Dinheiro
04/04/2008 - 13h41

Mercado de trabalho fraco nos EUA aumenta chance de recessão

CLAIRE GALLEN
da France Presse, em Washington

A forte retração do mercado de trabalho em março nos Estados Unidos, com o corte de 80 mil vagas e um salto do índice de desemprego para 5,1%, em meio à crise imobiliária e financeira, faz com que um cenário de recessão comece a se delinear.

Trata-se de uma dupla decepção para os analistas, que esperavam o corte de 50 mil postos de trabalho, após os 76 mil de fevereiro, e uma taxa de desemprego de 5%, contra 4,8% no mês anterior.

"Alguns se perguntam se estamos em recessão, mas agora a dúvida não existe mais. Estamos claramente em recessão", considerou Robert Macintoch, economista chefe da Eaton Vance.

O nível de cortes de empregos de março é o mais elevado já registrado desde março de 2003, no início da guerra do Iraque, e o desemprego está em seu nível mais alto desde setembro de 2005, após a passagem do furacão Katrina, informou nesta sexta-feira o Departamento do Trabalho.

Março marca também o terceiro mês consecutivo de supressões de empregos. No total, a economia norte-americana perdeu 232 mil postos de trabalho durante o trimestre passado.

"Este relatório sugere que o crescimento será negativo no primeiro trimestre, com uma contração de 0,5% do Produto Interno Bruto", estimou Drew Matus, economista da Lehman Brothers.

Uma recessão é cada vez mais amplamente admitida nos Estados Unidos, onde o presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central do país), Ben Bernanke, reconheceu pela primeira vez na quarta-feira que tal cenário era "possível".

O pessimismo dos norte-americanos aumenta e dois em cada três consideram que a economia já está em recessão, de acordo com uma pesquisa "New York Times/CBS" divulgada nesta sexta-feira.

Enquanto a crise atingir apenas o setor imobiliário ou financeiro, a economia poderá se manter incólume. O relatório sobre o emprego, no entanto, indica que a crise terá reflexo em diversos setores.

O setor da construção perdeu 51 mil postos de trabalho em março e a indústria, 48 mil, em grande parte no setor automobilístico. Os serviços para empresas demitiram 35 mil pessoas e o comércio varejista, 12 mil, em reação à queda do consumo das famílias.

Por outro lado, o setor público contratou 18 mil pessoas, o setor de entretenimento também absorveu 18 mil, e os setores de educação e saúde mantiveram boa forma com 42 mil contratações.

"Um dos aspectos mais marcantes é que o desemprego parece se propagar para além da construção e da indústria. Alguns setores começaram a se deteriorar e isso sugere que sem dúvida não terminamos com as demissões", ressalta Matus.

Segundo ele, a economia perderá empregos durante "um ano pelo menos" e o desemprego se situará "bem além dos 6%" da população ativa. Estas perspectivas devem fazer o Fed diminuir ainda mais o empréstimo de dinheiro.

"A reação do Fed será de manter o caminho da diminuição das taxas", considera Stephen Gallagher (Société Générale), que aposta em uma redução de 0,25 a 0,5 ponto percentual na próxima reunião do banco central, nos dias 29 e 30 de abril. A taxa hoje está fixada em 2,25%. Mas não é certo que o Fed vá muito mais longe.

Os analistas ressaltam que as quedas das taxas ocorrem com uma forte defasagem de tempo, e que deverão gerar seus frutos a partir do terceiro trimestre, ou seja, no momento em que o plano de recuperação econômica começar a fazer efeito.

"O Fed com certeza vai baixar suas taxas em 0,5 ponto percentual e em seguida as manterá em 1,75%", estima Macintosh.

 

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