Diretor da ANP diz ter autoridade para falar de megacampo; governo descarta punição
LORENNA RODRIGUES
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
O diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), Haroldo Lima, negou nesta terça-feira que tenha anunciado a descoberta de um novo campo de petróleo pela Petrobras. Lima explicou que apenas reproduziu informações publicadas na revista americana do setor energético "World Oil", em fevereiro --segundo ele, a publicação é pouco lida no Brasil. A mesma explicação já havia sido dada ontem pela ANP.
Além disso, Lima afirmou que tem autoridade para falar porque é "membro do governo" e não é subordinado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), órgão que regula o mercado de capitais.
Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em Brasília, nesta terça, Lima refutou que sua declaração seja novidade. "Não fiz anúncio de nada. Eu sou autoridade, não sou subordinado à Comissão de Valores Mobiliários. Sou membro do governo e estava falando para um público especializado", disse.
| Sérgio Lima/Folha Imagem |
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| Diretor-geral da ANP, Haroldo Lima, falou no Senado sobre megacampo de petróleo |
Apesar das críticas que o diretor recebeu e da forte repercussão da declaração no mercado, o governo descarta qualquer punição. "O Haroldo [Lima] tem um mandato. Foi eleito pelo Senado. Não se cogita sanção", afirmou o ministro Edison Lobão (Minas e Energia).
Ontem (14), no Rio, em seminário da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Lima disse que o bloco BM-S-9, conhecido como Carioca, pode ser o terceiro maior campo de petróleo do mundo. Segundo ele, o poço, que teria reservas em torno de 33 bilhões de boe (barris de óleo equivalente), seria cinco vezes maior que o megacampo de Tupi, na Bacia de Santos.
A declaração provocou alvoroço no mercado financeiro e as ações da Petrobras subiram 5,62% (ação preferencial) e 7,67% (ação ordinária). Hoje, as Bolsas de Londres e Madri, na Europa, sobem com a repercussão do possível megacampo.
Para Lima, investidores usaram suas declarações para especular e ganhar dinheiro com a valorização das ações da Petrobras. " Isso não é problema meu. É um problema da Bolsa de Valores. Nem sei onde fica essa Bolsa de Valores", disse o presidente da ANP.
Lima afirmou ainda que não tem nada comprovado e que existem perspectivas de grandes descobertas, mas que deverão ser feitos novos testes.
Lobão também afirmou que não dispõe de informações detalhadas a respeito da perfuração do poço citado por Lima. "Não tenho condições de dizer se as informações são improcedentes. Houve uma perfuração de um poço. Os dados estão sendo analisados. Não tem como dizer se a situação é tão boa, média ou não é o que o foi dito", afirmou o ministro.
Também no Senado, o diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme de Oliveira Estrella, afirmou que a estatal tem processo constante de investimentos em buscas por reservas. "A Petrobras está em uma contínua avaliação desta área [Carioca] para que nós tenhamos dados concretos."
Críticas
Em nota divulgada ontem, a CVM avaliou como prejudicial as informações divulgadas sobre o bloco Carioca. "Esse tipo de comunicação de fatos relevantes deve ser feita exclusivamente pela companhia, utilizando os canais oficiais de comunicação com a CVM e com o mercado, garantindo assim o acesso simultâneo e amplo à notícia", informou a CVM.
Por meio de nota, a Petrobras explicou que a continuidade das atividades exploratórias da região onde está o bloco Carioca "inclui a perfuração de novos poços, teste de formação de longa duração e novos estudos geológicos para comprovar a abrangência da descoberta".
"Dados mais conclusivos sobre a potencialidade da descoberta somente serão conhecidos após a conclusão das demais fases do processo de avaliação, e serão informados ao mercado oportunamente."
Também criticou Lima o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que considerou uma "precipitação indevida" o anúncio, já que nada ainda está confirmado. Já Paulo Bernardo (Desenvolvimento) afirmou que esse tipo de anúncio deve ser feito de "forma legal".
O mesmo tom foi usado pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que pediu "cautela". "Temos que ter cautela nessa matéria. Recomendei que a Petrobras tomasse a posição oficial por parte do governo e que tranqüilizasse de todas as maneiras o mercado, seja do ponto de vista da prudência, seja do ponto de vista das medidas que ainda terão que ser tomadas para uma avaliação mais segura em relação às descobertas", afirmou.
| Arte Folha/Arte Folha | ||
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