Dinheiro
17/03/2008 - 09h20

Fed age para evitar quebra do sistema financeiro; Bolsas na Ásia e Europa caem

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da Folha Online

O Federal Reserve (Fed, o BC americano) agiu neste domingo mais uma vez, em mais um da série de esforços para tentar evitar uma recessão. O BC americano cortou, em um raro encontro em um fim-de-semana, sua taxa de redesconto para 3,25% e aprovou uma ajuda para empresas financeiras e o financiamento da compra do Bear Stearns pelo JP Morgan.

Mesmo assim, as Bolsas reagem com quedas: na Europa, as perdas chegavam a 3% e na Ásia, as perdas chegaram a passar de 5%.

A taxa de redesconto é um instrumento do Fed para conceder empréstimos de curto prazo a instituições com problemas temporários de liquidez (oferta de dinheiro). O instrumento, no entanto, é utilizado com cautela pelas instituições financeiras: as que recorrem a empréstimos com essa taxa ficam de certo modo marcadas como instituições fragilizadas, que não conseguem empréstimos em outras fontes e têm de recorrer ao "concessor do último recurso" --papel que cabe ao Fed.

O Fed também agiu ontem em socorro do Bear Stearns, um dos maiores bancos de investimentos dos EUA. O banco foi vendido ao rival JP Morgan, por US$ 236 milhões. O JP Morgan irá pagar US$ 2 por ação do Bear Stearns --para se ter uma idéia do que isso significa, os papéis do Bear não eram cotados abaixo dos US$ 20 desde 1995.

O Fed aprovou uma linha de crédito de US$ 30 bilhões para financiar a compra, além de ter aprovado um programa de empréstimos para as maiores empresas de investimentos em Wall Street.

Segundo o diário americano "The New York Times" ("NYT"), a ação do Fed foi vista como forma de evitar o "derretimento" (a quebra) do sistema financeiro americano --o que agiria como uma espécie de "buraco negro" na economia global, arrastando outros países para níveis mais agudos da crise e causando um colapso mundial.

Crise

O Bear Stearns foi um dos bancos mais atingidos pela crise de crédito que vem afetando o sistema financeiro mundial, com períodos de perdas acentuadas e perdas mais suaves se alternando desde agosto do ano passado, quando as hipotecas de risco (conhecidas como "subprime") ganharam o centro das atenções.

O aumento da inadimplência nos pagamentos desse tipo de hipoteca, devido às altas de juros e à desvalorização dos imóveis residenciais nos EUA, acabou colocando em risco os mercados de crédito de um modo geral. Com isso, os bancos passaram a elevar suas taxas para operações entre si e dificultaram a obtenção de financiamentos e empréstimos por parte das empresas e dos consumidores.

O resultado tem sido uma desaceleração na economia americana, que de crescimento de 4,9% no terceiro trimestre do ano passado, passou para ligeira variação positiva de 0,6% no quarto. Para o primeiro trimestre deste ano, o governo já não descarta mais a possibilidade de um resultado negativo para o PIB (Produto Interno Bruto). Uma recessão é caracterizada por dois trimestres consecutivos de PIB negativo.

Autoridades do Fed disseram, segundo o "NYT", que o BC americano irá ficar com a carteira do Bear e controlar as principais decisões a fim de minimizar os riscos para a autoridade monetária americana.

Ajuda

No último dia 11, o Fed já havia anunciado uma ajuda de US$ 200 bilhões em dinheiro para instituições financeiras em dificuldade. O dinheiro será emprestado às instituições com um prazo de vencimento de 28 dias, e não em operações "overnight" (empréstimos com prazo mínimo de um dia). A ação também será coordenada com o Banco do Canadá, o Banco da Inglaterra, o BCE (Banco central Europeu) e o Banco Nacional da Suíça.

A iniciativa do Fed "pretende promover a liquidez nos mercados de crédito (...) e estimular o funcionamento dos mercados financeiros em geral", diz a nota do banco.

O novo programa, anunciado ontem, no entanto, não terá limite para a quantidade de dinheiro a ser emprestada, disseram representantes do Fed ao "NYT".

O presidente do Fed, Ben Bernanke, disse em uma conferência por telefone que o banco, em contato com o Departamento do Tesouro, "está trabalhando para promover mercados financeiros em bom funcionamento e com liquidez, essenciais para o crescimento econômico". "Esses passos irão dar às instituições financeiras maior garantia para ter acesso a fundos."

Bolsas

Mesmo com as ações do Fed para evitar um agravamento da crise, as Bolsas mundiais tem reagido mal. Ajudas do Fed são vistas como sinal de fragilidade das instituições financeiras, e criam o temor de que a fragilidade não seja mais pontual, em uma ou outra instituição mais abalada, mas que esteja corroendo as estruturas do mercado.

Na semana passada, as Bolsas em Wall Street fecharam em queda: o Dow Jones Industrial Average perdeu 1,6%; o S&P 500 caiu 2,08%, e a Nasdaq perdeu 2,26%. As perdas nas Bolsas asiáticas e nas européias hoje refletem a desconfiança dos investidores quanto à saúde da economia americana.

A desaceleração econômica nos EUA tem gerado efeitos que as medidas do Fed parecem insuficientes para conter. Com a debilidade da economia, o Fed tem de agir baixando sua taxa de juros --o que o banco tem feito desde setembro do ano passado (a taxa passou de 5,25% então para 3% em janeiro, mês em que o Fed fez dois cortes, um de 0,75 ponto percentual em uma reunião extraordinária e um de 0,50 pp na reunião regular).

Para a reunião de amanhã, é esperado um novo corte --e as opiniões dos economistas divergem apenas no tamanho do corte: alguns falam em 0,75 ponto percentual, outros em 1 pp.

Câmbio

Isso, no entanto, afeta o câmbio, e explica a desvalorização registrada a cada dia no valor da moeda americana em relação a outras, como o euro e o iene. A moeda européia já se aproxima do nível recorde de US$ 1,60, enquanto o iene avança em direção à paridade com o dólar --hoje a moeda americana chegou a ser negociada a 95,72 ienes.

Outro efeito do dólar em queda é a alta do petróleo: o barril da commodity já se aproxima dos US$ 112 na Bolsa Mercantil de Nova York. Com a queda dos juros e a desvalorização do dólar, o barril se torna mais acessível, pressionando a demanda.

Isso cria um dilema para o Fed: o petróleo em alta pressiona a inflação, com o encarecimento dos combustíveis e dos índices de preços da energia de modo geral. Com a inflação pressionando, o Fed teria de elevar juros para conter os preços. juros mais altos, no entanto, inibiriam ainda mais o consumo, e perpetuariam (ou até agravariam) a atual crise.

 

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