Queda de preço de matérias-primas faz Bovespa despencar 5%
YGOR SALLES
da Folha Online
Depois de gerar turbulências no mercado com seu efeito direto sobre o mercado financeiro, a crise do crédito imobiliário de alto risco ("subprime") nos Estados Unidos atingiu as commodities e, por tabela, fez as Bolsas mundiais caírem hoje. Como as empresas brasileiras exportadoras de matérias-primas são também as mais negociadas na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), a queda dos preços destes produtos teve um efeito mais forte no mercado acionário brasileiro, fazendo-o despencar.
O Ibovespa, principal indicador da Bolsa paulista, fechou com forte baixa de 5,01%, aos 58.827 pontos. O giro financeiro foi de R$ 6,86 bilhões --superior à média de R$ 6 bilhões deste ano--, com cerca de 237 mil negócios realizados. O dólar comercial, por sua vez, apresentou uma alta de 1,83%, vendido a R$ 1,721.
As Bolsas americanas fecharam também em baixa, mas em um ritmo menor do que no Brasil. O índice Dow Jones recuou 2,36%, enquanto que o tecnológico Nasdaq Composite perdeu 2,57%.
"A nossa queda é basicamente causada pelas commodities. A Petrobras, a Vale e as siderúrgicas, que são exportadoras desses produtos, são as principais empresas negociadas na Bolsa", disse Jayme Soares Alves Neto, analista de investimentos da corretora Spinelli.
O petróleo, por exemplo, chegou a cair quase 6% hoje em Nova York. Fechou com recuo de 4,72%, a US$ 104,48 o barril.
A queda das commodities é um dos efeitos que a crise do "subprime" traz à "economia real". A iminência de uma recessão nos EUA faz com que aumentem os temores de uma queda no consumo do óleo no país, o que deixaria petróleo sobrando no mercado, aliviando a pressão da demanda e os preços. E como eles estavam supervalorizadas, puxados pelo crescimento econômico mundial dos últimos anos, tendem agora a recuar fortemente.
As ações preferenciais de Petrobras e Vale, as mais negociadas da Bovespa, fecharam com quedas ainda mais fortes do que a do Ibovespa. Vale PNA recuou 7,21%, e Petrobras PN perdeu 7,4%.
Apesar de a Bovespa ter perdido mais do que as Bolsas americanas, Alves Neto disse que elas se manterão coladas nos próximos dias. "A tendência é se manterem juntas. Tivemos um fator atípico hoje nos Estados Unidos, que foi o IPO [oferta pública de ações] da Visa. Mas eles também tem ações importantes ligadas às commodities."
A Visa teve o maior IPO (oferta inicial de ações) da história dos Estados Unidos, levantando mais de US$ 16 bilhões. A euforia em torno de sua negociação fez a ação subir 29,41% e ser a mais negociada na Nyse (Bolsa de Valores de Nova York, na sigla em inglês) hoje.
Subprime
Mas o mau humor do mercado também foi causado pelos novos desdobramentos da crise do "subprime", aqueles empréstimos feitos a pessoas com histórico de inadimplência.
O Office of Federal Housing Enterprise Oversight (entidade que regula o setor hipotecário americano) anunciou que irá reduzir a reserva de recursos --como o depósito compulsório dos bancos brasileiros-- das securitizadoras de crédito Fannie Mae e Freddie Mac de 30% para 20% do total de ativos que administram.
Com a medida, as duas empresas terão capacidade de absorver mais US$ 200 bilhões de créditos hipotecários, em especial os "subprime". A princípio a medida é positiva, já que traz liquidez ao mercado de crédito hipotecário, que está bastante debilitado. Porém, também pode ser apenas um alívio passageiro caso a crise não se resolva. Se essa hipótese vingar, as duas securitizadoras estariam em uma situação financeira ainda mais delicada, pois suas reservas compulsórias estariam menores.
O resultado acima do esperado do Morgan Stanley trouxe algum alento. O banco de investimentos reportou redução de 42% no lucro líquido no primeiro trimestre fiscal de 2008, encerrado em fevereiro. Porém, o resultado veio acima do esperado: US$ 1,53 bilhão, ou US$ 1,45 por ação, contra expectativa de US$ 1,03 por ação.
Depois do Bear Stearns quase falir --o que não ocorreu porque o banco foi comprado pelo JP Morgan, o mercado procura novos possíveis alvos de uma quebra. Neste caso se encontram o inglês HBOS, atingido pelo boato de que pediu um empréstimo ao Banco da Inglaterra, e a financiadora hipotecária americana Thornburg Mortgage --que perdeu quase 50% hoje.
"A crise deve fazer novas vítimas, mas não deve ser de forma grave. O Fed deve ajudar de forma que os problemas pontuais não criem uma crise sistêmica no sistema financeiro", disse Alves Neto. "Só não pode socorrer todo mundo, porque traria uma sensação de impunidade a quem apostou alto demais."
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