31/12/2001
-
09h31
O Instituto Alemão de Pesquisas Econômicas é ligado aos sociais-democratas do SPD, partido do chanceler Gerhard Schroeder. Funciona como uma espécie de porta-voz oficioso do governo.
O chefe de seu departamento de conjuntura, Gustav Horn, diz acreditar que o euro é bem mais um instrumento político de integração entre países europeus que uma ferramenta destinada a sintonizar suas economias.
Reconhece, no entanto, que a existência de um Banco Central Europeu impõe ao bloco uma disciplina interna que deixa de mãos atadas os governos que queiram acelerar o crescimento de suas economias por meio de medidas que aumentem do déficit público.
Horn não dá grande importância ao fato de quase metade dos alemães são
contra o euro, como mostram as pesquisas.
Para ele, o ceticismo piorou devido aos efeitos da recessão mundial, que impediram o país de crescer 3% neste ano, como se esperava.
"A insegurança desaparecerá com a volta do crescimento", afirma Horn.
Ele também vê uma mudança de percepção por parte dos sindicatos alemães, que faziam críticas ao euro.
Segundo Horn, os representantes dos trabalhadores se convenceram de que a temida exportação de empregos a países como Portugal ou Espanha ocorreria com um marco supervalorizado.
"A adoção de uma moeda conjunta é um fator de preservação e crescimento do mercado de trabalho", diz ele.
Eis os principais trechos de sua entrevista. (João Batista Natali)
Folha - O euro não seria uma antítese da chamada racionalidade econômica, ao prever taxa de juros conjunta para países com crescimento e inflação diferentes?
Gustav Horn - O euro não é apenas econômico. É também e sobretudo um instrumento político de aceleração da integração entre os países membros da União Européia.
Quanto às decisões sobre os juros, elas não são tomadas pelo Banco Central Europeu de acordo com a conveniência de cada um. As diferenças são inúmeras no bloco, entre países e até dentro deles.
Folha - A que diferenças o sr. se refere, e quais seriam as importantes?
Horn - Digamos que a Irlanda esteja com sua economia crescendo e a Alemanha em período recessivo. Determinada queda na taxa de juros estimula o crescimento de um PIB estagnado. Outra taxa favorece a queda da inflação onde ela possa ocorrer.
Já houve uma convergência das taxas de inflação. Quando me refiro a diferenças internas penso sobretudo na Alemanha, onde o desempenho econômico da parte oriental é bem mais problemático que o da parte ocidental.
Folha - A zona do euro prevê um limite rígido dos déficits públicos. Essa restrição não tolhe a autonomia econômica dos governos?
Horn - Os governos continuam a ter autonomia em sua política fiscal, em suas políticas tributárias e na definição e gestão da seguridade social.
Folha - Que vantagem a Alemanha leva ao trocar o marco, que era uma moeda forte, pelo euro que já caiu bastante frente ao dólar?
Horn - O marco era bem mais que uma moeda. Era o símbolo de união interna, de crescimento econômico. Mas o euro também traz uma simbologia densa, a da integração continental.
Folha - Praticamente metade da população alemã se opõe ao euro. Qual a razão, se há tanta vantagem simbólica?
Horn - O governo alemão hesitou em dar informações à população de uma forma mais intensa, o que criou um clima de incerteza.
O clima se acentuou quando os efeitos da recessão mundial impediram o país de crescer em 3%, como se esperava. A insegurança desaparecerá com a volta do crescimento.
Folha - O sr. acredita que o Reino Unido permanecerá de fora da zona do euro?
Horn - Os britânicos só terão de agora em diante desvantagens. Aliás, já as estão sentindo, com diferenças cambiais que dificultam suas exportações para os demais parceiros da Europa. A flutuação no câmbio é prejudicial para o aumento das transações bilaterais.
Folha - Há alguma estimativa precisa sobre o peso do fator flutuação?
Horn - Os exportadores e importadores acreditam que a insegurança com as oscilações das taxas de câmbio cheguem a inibir em 1% seus negócios.
Folha - Os sindicatos alemães, que temiam o fechamento de postos de trabalho no país, estão hoje menos reticentes quanto à nova moeda?
Horn - No início eles acreditavam que o euro exportaria empregos alemães para outros países, como Portugal ou Espanha. Mas acabaram se convencendo que essa exportação ocorria com um marco supervalorizado.
A adoção de uma moeda conjunta é um fator de preservação e crescimento do mercado de trabalho.
