Bovespa ignora EUA pela segunda vez e fecha em alta
YGOR SALLES
da Folha Online
Pelo segundo dia seguido, a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) se aproveitou de notícias corporativas positivas para fechar em alta, mesmo que os pregões não tenham sido positivos nas Bolsas americanas.
Se ontem os boatos sobre a descoberta de um campo de petróleo no Maranhão fizeram com que as ações da Petrobras subissem mais de 5% e levassem a Bolsa paulista junto, hoje foi a vez da Vale do Rio Doce ser a protagonista, após desistir de comprar a concorrente anglo-suíça Xstrata.
O Ibovespa --principal indicador da Bovespa-- subiu 0,30%, aos 61.415 pontos. O giro financeiro foi de R$ 6 bilhões --dentro da média diária desse ano--, com cerca de 202 mil negócios realizados.
Com a entrada de dólares causada pela alta da Bovespa e da desvalorização ante outras moedas no mercado internacional, o dólar comercial fechou com recuo de 0,28%, vendido a R$ 1,727.
Apesar do descolamento momentâneo causado por notícias pontuais internas, espera-se que a Bovespa volte logo a seguir o mercado americano.
"Quando há um incêndio, o primeiro movimento é ir para onde há oxigênio. É o que está ocorrendo com os investidores agora, indo para os mercados emergentes", filosofa Miguel Daoud, analista da Global Financial Advisor. "O problema será se o incêndio persistir e se alastrar."
Em Nova York, dados ruins sobre a economia americana fizeram as Bolsas locais recuarem. O índice Dow Jones perdeu 0,88%, enquanto que o tecnológico Nasdaq Composite teve perda de 0,71%.
As encomendas de bens duráveis nos Estados Unidos tiveram queda de 1,7% em fevereiro, após redução de 4,7% em janeiro, divulgou hoje o Departamento do Comércio. Os analistas esperavam uma leve recuperação, da ordem de 0,8%.
Já a venda de casas novas caiu 1,8% em fevereiro na comparação com o mês anterior, para um ritmo anual de 590 mil unidades. Trata-se do nível mais baixo em 13 anos. A queda foi um pouco maior do que a esperada pelos analistas, que apostavam em recuo de 1,7%.
O único dado que trouxe alento aos investidores americanos foi o das reservas semanais de petróleo. Elas se mantiveram estáveis em em 311,8 milhões de barris na semana finalizada em 21 de março. Os analistas esperavam uma alta --que seria a terceira seguida-- de 1,8 milhão de barris.
Além da queda dos bancos --Citigroup, Bank of America e Washington Mutual, por exemplo-- o mercado também é influenciado negativamente pela Clear Channel, principal rede de rádios dos EUA. A empresa corre o risco de ser privatizada porque não consegue mais financiamentos. As ações da empresa caíram mais de 16%.
Vale, Petrobras e Bolsas
O que trouxe fôlego para a Bovespa descolar de novo das Bolsas americanas foi a Vale. Os papéis da mineradora subiram com o anúncio de que desistiu de comprar a Xstrata. O mercado viu no movimento a disposição da Vale de não fazer nenhuma loucura para realizar aquisições --o que, para o caixa da empresa e o dividendo aos acionistas, é saudável.
"Além disso, nada impede que a Vale faça outras aquisições, buscando opções que agreguem tanto valor do que a Xstrata. A Inco, por exemplo, foi comprado por um valor menor [US$ 17 bilhões, ante os US$ 90 bilhões oferecidos pela Xstrata] e agregou muito valor à Vale", explicou Eduardo Roche, gerente de análise da Modal Asset Management.
Com a notícia, os papéis preferenciais classe A da mineradora avançaram 4,56%, enquanto que as ordinárias ganharam 4,36%. Já na Europa, os acionistas da Xstrata acusaram o golpe e os papéis da mineradora recuaram 5,2%, colaborando para que as Bolsas européias recuassem.
Já a Petrobras subiu com a manutenção dos boatos que a empresa descobriu um novo megacampo de petróleo no Maranhão. "A ação chegou a cair no início do pregão, com investidores realizando o lucro com a alta de ontem, mas depois se recuperou", disse Roche. As ações ordinárias sobem 1,03% e as preferenciais ganham 1,62%.
Outra notícia que movimentou a Bolsa paulista hoje foi a sua própria fusão com a BM&F. As ações da Bovespa Holding ganharam 5,63%. Já as da BM&F operaram o dia todo com alta, mas no final do pregão não resistiu à realização de lucros e recuou 1,66%.
Apesar da alta, o papel da Bovespa Holding não afetou o Ibovespa, já que essa ação não participa da carteira do índice.
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