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Dinheiro
31/03/2008 - 11h55

Entenda a crise que atinge a economia dos EUA

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da Folha Online

A economia dos Estados Unidos --e por conseqüência o mercado global-- passa pela maior crise de crédito em 20 anos, desencadeada por uma outra crise, a dos empréstimos imobiliários "subprime", aqueles feitos a pessoas com histórico de inadimplência.

Após atingir um pico em 2006, os preços dos imóveis passaram a cair. Os juros do Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA), que vinham subindo desde 2004, encareceram o crédito e afastaram compradores; com isso, a oferta começa a superar a demanda e desde então o que se viu foi uma espiral descendente no valor dos imóveis.

Como os empréstimos "subprime" embutem maior risco, eles têm juros maiores, o que os torna mais atrativos para gestores de fundos e bancos em busca de retornos melhores. Estes gestores, assim, ao comprar tais títulos das instituições que fizeram o primeiro empréstimo, permitem que um novo montante de dinheiro seja novamente emprestado, antes mesmo do primeiro empréstimo ser pago. Também interessado em lucrar, um segundo gestor pode comprar o título adquirido pelo primeiro, e assim por diante, gerando uma cadeia de venda de títulos.

Porém, se a ponta (o tomador) não consegue pagar sua dívida inicial, ele dá início a um ciclo de não-recebimento por parte dos compradores dos títulos. O resultado: todo o mercado passa a ter medo de emprestar e comprar os "subprime", o que termina por gerar uma crise de liquidez (retração de crédito).

Depois que esses devedores "subprime" começaram a não honrar suas dívidas, o temor de calotes generalizados fez o dinheiro em circulação retrair no país como um todo, desacelerando a maior economia do planeta. Com menos liquidez (dinheiro disponível), menos se compra, menos as empresas lucram e menos pessoas são contratadas.

Arte Folha

No mundo da globalização financeira, créditos gerados nos EUA podem ser convertidos em ativos que vão render juros para investidores na Europa e outras partes do mundo, por isso o pessimismo influencia os mercados globais.

Para tentar encerrar este ciclo de falta de dinheiro em circulação, os bancos centrais passaram a fazer injeções periódicas de dólares no mercado, leilões e empréstimos com juros baixos às instituições financeiras.

Além dos leilões bilionários, uma das principais medidas tomadas pelo Fed foi baixar drasticamente a taxa básica de juros, deixando o dinheiro mais barato. Mas nem mesmo isso conseguiu estimular os consumidores a continuar gastando, ou a ampliarem seus gastos --como se viu nas vendas no varejo nos EUA : em fevereiro, que caíram 0,6% em fevereiro.

A economia ainda sofreu outro abalo no mercado de trabalho: depois de eliminar 22 mil empregos em janeiro, a economia perdeu outros 63 mil no mês passado.

Como medida emergencial para evitar uma desaceleração ainda maior da economia --o que faz crescer o medo que o EUA caiam em recessão, já que 70% do PIB americano é movido pelo consumo--, o presidente americano, George W. Bush, sancionou no mês passado um pacote de estímulo que dará cheques de restituição de impostos a milhões de norte-americanos.

O pacote prevê uma restituição de US$ 600 para cada contribuinte com renda anual de até US$ 75 mil; e US$ 1.200 para casais com renda até US$ 150 mil, além de US$ 300 adicionais por filho. Quem não não paga imposto de renda, mas recebe o teto de US$ 3 mil anuais, terá direito a cheques de US$ 300. Mais de 130 milhões de pessoas serão beneficiadas.

No início deste mês, Bush chegou a pedir aos contribuintes que serão beneficiados com os cheques do pacote que gastem, e não guardem em poupanças, ou invistam e mesmo paguem dívidas.

Nesse contexto, bancos têm anunciado perdas bilionários e prejuízos, chegando a ser vendidos por preços baixíssimos a concorrentes.

Pessimistas

A recessão, se não chegou ainda, está a caminho --pelo menos na visão de alguns nomes de peso no setor financeiro. No início do mês, o megainvestidor Warren Buffett disse que a economia dos EUA já está em recessão "na teoria". "Além de qualquer definição, nós estamos em recessão", disse.

Outro a pintar um cenário negativo foi o ex-presidente do Fed Alan Greenspan. Em artigo de ontem no jornal britânico "Financial Times", ele afirmou que a crise financeira atual pode ser considerada a mais grave desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

"A atual crise financeira nos Estados Unidos será verdadeiramente julgada como a mais grave desde o fim da Segunda Guerra mundial", diz o texto. "Ela chegará ao fim quando o preço dos bens imobiliários se estabilizar e, com ele, os preços dos produtos financeiros endossados em empréstimos hipotecários."

Em uma pesquisa divulgada neste mês, economistas ouvidos pelo diário americano "The Wall Street Journal" também vêem a economia americana caindo em recessão. Segundo a pesquisa, 71% dos 51 economistas entrevistados disseram que o país já está em recessão. Pouco menos da metade (48%) dos economistas entrevistados disseram que a recessão de 2008 será pior que a de 2001 e a de 1990-91.

Bolsas de Valores

Como a crise americana provoca aversão ao risco, os investidores em ações preferem sair das Bolsas, sujeita a oscilações sempre, e aplicar em investimentos mais seguros. Isso faz os índices caírem. Além disso, os estrangeiros que aplicam em mercados emergentes, como o Brasil, vendem seus papéis, de fácil comércio, para cobrir perdas lá fora. Com muita gente querendo vender --ou seja, oferta elevada--, os preços dos papéis caem.

 

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