Para governo, ação contra desvalorização do dólar quebra tabu
SHEILA D'AMORIM
VALDO CRUZ
da Folha de S.Paulo, em Brasília
Apesar da liberdade anunciada, na semana passada, para deixar todo o ganho com as vendas externas fora do país, os exportadores deverão continuar contribuindo para a valorização do real diante do dólar, em vez de evitar que a taxa de câmbio desabe ainda mais, como quer o governo.
A taxação dos recursos estrangeiros que ingressam para aplicação de renda fixa também não deverá ter o impacto desejado no câmbio, já que esse fluxo não está entre os maiores responsáveis pelo desabamento do dólar aqui. Na verdade, é o quinto da lista atrás do comércio exterior, de investimentos diretos, aplicações em Bolsa de Valores e emissões privadas.
Sem o efeito esperado sobre os principais fatores que sustentaram os debates internos no governo durante a montagem do pacote cambial, as medidas devem ter, na prática, impacto próximo de zero.
O ministro Guido Mantega (Fazenda) sabe disso e não acredita que haverá mudança forte no câmbio no curto prazo. Mas espera que as medidas impeçam que o real continue se valorizando muito mais ao longo do tempo.
A preocupação do governo é com 2009 e 2010, quando o país poderá enfrentar dificuldades para equilibrar suas contas externas se não tiver sustentado as exportações em alta.
Segundo a Folha apurou, no curto prazo, o governo comemora o anúncio da última semana como um "grande feito" por dois motivos básicos: 1) considera ter sido bem-sucedido em sinalizar ao empresariado preocupação com o futuro do comércio exterior; e 2) avalia que o pacote quebrou o tabu de que é proibido discutir medidas para tentar controlar a taxa de câmbio.
Juros altos
Os exportadores já podiam deixar até 30% das suas receitas no exterior, mas, segundo estimativa da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), o valor utilizado até agora não chegava a 3%. E o motivo é simples: com a maior taxa de juros do mundo em vigor no país, os empresários tentam compensar a queda dos seus lucros em reais antecipando receitas em dólar e aplicando no mercado financeiro.
Não à toa, a diferença entre o volume de contratos de câmbio vinculados a vendas para o exterior registrados pelo Banco Central e o total de exportações físicas efetivamente realizadas, segundo o Ministério do Desenvolvimento, tem crescido nos últimos anos, acompanhando a valorização do real ante o dólar.
Em 2005, foi de US$ 4,5 bilhões, pulou para US$ 6,7 bilhões em 2006 e, em 2007, aumentou mais de três vezes e meia, para US$ 24,1 bilhões. O dinheiro que ingressa na economia puxa a cotação do dólar para baixo.
Outro argumento usado pelo governo para justificar a necessidade do pacote cambial foi o temor de que o empresário fique desestimulado a buscar mercados lá fora e venda apenas internamente. Alega-se que isso poderia acontecer com setores que não estão vinculados a commodities (produtos como soja, petróleo, carne, minério), que estão com preços em alta.
No entanto, levantamento do ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC Alexandre Schwartzman mostra que boa parte da indústria brasileira mantém crescente o total exportado. O setor têxtil aumentou em 17% suas exportações nos últimos 12 meses terminados em janeiro deste ano.
Na mesma linha estão os segmentos de farmácia e perfumaria (18,6%), calçados (7,3%) e veículos (9,7%). Registram queda vestuário (4,4%) e equipamento eletrônico (21%). Com isso, setores que não têm vínculo direto com commodities registram alta média de 11,7% nas vendas no período, frente ao crescimento de 19,8% das commodities.
"Não há sinais de que pode haver desinteresse pelo mercado externo. Todos os setores não-commodities estão indo bem", diz Schwartzman.
Para o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Júlio Sérgio Gomes de Almeida, entre os grandes exportadores, a participação dos negócios com outros países nas vendas ficam, em média, em 30%, e esse é um caminho que dificilmente terá volta.
"As empresas não podem abrir mão porque têm interesses cruzados, é uma porta para a internacionalização, uma vitrine e um seguro para tomar recursos lá fora mais baratos e também se proteger de mudanças na economia do Brasil", argumenta Gomes de Almeida. "Para reduzir, isso tem que haver um caos muito grande", completa.
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