Dinheiro
31/12/2001 - 09h33

Euro consagra hegemonia do marco

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JOÃO BATISTA NATALI
da Folha de S.Paulo

Há um ano, os empresários alemães queixavam-se do Banco Central Europeu, que impunha uma taxa de juro de 4,75% para fazer baixar a inflação na Irlanda e na Espanha. Os juros na zona do euro estão agora em 3,25%. Mas a economia alemã, por força sobretudo da recessão norte-americana, já está em câmara lenta.

É um pequeno detalhe de conjuntura que talvez passe quase despercebido quando dentro de meio século se escreve a história da união monetária. Mesmo sendo uma visão politicamente incorreta, o euro estará consagrando, com outra denominação, a hegemonia regional da economia que gerou o marco alemão.

Os estudos, que no final de 1998, estipularam a parcela da base monetária que seria gerida por cada integrante da zona do euro deram à Alemanha um peso de 29,85%. A França, segunda colocada, ficou com bem menos: 17,67%. Somadas, a Bélgica, a Áustria, a Irlanda, a Finlândia e Luxemburgo não chegam a 11%.

Christian Kastrop, diretor da Divisão de Política Fiscal do Ministério das Finanças da Alemanha, não comenta essas diferenças internas ao bloco. Mas disse à Folha que a Alemanha lucrou com a gradativa desvalorização do euro frente ao dólar americano. A competitividade de seus produtos aumentou nos Estados Unidos ou em países como o Brasil, em que o dólar é referência para a cotação da moeda nacional.

Fora dos gabinetes povoados por economistas do governo, o euro provoca entre os alemães sentimentos contraditórios. É aprovado por um pouco menos da metade da população (44%, segundo pesquisa da Confederação dos Bancos). Mas a parcela ligeiramente majoritária que o desaprova mobiliza argumentos bem mais passionais.

O marco tinha um valor simbólico semelhante ao do hino ou ao da bandeira. Na Alemanha do Leste, que invejava nos tempos de comunismo o padrão de consumo da Alemanha Ocidental, o marco era sinônimo de economia de mercado e de compras sem os tickets de racionamento. É por isso que, no Leste, a oposição à moeda européia é bem maior.

Os argumentos favoráveis ao euro são raramente profundos. "É bom porque não é preciso fazer câmbio na hora de viajar para outro país", comenta-se.

As vantagens são, no entanto, mais densas e sutis. Peguemos o caso do preço de um produto no atacado. Com a transparência comparativa que o euro permite, é possível medir quem consegue produzir por menos. A indústria alemã tende a sair ganhando por encabeçar os investimentos em novas tecnololgias.

Os alemães têm sorte por lidarem com uma taxa de conversão para a nova moeda que permite cálculos de cabeça. Um euro vale 1,95 marcos. Basta multiplicar o valor em marcos por dois para obter o valor em euro com margem de erro bem pequena.

Os belgas precisam dividir o valor em euro por 40 para saber a equivalência em francos. Os espanhóis, se quiserem evocar a peseta, precisam dividir o valor em euro por 66. Uma conta bastante complicada.

"Auf Wiedersehen, Mark" (Adeus, marco alemão), diz o comercial de um banco programado desde novembro para a televisão. "Todos os grandes e pequenos sonhos, nós pagamos em marco. Sejam bem-vindos aos novos sonhos", conclui o filmete, com a óbvia lembrança de que eles, a partir de agora, serão pagos em euro.

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