Fraudador do Société Générale agiu sem ajuda de cúmplices, diz relatório
da Folha Online
As investigações sobre a fraude ocorrida no banco francês Société Générale (SocGen) descoberta no mês passado --e que custou ao banco mais de US$ 7 bilhões-- mostraram, em sua fase preliminar, que o único implicado no esquema, o operador Jérôme Kerviel, agiu sozinho, informou a comissão interna do banco responsável pela investigação.
O resultado preliminar da investigação, anunciado nesta quarta-feira (20), mostrou que não foram encontradas evidências de que Kerviel tenha recebido ajuda e nem de que ele tenha sido beneficiado com ganhos obtidos com a fraude.
O SocGen informou que Kerviel começou a assumir posições ilegais nas operações que realizava como operador do banco em 2005, com pequenas quantias, que foram crescendo a partir de março do ano passado e chegaram a cerca de US$ 73,28 bilhões. O banco revelou no mês passado que perdeu cerca de US$ 7,33 bilhões para fechar as operações de Kerviel, alegando que ele havia forjado documentos e e-mails para sugerir que ele havia coberto suas operações.
Críticos do banco dizem que Kerviel nunca poderia ter assumido posições tão altas sem chamar a atenção de outras pessoas, incluindo outros operadores do banco.
O relatório preliminar sobre a investigação afirma que os procedimentos de controle do banco falharam porque o SocGen não observou os alertas dados antes. "No atual estágio das investigações, não há evidência de apropriação indevida ou de cumplicidade interna ou externa", diz o relatório.
O banco falhou em identificar a fraude devido "à eficiência e variedade das técnicas de ocultação empregadas pelo fraudador, ao fato de que a equipe de operadores não realizou checagens mais sistematicamente detalhadas e finalmente à ausência de certos controles que poderiam ter identificado a fraude", diz o documento.
O comitê, chefiado pelo membro da diretoria do banco Jean-Martin Folz, é formado por três diretores e recebe apoio de mais de 40 inspetores e da empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers na investigação da fraude.
O comitê não fez comentários sobre a responsabilidade dos superiores de Kerviel e que pretende divulgar um relatório completo antes da reunião dos acionistas, programada para 27 de maio.
No início deste mês, a imprensa francesa informou que a polícia começou a interrogar um segundo operador suspeito de ter conhecimento da fraude. Segundo o jornal "Le Monde", o segundo operador trabalhava para uma afiliada do Société Générale, antes chamada Fimat, e agora chamada Newedge.
Fraude
A fraude de que o Société Générale (um dos mais lucrativos bancos europeus, fundado há 140 anos) foi alvo, no valor de US$ 7 bilhões, supera a soma dos lucros dos bancos Itaú e Bradesco nos nove primeiros meses de 2007. O banco alega que Kerviel assumiu uma posição de 50 bilhões de euros (cerca de US$ 73 bilhões) no mercado de derivativos --muito acima do que tinha autoridade para fazer.
O golpe ocorreu com operações com papéis chamados de 'plain vanilla' --instrumento financeiro de tipo mais simples, em geral na forma de opções de ações, títulos ou contratos futuros. Kerviel abusou, assim, do acesso que tinha a informações sobre os sistemas de segurança do grupo.
No início deste mês, uma corte de Paris determinou que Kerviel fique sob custódia da polícia enquanto as investigações do caso prosseguem. No mês passado, após a divulgação da fraude, o próprio Kerviel já havia sido detido para interrogatório mas foi liberado poucos dias depois; o advogado dele alegou que não havia motivo para a prisão, uma vez que não havia o risco de ele fugir do país.
Kerviel alega que seus superiores sabiam do que ele fazia e preferiram não tomar conhecimento de suas operações. Os advogados de Jerômé Kerviel afirmaram que a instituição quer, com o caso, levantar uma cortina de fumaça para encobrir perdas maiores, principalmente com créditos imobiliários 'subprime' (de alto risco) dos EUA.
Demissão
O presidente do banco, Daniel Bouton, foi mantido em seu cargo por decisão unânime do Conselho de Administração da instituição, mesmo tendo pedido demissão. A ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, no entanto, já disse que o Société Générale deveria demiti-lo.
A ministra disse a um comitê parlamentar, ao apresentar um relatório sobre o caso, que alguns dos controles internos do banco Société Générale falharam ou não foram levados em consideração antes do golpe. O relatório foi resultado de uma das diversas investigações sobre as operações de Kerviel e como ele teria conseguido usar brechas nos sistemas do Société Générale para realizar operações de risco.
O banco deveria ter monitorado melhor os valores nominais das posições assumidas por Kerviel, e não apenas os valores líquidos de sua carteira, diz o documento. A ministra informou ainda que o banco deixou passar diversos alertas --em particular um que foi emitido em novembro do ano passado pela Eurex --a principal Bolsa européia de derivativos.
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