Repique da indústria pode exigir "ajuste fino" para conter consumo, diz FGV
da Folha Online
A indústria voltou a dar sinais de reaquecimento em março e reacendeu a "luz amarela" quanto à sustentabilidade da expansão da economia brasileira. Segundo divulgou a FGV (Fundação Getulio Vargas) nesta segunda-feira, o setor retomou os patamares de crescimento no segundo semestre de 2007, que apontam para uma "insustentável" taxa de expansão de 6% ao ano.
Caso os sinais de aceleração da demanda se mantenham, Aloísio Campelo Júnior, coordenador do Núcleo de Pesquisas e Análises Econômicas do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), já considera a necessidade de um "ajuste fino" pelo governo para conter a expansão do consumo.
"A indústria passa por um repique. Há variáveis, como a demanda interna e externa e o emprego, que apontam atividade intensa na indústria, próximo ao que vigorou no final do ano passado. (...) Mantido esse ritmo de atividade, que a Sondagem sinaliza, é possível haver descasamento entre a oferta e a demanda, não tão pontual, e se faria necessária alguma medida para conter o consumo", diz Campelo, que sugere o aperto fiscal --nos gastos do governo-- como a melhor ferramenta para conter o consumo sem precisar aumentar a taxa de juros.
Segundo Campelo, caso a disposição do consumidor às compras se mantenha --reforçada pelo baixo nível de inadimplência e aumento do poder aquisitivo--, pode-se chegar a uma taxa não sustentável de crescimento. "Não é o caso de frear a expansão, mas adequar a taxa de crescimento ao PIB potencial, entre 4% e 4,5%", avaliou.
Ainda que os dados da Sondagem Industrial, apresentados nesta segunda-feira pela FGV, não "sejam explosivos", como definiu o professor, o ICI (Índice de Confiança da Indústria) apontou alta de 5,8% do otimismo do empresariado em março, após um período de acomodação na virada do ano e do resgate do patamar de crescimento observado na maior parte do segundo semestre.
A variação do índice sobre fevereiro superou a alta registrada em março do ano passado sobre fevereiro (5,1%). Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o ICI registrou variação de 4,5%, superior aos 3,7% apurados em fevereiro. A alta deste mês quebra uma seqüência de quatro meses em que o índice vinha apresentando desaceleração, na mesma base de comparação.
Segundo a FGV, a demanda por produtos industriais mantém-se aquecida. A proporção de empresas que avaliam o nível atual de demanda como forte aumentou de 27%, em março de 2007, para 31%; a parcela das que o avaliam como fraco recuou de 10% para 7%.
Sobre as previsões para o emprego industrial, das 1.068 empresas consultadas, 37% prevêem aumento do contingente de mão-de-obra nos próximos três meses, e 16%, diminuição. Em março de 2007, estas parcelas haviam sido de 25% e 14%, respectivamente.
A FGV informou ainda que o Nuci (Nível de Utilização de Capacidade Instalada), indicador que mede o uso de máquinas e equipamentos das indústrias, atingiu 85,2% em março, após 84,7% em fevereiro. Na série mensal, trata-se do maior nível desde dezembro do ano passado, quando atingiu 86,7%.
Quanto ao nível de estoques, Campelo afirma que o item passa por um período de equilíbrio: 6% afirmam ser insuficiente e 6% consideram ser excessivo (em outubro do ano passado, em uma fase de forte expansão da indústria, 10% avaliaram que era insuficiente e 6% excessivo).
"É uma variável que caminha junto com o nível de utilização da capacidade instalada. Curiosamente, houve ajuste nos útlimos meses, seja por relativa acomodação da indústria ou por investimentos que chegaram à produção. Não há indícios de um superaquecimento em março, diferentemente do que indicava em outrubro", avalia Campelo.
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