Crise afeta mais países desenvolvidos que emergentes, aponta FGV
CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio
Os países emergentes, como China, Índia e Brasil, estão menos vulneráveis a crises internacionais do que há dez anos. A afirmação é da coordenadora de projetos da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Lia Valls Pereira, que divulgou nesta quarta-feira o ICE (Índice de Clima Econômico) da América Latina, feito pelo IFO (Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de Munique). O índice está incluído no levantamento "Sondagem Econômica da América Latina".
A conclusão da pesquisa mundial é de que a recente crise de crédito nos Estados Unidos, que contaminou os mercados financeiros ao redor do mundo, alterou mais o cenário econômico dos países desenvolvidos, principalmente os da UE (União Européia), que os da América Latina.
"O Brasil, por exemplo, tem mais capacidade de contrapor os efeitos de uma crise. Estamos mais bem preparados. Há um volume muito alto de reservas, o capital de fora continua entrando", observou Lia.
O ambiente para negócios na América Latina mostrou um ligeiro declínio em janeiro, recuando 0,4 pontos em relação à pesquisa feita em outubro, fechando em 5,2 pontos.
"Se for analisado o ICE da América Latina, pode-se esperar uma desaceleração do crescimento econômico. Mas como a situação atual em grande parte dos países é considerada muito favorável, ainda há algumas dúvidas. Temos que aguardar um pouco mais o cenário dos próximos meses", afirmou Lia.
"Em relação a outubro, houve piora mais significativa do ICE nos países desenvolvidos. Os últimos dados mostram que o índice de clima econômico na UE caiu bastante, enquanto que na América Latina, houve uma redução muito pequena", explicou.
No Brasil, o ICE pouco variou, passando de 6,5 em outubro, para 6,4 na pesquisa divulgada hoje. Foi verificada queda em relação ao IE (Índice de Expectativas), que compõe o ICE. Em janeiro, o índice foi de 5,2, ante 5,5 em outubro.
"Há uma queda no índice de expectativa. Não dá para dizer se é devido a incertezas em relação à crise. O ICE está praticamente no mesmo nível de outubro, e numa faixa que a gente considera favorável", comentou.
Nas crises anteriores de 1998 e de 2001, o ICE da América Latina apresentou valores inferiores à média histórica dos últimos 10 anos (5,1 pontos, entre janeiro de 1998 e janeiro de 2008). Foi de 3,7 pontos, em janeiro de 1999 e de 4,5 pontos, em janeiro de 2002.
Segundo a pesquisa, a diferença da situação da América Latina hoje em relação à que se viu nas crises anteriores é o momento de "avaliação favorável em relação à situação atual, em muitas economias da região".
BRICs
Em relação aos Brics (Brasil, Rússia, China e Índia), Lia destaca que, com exceção do Brasil, todos apresentam estabilidade ou maior confiança em relação às expectativas futuras sobre a economia. Na Europa e Estados Unidos, esse índice continua em queda contínua, com índices bem abaixo dos outros países.
Na Europa, por exemplo, o IE variou de 4,2 em outubro, para 3,6 no mês passado. Nos Estados Unidos, o índice caiu de 3,9 para 3,1.
"Esses países estão com expectativa bem abaixo do Brasil, ainda que o indicador daqui tenha caído de 5,5 para 5,2. O nível do Brasil está bem próximo dos outros Brics", destacou Lia.
A pesquisa consultou 124 especialistas em 16 países. Para se chegar ao valor médio de cada índice, atribui-se 9 pontos para as respostas positivas, 5 pontos para as que indicam estabilidade, e 1 ponto às respostas negativas.
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