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Dinheiro
17/03/2008 - 17h35

Sob efeito de crise nos EUA, Bovespa fecha com queda de 3,19%

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YGOR SALLES
da Folha Online

Em um dia tenso nos mercados devido ao avanço da crise iniciada no setor do crédito imobiliário de alto risco ("subprime") nos Estados Unidos, a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) fechou em forte baixa nesta segunda-feira.

Porém, ao contrário do mercado americano, o qual seguiu durante todo o dia, a Bolsa paulista não teve fôlego para inverter o sinal ao final do dia. O mercado foi puxado para baixo pelo mau desempenho das ações da Petrobras e da Vale do Rio Doce, as mais negociadas por aqui. Ao menos não fechou abaixo do patamar dos 60.000 pontos, como ocorreu em diversas oportunidades ao longo do pregão.

O Ibovespa --principal indicador da Bovespa-- recuou 3,19%, a 60.011 pontos. O giro financeiro foi de R$ 7 bilhões, com cerca de 233 mil negócios realizados. Já o dólar comercial subiu 0,64%, vendido a R$ 1,724.

O mau humor é causado por novos temores de quebra de diversas instituições financeiras americanas devido aos seus prejuízos com o crédito "subprime". Com isso, as Bolsas americanas tiveram um movimento volátil. Depois de indicar perdas durante quase todo o dia, o índice Dow Jones ganhou 0,18%. Já o indicador tecnológico Nasdaq Composite perdeu 1,6%. Na Europa, por outro lado, as Bolsas fecharam com forte queda.

O novo protagonista entre os atingidos pela crise é o Bear Stearns. O banco de investimentos foi comprado por apenas US$ 236 milhões pelo JP Morgan --que irá pagar US$ 2 por ação. Para se ter uma idéia do que isso significa, os papéis do Bear não eram cotados abaixo dos US$ 20 desde 1995.

O Bear Stearns sofreu um sério problema de liquidez (crédito) na sexta-feira, que fez a ação do banco despencar quase 50% no pregão daquele dia. E hoje a queda é ainda maior: o preço baixo pago pelo JP Morgan para comprar o banco faz com que o papel fechasse com perdas de 84%. Já as ações do JP Morgan avançaram 10,84%.

Para tentar dar liquidez ao mercado, o Fed (o BC americano) cortou, em um raro encontro em um fim de semana, sua taxa de redesconto para 3,25%, além de aprovar uma ajuda para empresas financeiras e o financiamento da compra do Bear Stearns.

Segundo o diário americano "The New York Times", a ação do Fed foi vista como forma de evitar o "derretimento" (a quebra) do sistema financeiro americano --o que agiria como uma espécie de "buraco negro" na economia global, arrastando outros países para níveis mais agudos da crise e causando um colapso mundial.

"A volatilidade se manterá. Novos bancos terão dificuldades", disse o analista Miguel Daoud, da Global Financial Advisor. O novo alvo da crise, dizem analistas, é o banco de investimentos Lehman Brothers. As ações da empresa recuaram 20,15%. Se depender do andamento na Bolsa de Nova York, as outras instituições financeiras que estão na mira são a MF Global, o National City e a Ambac, todas entre as maiores quedas do dia.

Neste cenário, o presidente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, colaborou para a tensão ao dizer que a crise financeira "vai durar bastante tempo" e terá "graves conseqüências" em uma conferência organizada em Paris pelo FMI e pela OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre as reformas estruturais na Europa.

De acordo com ele, os países emergentes também serão afetados pela crise financeira, que no momento atinge principalmente os Estados Unidos e os países desenvolvidos. Tal previsão não era tão incisiva até o momento, uma vez que os bancos dos países emergentes não tinham os papéis subprime como ativos comuns em suas carteiras.

O mercado também agora espera atentamente à decisão sobre os juros americanos, que será definido pelo Fed amanhã. Estima-se que o BC americano cortará a taxa de juros em 0,75 ponto percentual.

No Brasil, a queda é mais acentuada porque o mercado já espera uma queda dos preços das commodities, que seria causada pela menor demanda dos países mais envolvidos na crise do subprime. Esse sentimento já fez, por exemplo, o preço do petróleo cair mais de 4% hoje.

"Isso derruba a Ibovespa porque 70% das empresas que estão nela são exportadoras, em especial Vale e Petrobras", disse Daoud. "Há um risco real da explosão da bolha dos preços [das commodities]. A China, por exemplo, não sustenta por mais tempo o ritmo de compra por causa da inflação em alta."

Coincidentemente, as ações ordinárias das duas empresas tiveram as duas maiores quedas de hoje entre as ações listadas no Ibovespa. As ações ordinárias da Petrobras caíram 5,3%, e as preferenciais recuaram 3,79%. Já as ordinárias da Vale perderam 6,06% e as preferenciais classe A tiveram perda de 4,34%.

A Bovespa teve hoje ainda o vencimento de opções sobre as ações da Bolsa paulista, que movimentou R$ 581,6 milhões --R$ 390,2 milhões em opções de compra e R$ 191,4 milhões em opções de venda.

 

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