França interroga segundo operador sobre fraudes no Société Générale
da Folha Online
Atualizada às 11h31
A polícia da França começou a interrogar nesta sexta-feira um segundo operador suspeito de ter conhecimento da fraude no banco francês Société Générale (SocGen), que perdeu mais de US$ 7 bilhões com o esquema, segundo reportagem do diário francês "Le Monde".
A polícia informou que não poderia revelar detalhes sobre o interrogatório ou sobre o segundo operador. De acordo com o jornal, o segundo operador estava sob custódia da polícia para relatar seu grau de relacionamento com Jérôme Kerviel, que é acusado de ser o responsável pelo esquema.
O banco francês já havia informado anteriormente não trabalhar com a hipótese de que Kerviel tivesse um cúmplice. Os porta-vozes do SocGen não retornaram as ligações do "Le Monde" até a conclusão da edição de hoje para comentar o caso, segundo a agência de notícias Associated Press (AP).
Kerviel chegou a ficar sob custódia da polícia por dois dias no mês passado, mas foi liberado.
Segundo o "Le Monde", o segundo operador trabalhava para uma afiliada do SocGen, antes chamada Fimat, e agora chamada Newedge. O diretor de comunicações da Newedge não foi encontrado para comentar a reportagem do jornal, diz a AP.
A polícia suspeita que o novo operador sabia das atividades de Kerviel. Segundo investigações da polícia, há provas fornecidas pelo banco que mostram que ele enviou uma mensagem para o segundo operador sobre o sistema de computadores do banco. De acordo com o "Le Monde", a mensagem (enviada em 30 de novembro) diz: "Você não fez nada ilegal nos termos da lei".
A Justiça francesa deve considerar um pedido da Promotoria para que Kerviel seja mantido sob custódia enquanto prosseguem as investigações. A porta-voz da Promotoria Ulrika Weiss disse que essa seria uma forma de impedir que o operador não mantenha contato com cúmplices.
Fraude
A fraude de que o Société Générale (um dos mais lucrativos bancos europeus, fundado há 140 anos) foi alvo, no valor de US$ 7 bilhões, supera a soma dos lucros dos bancos Itaú e Bradesco nos nove primeiros meses de 2007. O banco alega que Kerviel assumiu uma posição de 50 bilhões de euros (cerca de US$ 73 bilhões) no mercado de derivativos --muito acima do que tinha autoridade para fazer.
O golpe ocorreu com operações com papéis chamados de "plain vanilla" --instrumento financeiro de tipo mais simples, em geral na forma de opções de ações, títulos ou contratos futuros. Kerviel abusou, assim, do acesso que tinha a informações sobre os sistemas de segurança do grupo.
O operador, por sua vez, alega que seus superiores sabiam do que ele fazia e preferiram não tomar conhecimento de suas operações.
Demissão
O presidente do banco, Daniel Bouton, foi mantido em seu cargo por decisão unânime do Conselho de Administração da instituição. A ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, no entanto, já disse que o Socgen deveria demiti-lo.
Nesta semana, a ministra disse a um comitê parlamentar, ao apresentar um relatório sobre o caso, que alguns dos controles internos do banco Société Générale falharam ou não foram levados em consideração antes do golpe.
"Claramente, alguns mecanismos [de controle interno] não funcionaram", disse Lagarde. "E os que funcionaram nem sempre foram seguidos de mudanças apropriadas."
O relatório foi resultado de uma das diversas investigações sobre as operações de Kerviel e como ele teria conseguido usar brechas nos sistemas do Société Générale para realizar operações de risco.
O banco deveria ter monitorado melhor os valores nominais das posições assumidas por Kerviel, e não apenas os valores líquidos de sua carteira, diz o documento. A ministra informou ainda que o banco deixou passar diversos alertas --em particular um que foi emitido em novembro do ano passado pela Eurex --a principal Bolsa européia de derivativos.
Compra
O rival BNP Paribas (maior banco francês) admitiu que, como outras entidades financeiras européias, estuda uma oferta de compra sobre o Société Générale. Segundo o jornal econômico francês "Les Echos", o BNP criou uma equipe de conselheiros que trabalha no projeto.
A Comissão Européia (braço executivo da União Européia) pediu que a França não interfira em potenciais candidatos à compra do banco, que o governo francês quer proteger em meio à crise.
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