana passada o diário americano "The Wall Street Journal".
Impostos
O presidente Bush aproveitou para cobrar do Congresso providência para tornar permanentes as reduções de impostos feitas nos últimos anos.
"Temos outro trabalho a fazer sobre os impostos. A menos que o Congresso aja, a maior parte do alívio fiscal que praticamos nos últimos sete anos será eliminado", afirmou.
E alfinetou: "Alguns em Washington dizem que deixar os cortes de impostos expirarem não é o mesmo que um aumento de impostos. Tentem explicar isso para 116 milhões de contribuintes americanos que veriam seus impostos crescerem em média em US$ 1.800", arrancando aplausos dos congressistas.
"Outros dizem que pessoalmente ficariam felizes em pagar impostos mais altos. Felicito esse entusiasmo e me alegro em dizer que a Receita aceita cheques e ordens de pagamento", brincou.
Segundo o presidente, "a maioria doa americanos acha que os impostos estão altos o suficiente". "Com todas as outras pressões sobre suas finanças, as famílias americanas não deveriam ter de se preocupar com o governo federal ficando com uma parte maior de seus salários".
Para Bush, "só há um meio de eliminar essa incerteza: tornar os cortes de impostos permanentes".
"Assim como confiamos nos americanos para que fiquem com seu próprio dinheiro, temos de ganhar confiança deles para gastar seu dinheiro de impostos com sabedoria. Na próxima semana, enviarei ao Congresso um orçamento que vai encerrar ou diminuir substancialmente 151 programas inchados e dispendiosos, que chegam a mais de US$ 18 bilhões", afirmou.
Segundo o presidente "esse orçamento vai manter os EUA no rumo para um superávit em 2012".
Fed
O Federal Reserve (Fed, o BC americano) também tem agido para tentar evitar que a economia caia em uma recessão. Na semana passada o Fed cortou sua taxa de juros em 0,75 ponto percentual, para 3,50%. O corte foi o primeiro realizado fora de uma reunião regular do banco desde os atentados de 11 de Setembro.
Nesta terça e quarta-feira deve ocorrer a reunião regular do banco, com o anúncio da taxa de juros na quarta. A expectativa é por um novo corte (de 0,25 ponto percentual, segundo as estimativas mais moderadas, e de 0,50 ponto percentual para os analistas que esperam uma nova medida agressiva por parte do banco). No ano passado, o Fed reduziu a taxa de juros em três ocasiões consecutivas --setembro (0,50 ponto percentual); outubro (0,25 ponto percentual); e dezembro (0,25 ponto percentual).
Rodada Doha
O presidente afirmou ainda que "o crescimento depende agora das nossas exportações. Devemos conseguir um acordo de Doha neste ano".
"No comércio, temos de confiar na capacidade dos trabalhadores americanos de competir com qualquer um no mundo e capacitá-los abrindo novos mercados em outros países", afirmou.
Para ele, o "crescimento econômico [dos EUA] depende cada vez mais de nossa habilidade em vender bens, colheitas e serviços americanos ao mundo inteiro. Por isso estamos trabalhando para romper barreiras ao comércio e ao investimento onde for possível".
Bush afirmou que está trabalhando para uma rodada bem-sucedida em Doha. "Precisamos chegar a um bom acordo neste ano. Ao mesmo tempo, estamos buscando oportunidades para abrir novos mercados ao aprovar acordos de livre-comércio", disse.
Petróleo
Bush voltou a enfatizar em seu discurso a necessidade de reduzir a dependência do país em petróleo. "Nossa segurança, nossa prosperidade e nosso meio ambiente requerem a redução de nossa dependência sobre o petróleo", afirmou.
Há tempos ele pede pelo desenvolvimento de outras fontes de energia. O presidente também defendeu medidas contra a mudança climática.
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