O jornalista João Batista Natali viajou a convite do governo alemão
Saiba tudo sobre o euro
Nova moeda terá uma função política, diz economista
Publicidade
da Folha de S.PauloO Instituto Alemão de Pesquisas Econômicas é ligado aos sociais-democratas do SPD, partido do chanceler Gerhard Schroeder. Funciona como uma espécie de porta-voz oficioso do governo.
O chefe de seu departamento de conjuntura, Gustav Horn, diz acreditar que o euro é bem mais um instrumento político de integração entre países europeus que uma ferramenta destinada a sintonizar suas economias.
Reconhece, no entanto, que a existência de um Banco Central Europeu impõe ao bloco uma disciplina interna que deixa de mãos atadas os governos que queiram acelerar o crescimento de suas economias por meio de medidas que aumentem do déficit público.
Horn não dá grande importância ao fato de quase metade dos alemães são
contra o euro, como mostram as pesquisas.
Para ele, o ceticismo piorou devido aos efeitos da recessão mundial, que impediram o país de crescer 3% neste ano, como se esperava.
"A insegurança desaparecerá com a volta do crescimento", afirma Horn.
Ele também vê uma mudança de percepção por parte dos sindicatos alemães, que faziam críticas ao euro.
Segundo Horn, os representantes dos trabalhadores se convenceram de que a temida exportação de empregos a países como Portugal ou Espanha ocorreria com um marco supervalorizado.
"A adoção de uma moeda conjunta é um fator de preservação e crescimento do mercado de trabalho", diz ele.
Eis os principais trechos de sua entrevista. (João Batista Natali)
Folha - O euro não seria uma antítese da chamada racionalidade econômica, ao prever taxa de juros conjunta para países com crescimento e inflação diferentes?
Gustav Horn - O euro não é apenas econômico. É também e sobretudo um instrumento político de aceleração da integração entre os países membros da União Européia.
Quanto às decisões sobre os juros, elas não são tomadas pelo Banco Central Europeu de acordo com a conveniência de cada um. As diferenças são inúmeras no bloco, entre países e até dentro deles.
Folha - A que diferenças o sr. se refere, e quais seriam as importantes?
Horn - Digamos que a Irlanda esteja com sua economia crescendo e a Alemanha em período recessivo. Determinada queda na taxa de juros estimula o crescimento de um PIB estagnado. Outra taxa favorece a queda da inflação onde ela possa ocorrer.
Já houve uma convergência das taxas de inflação. Quando me refiro a diferenças internas penso sobretudo na Alemanha, onde o desempenho econômico da parte oriental é bem mais problemático que o da parte ocidental.
Folha - A zona do euro prevê um limite rígido dos déficits públicos. Essa restrição não tolhe a autonomia econômica dos governos?
Horn - Os governos continuam a ter autonomia em sua política fiscal, em suas políticas tributárias e na definição e gestão da seguridade social.
Folha - Que vantagem a Alemanha leva ao trocar o marco, que era uma moeda forte, pelo euro que já caiu bastante frente ao dólar?
Horn - O marco era bem mais que uma moeda. Era o símbolo de união interna, de crescimento econômico. Mas o euro também traz uma simbologia densa, a da integração continental.
Folha - Praticamente metade da população alemã se opõe ao euro. Qual a razão, se há tanta vantagem simbólica?
Horn - O governo alemão hesitou em dar informações à população de uma forma mais intensa, o que criou um clima de incerteza.
O clima se acentuou quando os efeitos da recessão mundial impediram o país de crescer em 3%, como se esperava. A insegurança desaparecerá com a volta do crescimento.
Folha - O sr. acredita que o Reino Unido permanecerá de fora da zona do euro?
Horn - Os britânicos só terão de agora em diante desvantagens. Aliás, já as estão sentindo, com diferenças cambiais que dificultam suas exportações para os demais parceiros da Europa. A flutuação no câmbio é prejudicial para o aumento das transações bilaterais.
Folha - Há alguma estimativa precisa sobre o peso do fator flutuação?
Horn - Os exportadores e importadores acreditam que a insegurança com as oscilações das taxas de câmbio cheguem a inibir em 1% seus negócios.
Folha - Os sindicatos alemães, que temiam o fechamento de postos de trabalho no país, estão hoje menos reticentes quanto à nova moeda?
Horn - No início eles acreditavam que o euro exportaria empregos alemães para outros países, como Portugal ou Espanha. Mas acabaram se convencendo que essa exportação ocorria com um marco supervalorizado.
A adoção de uma moeda conjunta é um fator de preservação e crescimento do mercado de trabalho.
O jornalista João Batista Natali viajou a convite do governo alemão
Saiba tudo sobre o euro

