Queda do uso da capacidade instalada na indústria afasta inflação, diz CNI
ALEXANDRA BORGES
Colaboração para a Folha Online, em Brasília
O uso da capacidade instalada (UCI) da indústria --que caiu de 83,1% em janeiro para 82,9% em fevereiro, de acordo com os dados divulgados hoje pela CNI (Confederação Nacional da Indústria)-- afastam o risco de inflação do setor, segundo os economistas da entidade.
Segundo Paulo Mol, da Unidade de Política Econômica da CNI, a desaceleração do índice demonstra que os "fortes investimentos" que as indústrias fazem desde 2004 começam a "maturar". Isso mesmo com a expansão real das vendas de 11,5% nas vendas sobre o mesmo mês de 2008.
"Não existe o risco de inflação pela demanda [quando a procura por produtos é maior que a oferta, o que faz subir o preço]. Atualmente a demanda está maior que a oferta, mas essa diferença está sendo coberta pelas importações e a tendência da oferta é crescer ainda mais", afirmou.
Ele lembrou ainda que o crescimento da utilização da capacidade instalada está concentrado em setores que estão dispostos a investir. "No ciclo de crescimento econômico de 2004 foi diferente, a utilização da capacidade instalada aumentava um ponto percentual por trimestre. Agora não, estamos com um índice elevado mas relativamente estável. E, para nós, é bom que este índice seja elevado, só assim os empresários decidem investir", afirmou.
Paulo Mol lembra que apenas um setor --produção de veículos automotores-- é responsável por 40% do aumento da UCI em 12 meses. Em fevereiro de 2007, o índice dessazonalizado estava em 81,7%.
Flávio Castelo Branco, gerente executivo da Unidade de Política Econômica da CNI vai além: para ele é importante que o governo não aumente os juros básicos da economia, pois isso frearia o crescimento econômico.
Segundo ele, o governo precisa incentivar o investimento, para que a indústria mantenha a capacidade de atender ao crescimento da demanda. "Não existe hoje inflação da indústria. Isso é visto mesmo no IPCA [índice oficial de inflação do governo], que está acumulado em 4,56% nos últimos 12 meses. Se você retirar deste índice três produtos, carne, leite e feijão, este índice estaria acumulado em 3,4% neste período", disse.
Castelo Branco lembrou ainda que o aumento dos juros --a Selic está em 11,25% ao ano--, além de reduzir o consumo de produtos comprados por crediário, como automóveis, móveis e eletrodomésticos, também pode inibir o investimento.
"Se a taxa Selic subir, fica maior a relação dela sobre a Taxa de Juros de Longo prazo (TJLP, utilizada nos empréstimos industriais do BNDES) e isso pode deixar o investimento cada vez menos atrativo, pois o empresário pode decidir aplicar o dinheiro ao invés de investir na sua empresa", disse.
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