Dinheiro
10/04/2008 - 13h41

Cresce preocupação nos países ricos com revoltas motivadas pela fome

da France Presse

Os países ricos aumentaram nos últimos dias seus apelos por ajuda aos mais pobres para que enfrentem a alta dos preços dos alimentos, enquanto a onda de protestos contra a fome se generaliza no Haiti, onde provocou a morte de cinco pessoas e deixou 60 feridos.

O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, enviou uma mensagem a seu colega japonês, Yasuo Fukuda, para pedir que durante a próxima cúpula dos oito países mais industrializados (G8), que ocorrerá no país em julho, o impacto dos biocombustíveis no preço dos alimentos seja examinado.

"O aumento do preço dos alimentos ameaça anular os avanços em matéria de desenvolvimento obtidos nos últimos anos. Pela primeira vez em décadas, o número de pessoas que sofrem com a fome aumenta", alertou Brown na carta.

A França está muito "preocupada" com a revolta desencadeada no Haiti e em outros países, declarou nesta quinta-feira a secretária de Estado para os Direitos Humanos Rama Yade, que pediu aos países doadores que "atendam com urgência" o pedido de 500 milhões de dólares feito pelo Programa Alimentar Mundial (PAM).

"Nós, franceses, estamos muito preocupados com esses motins de fome. É preciso pôr a globalização em seu lugar", disse Rama Yade.

No Haiti, o presidente René Preval pediu calma depois que o país foi cenário, na quarta-feira, de novos distúrbios provocados por uma súbita alta dos preços dos produtos de primeira necessidade.

Desde que começou a crise no Haiti, há uma semana, pelo menos cinco pessoas morreram e cerca de 60 ficaram feridas, segundo um registro de fontes ligadas ao governo.

No início de abril, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, havia proposto um "novo contrato" alimentar em nível mundial para enfrentar o aumento dos preços dos produtos agrícolas.

"Este novo contrato tem como objetivo enfrentar tanto as emergências alimentares como estimular o necessário desenvolvimento a longo prazo da agricultura", destacou Zoellick em uma entrevista divulgada nesta quinta-feira pelo jornal francês "Le Monde".

Nos últimos meses, vários países africanos também foram sacudidos por revoltas motivadas pela fome, como Mauritânia, Camarões, Costa do Marfim, Burkina-Faso e Senegal.

"Delineia-se uma crise alimentar mundial, menos visível que a crise do petróleo, mas com o efeito potencial de um verdadeiro maremoto econômico e humanitário na África", advertiu na terça-feira o comissário europeu para o Desenvolvimento, Louis Michel.

Os líderes estão submetidos à pressão do aumento dos preço do arroz na Ásia e da multiplicação das greves por aumentos salariais frente à alta do custo de vida.

O grande crescimento de economias emergentes como Brasil, China e Índia se soma às más condições meteorológicas em países produtores como a Austrália, assim como à especulação financeira e à demanda por cereais para a produção de biocombustíveis.

"O Fundo Monetário Internacional destacou que em um ano houve um aumento de 40% nos preços dos alimentos, com conseqüências desastrosas. No momento em que os países pobres precisam desesperadamente dos países ricos, os orçamentos para a ajuda ao desenvolvimento são reduzidos", denunciou a organização humanitária Oxfam internacional.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos, anunciou na semana passada um corte da contribuição financeira de seus membros aos países em desenvolvimento de 8,4% em 2007, queda registrada pelo segundo ano consecutivo.

 

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